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Terça-Feira, 20 de Novembro de 2018
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Homenageado da 11ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, Walter Tournier fala sobre animação

O uruguaio, com mais de 30 anos como cineasta, reflete sobre a importância da animação e do cinema para crianças

Carolina Moura
Florianópolis
Divulgação
"Selkirk, o verdadeiro Robinson Crusoe" abre a programação da mostra nesta sexta (29)

Homenageado nesta edição da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, o uruguaio Walter Tournier, de 67 anos, já dedicou mais da metade de sua vida ao cinema de animação.  Em seus filmes, cerca de 20 no total, ele faz questão de abordar temas que considera importantes para a formação, sempre com consciência dessa responsabilidade. “Temos que levar em conta, no momento que fazemos uma obra cinematográfica, que ela será vista por dezenas ou milhares de pessoas, e que estamos transmitindo algo para as crianças atentas à tela, estamos entrando em suas cabecinhas e essa é uma enorme responsabilidade”, diz o cineasta.

Hoje, o seu filme “Selkirk, o verdadeiro Robinson Crusoe”, que Tournier levou dez anos para completar, abre a programação da mostra em pré-estreia nacional. A história é de um pirata inglês que ganha a inimizade de toda tripulação do navio e é abandonado em uma ilha deserta, onde deve descobrir uma nova forma de ver o mundo. Voltado para todos os públicos, o filme remete à capacidade do ser humano de mudar. “Às vezes os adultos precisam de educação, é só olhar como está o planeta, e a animação poderia ajudar”, diz Tournier, que também ministra uma palestra sobre animação na América Latina na segunda-feira. Antes de chegar à Ilha, ele falou com o Notícias do Dia, por e-mail. 

Divulgação
Tournier busca formas de tratar de assuntos mais complexos com as crianças em seus filmes

- Quando começou a trabalhar com a animação? De onde veio o seu interesse?

Comecei na década de 70, meu primeiro filme foi "En la Selva Hay Mucho Por Hacer", uma adaptação de um livro de um dos primeiros presos políticos no Uruguai, que o escreveu para explicar a sua filha de 3 anos por que estava preso. Houve uma razão sócio-política para eu fazer animação, na medida em que queria transmitir determinados valores para a formação do ser humano.

- A animação não impõe limites à imaginação — as fantasias mais loucas são viáveis na produção. Como é trabalhar com esse universo de possibilidades e o que os animadores devem levar em conta ao entrar nele?

É certo que não há limites, mas essa liberdade total faz com que haja necessidade de saber escolher e ser muito criativo para poder transmitir o que se propõe e para que o resultado prenda a atenção, seja divertido se necessário e não entedie. Para mim a mensagem é fundamental e a técnica é um recurso para atingi-la. De nada serve surpreender tecnicamente se não há uma ideia por trás, e hoje com as novas tecnologias é fácil cair nisso.

- O stop motion é uma arte de paciência. Por que você escolheu essa técnica de animação?

A facilidade com trabalhos manuais que tive desde pequeno me é uma das razões de por que uso essa técnica. Por outro lado, desde que comecei a fazer animação buscava realizá-la com os recursos que tinha a mão, no princípio foi o papel recortado, logo a massa de modelar e hoje em dia é um conjunto de diferentes materiais combinados que buscam realizar a animação de uma forma expressiva em que me sinta cômodo. A isso também se soma meu interesse em trabalhar com volume, o espaço real, a profundidade, a textura, o que é reforçada pela incorporação de iluminação e fotografia.

- Quando se trata da produção audiovisual para crianças, há discussões acerca do que é ou não adequados para eles. Quando se leva isso aos extremos, acaba-se produzindo filmes meramente educativos em uma perspectiva escolar, que privam o público infantil de emoções mais complexas. Qual sua opinião sobre esses dilemas?

Quando se colocam esses temas, me interessa tocá-los com a ideia de encontrar uma solução positiva, não evitá-los, mas tratá-los de forma que as crianças possam questionar ou reverter o seu significado. Não é ocultando que ajudamos na formação e crescimento. Não estou de acordo que todas produções sejam educativas, isso cai bem dentro de um campo específico da educação. Estou de acordo com a produção de animações de entretenimento e aquelas que entretendo possam transmitir valores que colaborem com a formação do ser humano, especialmente das crianças, o que é muito diferente de ser educativo.

- O personagem do filme que abre hoje na Mostra, Selkirk, por exemplo, tem aspectos controversos da natureza humana — é egoísta e rebelde. Como você trata esses temas?

Esses aspectos controversos são a essência do filme. Nos importou muito marcar que o ser humano tem suas arestas, seus lados positivos e negativos, que não é perfeito e sobretudo que pode mudar e superar-se, nesse caso, com o contato com a natureza. Ele pode mudar seus valores e adequar-se a novas situações, pode superar sua incapacidade e descobrir seu potencial.

- Como você vê a produção de animação na América Latina? Vemos um crescimento no Brasil, mas estamos começando ainda.

Em muitos lugares estamos começando. A animação na América Latina é cíclica, de repente aparecem algumas produções, mas isso não garante a permanência no tempo. A maioria das produções tem sido por iniciativas individuais ou por circunstâncias nas quais produzir poderia ser rentável. Em qualquer dos casos, elas têm sido esporádicas. E creio que a animação está crescendo no continente, mas quando vejo que no recente Festival de Annecy (na França), importante para qualquer animador, dos 244 filmes da seleção final apenas dois eram da América Latina, me dá muito para pensar. Ou não há produção ou sua qualidade está problemática. O desenvolvimento da produção em animação fica na mão dos apoios estatais disponíveis em cada país, e não creio que nenhum dos apoios que existem em toda a América Latina seja suficiente.

Serviço

O quê: Abertura da 11ª Mostra de Cinema Infantil com “Selkirk, o verdadeiro Robinson Crusoe”, de Walter Tournier

Quando: 29/6, 19h

Onde: Teatro Pedro Ivo, rod. SC - 401, Km 5, 4.600, Saco Grande, Florianópolis, tel. 3665-1630

Quanto: Gratuito

Para os adultos

O quê: Palestra com Walter Tournier sobre animação na América Latina

Quando: 2/7, 14h

Onde: Auditório do CFH, UFSC, Campus Trindade, Florianópolis, tel. 3721-9330      

Quanto: Gratuito

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