Publicidade
Domingo, 23 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 27º C
  • 18º C

Há 30 anos Florianópolis perdia Cascaes, que retratou a cidade, seu povo, seus hábitos e crenças

Artista foi a fundo no estudo da cultura local e pela tradição oral recuperou histórias e costumes

Leda Malysz
Florianópolis

Divulgação/ND
Franklin Cascaes Mula sem cabeça
Lendas como a da mula-sem-cabeça foram retratadas pelo artista

Em volta de uma mesa de tampa de vidro na casa de seu Hercílio Marciano, de 90 anos, na Barra do Sambaqui, a dificuldade que Franklin Cascaes (1908-1983) sentia desde a década de 40 em administrar o fato de que o velho e tradicional não pode coexistir com o novo e moderno, ainda persiste. Na última sexta-feira, completaram 30 anos da morte de Cascaes, que pesquisou e mergulhou em infindos elementos da cultura popular dos anos 40, 50, 60 e 70 em Florianópolis e os transformou em arte feita de escritos, desenhos e esculturas.

Nesse tempo, a obra do artista recebeu um tratamento de altíssima qualidade técnica em termos de restauro e conservação pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), mas isso não basta, segundo o maior especialista na obra de Cascaes, Gelci José Coelho, o Peninha. “A obra recebeu um cuidado primoroso da universidade, mas parece que não adiantou. O sonho de Cascaes era que mais de 40 conjuntos de esculturas estivessem disponíveis para a população conhecer as manifestações culturais do legado açoriano. Que ela possa atender estudantes, servir ao lazer da cultura e que os turistas, através dela, saibam como nos vivemos, no que acreditamos. É uma obra que deve ficar exposta, que não se presta pra ficar guardada ou ser mostrada separadamente, com olhar meramente estético”, diz.

Franklin começou a se dedicar ao seu ofício, por volta de 1948. Sem diploma universitário, é encarado como folclorista, antropólogo ou pesquisador, mas conforme especialistas, é artista. Além das esculturas, ele deixou desenhos e centenas de anotações, além de cadernos e outros documentos. Na sua temática, religião, sociedade, folclore e meio ambiente.

Tanto tempo passou e hoje, na casa de seu Marciano, que viveu os mesmos tempos de Cascaes, temas essencialmente presentes na obra do artista continuam contemporâneos. Acompanhado de dois filhos, o caçula Renato, de 45 anos, e Célio, de 51, ele conta de seu tempo, nas lavouras de café e mandioca, e nas pescas, com peixes, barcos e marés, suas atividades preferidas, se anima entre lembranças e bons sentimentos, até chegar a hoje e constatar: “tudo diferente, uma ilusão”. Marciano diz não sentir saudade e sim uma espécie de agradecimento por seu tempo vivido do jeito que foi e vai aceitando as mudanças.

Cascaes tinha sentimento igual, conta o diretor do Museu da UFSC, Hermes José Graipel Junior. Nos tempos de industrialização e construções em ritmo velozes por toda parte, ele via o velho ser colocado fora para dar lugar ao novo sem encontrar paz. “Ele critica veementemente o poder do dinheiro, que vai passando por cima do homem, da Natureza, e da religiosidade. É um dos primeiros que grita pelos guarapuvus derrubados nas matas, a árvore da canoa de um pau só”, diz Graipel.

Temas: de costumes e bruxas à crítica social

Nas obras de Cascaes, Boitatá, as bruxas, anjo Lúcifer e costumes locais são os temas das narrativas, com religiosidade e crítica social recorrentemente presentes. Em seus textos, Cascaes insere, sempre que pode, a moral religiosa, que assegura: “quando duvidas, ultrapassas ou esnobas a justiça divina, um castigo é esperado”, conta Graipel. Assim se dão histórias recheadas inclusive de crítica social, como “Eleição Bruxólica”, que conta das promessas dos homens da cidade em levar a Ponta das Canas vacas que dão “coiada” e nata, manteiga pura e queijo, galinha que coloca ovo estalado, cana que já nasce melado ou carroça de quatro rodas, em troca de votos.

No enredo, Cascais relaciona os fatos com a eleição das bruxas, e vai contando que a bruxa-chefe, quando deixa o cargo, espalha pedaços de fio com o poder da malícia de Lúcifer enovelados para seu grupo. A bruxa que colher mais pedaços, tomará seu lugar, e a velha vai “morrê sossegada mordendo dente de aio do arrependimento dos máli que fez pros seus vivente, lá de dentro dos fogos das Caldera dos inferno do demonho que foi o patrão dela”.

Para Graipel, a religiosidade de Franklin e da época se refere também a uma questão contemporânea: “Filósofos avisaram: nos tiraram Deus e nos deram uma necessidade de consumo que não serve para nos suprir. A razão não foi suficiente para nos ajudar a nos entender como pessoas nem em relação ao mundo” afirma Graipel. “E com a tecnologia, nunca fomos tão sozinhos e nunca ficou tão fácil fazer contato com os outros."

Divulgação/ND
Franklin Cascaes boi tatá
Boi-tatá na visão de Franklin Cascaes

Cascaes e a cultura local

Com pouco mais de 20 anos, o trabalho de Franklin Cascaes começou a ficar conhecido quando retratava a via sacra em esculturas de areia na praia de Itaguaçu. Naquele tempo, foi convidado por Cid da Rocha Amaral, diretor da Escola de Aprendizes e Artífices de Santa Catarina, a iniciar seus estudos, e em 1941 ele se torna professor da antiga Escola Industrial de Florianópolis. Aos 38 anos, motivado pelo Primeiro Congresso Catarinense de História, em 1948, com a meta de destacar a contribuição açoriana para a construção da identidade cultural catarinense, ele se empenha em conhecer a cultura local e trabalha artisticamente a partir dela. Para tanto, Cascaes percorre diferentes cantos da Ilha de Santa Catarina e seus entornos continentais para conhecer a vida nativa da região. Levava cadernos onde fazia anotações e desenhos. Trouxe para a Capital o primeiro gravador – que gravava em arame. Nas pesquisas, desenvolvia imagens impressionantes em técnica e estética feitas em desenhos a lápis, e depois, recriava esse universo através de esculturas em argilas.

Franklin é então convidado a integrar a equipe do Museu da UFSC para formar ali o núcleo de cultura popular, além dos de antropologia e de arqueologia, já existentes. Em 1970, foi aposentado contra sua vontade, depois de a mulher e companheira de pesquisas, Elizabete Pavan Cascaes, morrer.

Hoje sua obra está no Museu da UFSC. Nos últimos 20 anos, conta Graipel, ela passou por trabalhos de conservação e restauro, e hoje está em boas condições, com uma recém-contratada restauradora a postos. O desejo de Cascaes era de que sua obra fosse trabalhada através de um centro de arte, com oficinas e apresentações que aliassem a escrita, artes plásticas, danças e teatro. “Hoje sua obra ganha essencial importância pela vasta fonte de pesquisa para estudiosos de diversas áreas sobre a época entre os anos 40 e 70 na Ilha”, diz Graipel. Outras formas de a tratar estão a surgir, segundo ele.

Divulgação/ND
Franklin Cascaes
“Eu acredito na mente das pessoas, que cria tudo o que elas acreditam. Se alguém acredita em bruxas ou em Nossa Senhora ou no Demônio, então, para ele, na sua mente, essas entidades existem. O meu trabalho é o de apenas anotar ashistórias que esse povo conta.”

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade