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Há 120 anos morria Cruz e Sousa, o catarinense que introduziu o movimento simbolista

Data de morte do poeta passa praticamente sem homenagens na cidade

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
19/03/2018 às 12H24

Excetuando uma exposição de 24 banners nos gradis do palácio que leva seu nome, no Centro de Florianópolis, a passagem dos 120 anos de morte de João da Cruz e Sousa (1861-1898) será praticamente ignorada na cidade. Nascido e criado na Ilha, ele levou uma vida miserável, especialmente quando se mudou para o Rio de Janeiro, em 1888, na tentativa de fazer com que a sua poesia fosse reconhecida na Corte, então o maior centro irradiador da cultura e dos costumes no país.

Filho de escravos alforriados, o máximo que conseguiu na terra natal foi ter educação formal, patrocinada pelo tutor da família, Guilherme Xavier de Sousa, e editar pequenos jornais literários como “Colombo” e “O Moleque”.

Cruz e Sousa nasceu em Nossa Senhora do Desterro em 24 de novembro de 1861 e morreu jovem, em 19 de março de 1898, em Curral Novo (atual município de Antônio Carlos) em Minas Gerais - Reprodução/ND
Cruz e Sousa nasceu em Nossa Senhora do Desterro em 24 de novembro de 1861 e morreu jovem, em 19 de março de 1898, em Curral Novo (atual município de Antônio Carlos) em Minas Gerais - Reprodução/ND



Agora, a Assembleia Legislativa do Estado tem um projeto que confere, pós-morte, o título de promotor que a população de Laguna se recusou a dar-lhe em 1884, nomeado que fora pelo presidente da província, Gama Rosa. Seria uma homenagem tardia, simbólica, um mea culpa pela injustiça cometida mais de um século atrás, que não repara o erro, mas reconhece um direito então negado pela questão da cor. Também deverá ter início nas próximas semanas a restauração do Memorial Cruz e Sousa, localizado no antigo palácio do governo, na praça 15 de Novembro, e criado em homenagem ao poeta que introduziu e melhor representou o movimento simbolista no Brasil. O próprio Palácio Cruz e Sousa está fechado para reforma e deve ser reaberto ao público só no segundo semestre deste ano.

As últimas publicações de livros de Cruz e Sousa foram feitas pela Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), em 2011. Naquele ano, a instituição lançou “Cruz e Sousa – Poemas”, da escritora e tradutora Eglê Malheiros, reedição do livro publicado em 1988, no centenário de morte do poeta. A Unisul também reeditou “Cruz e Sousa – Interpretações”, organizado pelo escritor Salim Miguel, originalmente publicado em 1961, na passagem dos 100 anos de nascimento do simbolista catarinense.

O número limitado de reedições tem relação com o mercado literário, acredita a professora Marie-Helène Catherine Torres, autora de “Satanismo em Baudelaire e Cruz e Sousa” (EdUFSC, 1998). “Poucos são os compradores e os leitores de poesia”, constata ela. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro a cada cinco anos, mostrou que em 2016 a poesia ocupava o oitavo lugar entre os gêneros mais lidos no país. “Poucas editoras investem na publicação de poesia, pois as vendas são restritas a um número ínfimo de leitores”, diz a professora. No entanto, este é um leitor diferenciado, tanto que os poetas não deixaram de existir –razão pela qual Marie-Helène afirma: “A poesia é o coração da literatura!”

Aproximações com Baudelaire

Além do ensaio citado, Marie-Helène Torres traduziu poemas de Cruz e Sousa para o francês, mas a publicação circulou apenas no Brasil. Ela também fez traduções para o filme “Cruz e Sousa – O poeta do Desterro”, de Sylvio Back. A poesia do catarinense está presente nos programas escolares de literatura, talvez sem o destaque merecido, e a UFSC incluiu o livro “Últimos sonetos” entre as obras literárias do vestibular de 2014. Para a professora, isso indica que “existe um esforço por parte da academia em resgatar o poeta”, o que é importante porque o sistema escolar e universitário participa da formação do cânone literário. Ela sugere a tradução de poesias de Cruz e Sousa como um mecanismo der divulgação do autor fora de nossas fronteiras.

A admiração de Cruz e Sousa por Baudelaire é atestada pela citação do francês em “Broquéis” (1893) e pelo nome que deu ao livro seguinte, “Faróis”, título do poema “Phares”, incluído na edição de “Flores do mal”. Na obra predominam os temas da dor, do tédio e da morte, o que aproxima os dois poetas e estabelece um paralelismo no qual os “princípios satânicos” interferem-no momento do ato de criação. Diz Marie-Helène: “Eros corresponderia ao ‘Idéal’ baudelairiano, Tanatos ao ‘Spleen’ (angústia e evasão) e à ‘Revolte’ (binômio Deus\Satã), enfim, o equilíbrio Eros\Tanatos corresponderia à Morte baudelairiana”.

Num ensaio sobre a poesia afro-brasileira, o estudioso francês Roger Bastide colocou Cruz e Sousa ao lado Mallarmé e Stefan George entre os maiores simbolistas. Parnasiano no início, o catarinense inaugurou e se tornou a principal referência do simbolismo no Brasil. Mais que isso, influenciou a poesia feita no século 20 no país.

 

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