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Quarta-Feira, 26 de Setembro de 2018
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"Brancura", curta de Giovana Zimermann, é lançado em Florianópolis nesta quarta-feira

O audiovisual vem à tona no momento em que as discussões sobre agressão à mulher estão em alta

Karin Barros
Florianópolis
Beta Iribarrem/Divulgação/ND
Aimèe sofre abuso sexual e desenvolve obsessão pela limpeza do corpo


Na mais pura coincidência, no momento em que o país inteiro levanta questionamentos sobre o estupro, a artista e cineasta Giovana Zimermann lança o segundo curta-metragem de uma trilogia, “Brancura”, que trata do sistema machista da sociedade, que responsabiliza e traumatiza a mulher vítima de violência. “Temos
que usar a arte como máquina de guerra, porque o audiovisual é máquina de captura também, e muitos processos de machismo e exploração do feminino são usados pelo cinema”, lembra Giovana.

O lançamento ocorre nesta quarta-feira, às 20h, no cinema do CIC, em Florianópolis. Para ela, o mais irônico
é que a questão veio à tona por meio de audiovisual - o vídeo compartilhado do estupro coletivo no Rio de Janeiro em grupos e redes sociais. Giovana reforça as reflexões sobre o tema com um material feito com recursos do edital do Prêmio Catarinense de Cinema.

As gravações, assim como em “Da Janela”, o primeiro da trilogia, foram feitas em Florianópolis entre 2014 e 2015. Apesar do intervalo, ou tempo de gestação como diz a diretora, entre o primeiro, de 2009, e este, os roteiros continuam se conversando. O terceiro, “A cor da liberdade”, que ainda não começou a ser gravado e pretende integrar também a tecnologia 3D, tem previsão para 2018. A diretora e roteirista explica que as discussões para o “Brancura” surgiram a partir dos debates que aconteciam após as sessões do “Da Janela”. Nele, uma jovem passa pela triste experiência de ser violentada. 

Baseado em fatos reais, agora é a vez de contar com cuidado do momento pós-traumático. “Meu medo era estar mais uma vez mobilizando, colocando em evidência essa violência, por isso decidi trabalhar de uma forma mais branda, pensando na cura de forma poética”, explica ela. O curta relata assuntos que são relevantes, como o direito do aborto. “A menina que sofreu a violência engravidou, e na época a lei ainda não estava em vigência, e ela optou por tomar o abortivo. Ela se sentia suja por isso, levantando também a questão do assassinato”, pontua Giovana. Aimèe (Angélica Mahfuz) é atravessada por violência doméstica. É uma criança que viu o pai matando a mãe, e depois sofreu abuso sexual. “Não é raro que uma criança veja a mãe sofrer uma violência e aceite de forma mais naturalizada a violência com ela mesma”, afirma a diretora. Por isso, no curta, Aimèe vai tendo flashes do passado, guardados no inconsciente, com frases que atormentaram sua infância.

“Brancura” permeia diversas referências ao longo de seus 15 minutos, reflexo da personalidade de Giovana e suas vivências, entre elas a poesia de Cruz e Sousa e de Charles Baudelaire, a pintura de Mondrian, a fotografia “Le Violon d’Ingres”, de Man Ray, a obra “Henry Ford Hospital o La cama volando”, de Frida Kahlo, e a obra da catarinense Raquel Stoff.

Após a exibição, um debate levantará novos questionamentos sobre o assunto com a presença da equipe do filme e da psicóloga policial Maíra Marchi Gomes, que atua na Delegacia da Mulher de São José.

Jovens homens em foco


Giovana Zimermann também é escritora, e aproveita o evento para lançar o livro "Rio de Janeiro e Paris: A Juventude Apache do Cinema na Periferia", que acaba de ser publicado pela editora Autografia, do Rio de Janeiro. 

A obra é o resultado da tese de doutorado da artista, e trata de um estudo crítico sobre as mudanças nas cidades e o que elas têm em comum, por meio de uma filmografia que inclui La Haine (O Ódio), 1995, de Mathieu Kassovitz, e Cidade de Deus, 2002, de Fernando Meirelles e Kátia Lund. 

A autora propõe a realização de uma discussão sobre os dois países a partir de suas características semelhantes – mesmo que possuam diferenças entre si –, como o comportamento dos jovens em uma sociedade do espetáculo e do consumo. Trata da juventude e da barbárie por meio da literatura e cinema, focando em jovens homens.

No livro, para Luiz Eduardo Soares, antropólogo, cientista, político e escritor, a obra é vital. “A obra ensina, instrui, sistematiza, analisa processos sociais complexos, comprando-os no tempo e no espaço, entre Brasil e França. Retoma hipóteses interpretativas sobre as margens, a invisibilidade na sociedade do espetáculo, as contradições da ordem, provocadas pela insinuação rebelde dos devires singulares”, diz. 

Serviço 

O quê: “Brancura”, de Giovana Zimermann
Quando: 8/6, 20h
Onde: Cinema do CIC, avenida Governador Irineu Bornhausen, 5.600, Agronômica, Fpolis
Quanto: gratuito
Classificação: 12 anos

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