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Fundadora da Nugali, de Pomerode, faz dos obstáculos a motivação para empreender

Maitê Lang estudou processos produtivos, o mercado, as variedades do cacau e hoje recebe prêmios internacionais por seus chocolates

Janine Alves
Florianópolis
25/05/2018 às 10H35

Não ouse dizer para Maitê Lang frases como “não dá para fazer”, “não pode ser feito” ou “isso é impossível”. Essas sentenças são mágicas para que ela defina metas e derrube cada obstáculo que vier pela frente. Foi desse jeito que Maitê mudou o planejamento da carreira, mas nem tanto.

Maitê Lang é apaixonada pela produção e pela disposição de afrontar todos os desafios - Daniel Queiroz/ND
Maitê Lang é apaixonada pela produção e pela disposição de afrontar todos os desafios - Daniel Queiroz/ND


Engenheira por formação nascida em Pomerode, apaixonada por processos produtivos, ela trabalhou em empresas de consultoria, na Embraer em São Paulo e na Audi do Paraná, mas em suas viagens constantes descobriu que produzir chocolates poderia ser um bom negócio por aqui. Os pedidos frequentes de parentes e amigos para trazer os doces europeus despertaram o interesse para fabricar o produto com a mesma qualidade dos importados.

Eis que alguém disse “não dá para fazer”, e ela foi lá e fez. Construiu a fábrica em sua cidade, estudou processos produtivos, o mercado, as variedades e escolheu a dedo fornecedores de cacau, além de colaboradores, e produz chocolates que estão entre os melhores – tanto que receberam prêmios internacionais.

Como você entrou no campo da engenharia de produção?
A minha família é toda de empreendedores. Somos de diferentes ramos da indústria – madeira, gráfica, plástico – e cresci nesse meio. Gosto de produção. Adoro ver os caminhões fazendo barulho e levando os produtos embora. Daí veio a opção pela engenharia de produção. Acho que quando a gente quer fazer alguma coisa da vida, a gente faz. Se precisasse trabalhar com serviços eu também trabalharia, mas não me daria tanto prazer. Estudei em escola particular, mas meu pai disse que a universidade teria que ser pública ou eu teria que trabalhar para pagar. E tive mais esta motivação. Foi quando vim para Florianópolis estudar engenharia de produção na UFSC. Trabalhei em grupo de pesquisa, recebia bolsa e dava aula de física, matemática e inglês para adolescentes que estavam em segunda época naquele calorão de janeiro.

Como surgiu a inspiração para se tornar empreendedora?
Quando terminei a faculdade meu pai me perguntou quanto dinheiro eu tinha. No dinheiro de hoje eu teria R$ 500, e ele disse: “Eu completo os outros R$ 500 e você abre uma carrocinha de cachorro quente para ter o seu próprio negócio”. Pareceu tentador, metade do investimento dele a outra metade do investimento meu, mas eu disse não. Arrumei uma vaga de estágio na Andersen Consulting (hoje Accenture), primeiro para aprender alguma coisa a mais. Eram 60 jovens por vaga e eu fui seis vezes para São Paulo de ônibus normal para fazer as entrevistas. Pedi para o meu pai uma ajudinha para pegar pelo menos o ônibus executivo e ele disse: “A minha proposta é completar o seu dinheiro para você fazer o seu negócio de cachorro quente”. “Então está bom”, eu disse a ele, “vou de ônibus normal”. Fiz as entrevistas e a moça perguntou se eu era do ITA ou da USP e eu disse: “Não, sou da Universidade Federal de Santa Catarina”. Ela disse que eles não aceitavam, mas insisti: “Isso porque você não viu o meu currículo”. Eu não tinha grande coisa, mas disse que iria conversar com ela: “Vou te dar outra visão do negócio”. Eu insisti tanto que acho que fui a primeira estagiária que não era da USP ou do ITA. De lá fui para a Audi quando eles trouxeram a planta. Aí descobri uma coisa importante: eu gosto de coisa nova, que está começando. E essa vontade de ser empreendedora estava no sangue, estava ali, mas ficou guardada.

E como você chegou à receita de sucesso desses chocolates de qualidade e que estão classificados entre os melhores do mundo?
Antes quem fazia chocolate comprava o cacau já esmagado dos grandes transformadores. A maioria das empresas ainda faz isso, mas como somos chatos com a qualidade, querendo um negócio diferente, abri a fábrica em 2004 e fui para a Bahia no ano seguinte. Lá conheci o meu parceiro até hoje, João Tavares, que estava trabalhando com o cacau gourmet. Um cacau melhor, de aroma, uma produção que preserva a mata nativa. Um cacau que dá muito trabalho para plantar, cuidar, colher, secar e fermentar – e ninguém quer pagar a mais por isso. Então eu disse para o João: “Vamos juntos nisso, eu te pago 100% de prêmio (porque cacau é preço de Bolsa) e vamos desenvolver juntos o cacau para fazer um bom chocolate”. Começamos um processo inovador, parceiro. Depois fomos para o Pará e começamos a trabalhar com o pessoal das cooperativas, um balaio de gato de qualidade de cacau. Fomos então para a Transamazônica, visitamos produtor por produtor, saca por saca identificada. Ajustamos a fermentação e pagamos bem por isso, mas comprando diretamente dos produtores com uma troca de conhecimento muito grande – isso tem um impacto econômico e social bem relevante. Lembrando que eu disse que queria fazer um chocolate 100% brasileiro, e aí disseram que não dava, mas como não? São ingredientes caros, logísticas complexas, mas a troca de conhecimento ajudou em todo o processo.

Houve suporte para um negócio local tão diferenciado?
Tem um monte de gente que nos ajuda. O Sebrae foi um divisor de águas com a criação das novas embalagens para o nosso produto. Mas muitas informações estão espalhadas, o que não pode é ter medo. A Fiesc está sempre de portas abertas. Você vai ao Centro de Negócios Internacionais e eles estão sempre prontos para auxiliar. Aqui em Santa Catarina nós somos privilegiados. Você vai atrás e tem gente para ajudar.

Quais são os próximos desafios?
Eu vendo o produto diretamente, tenho o meu vendedor interno e a terceirização do frete. É uma visão diferente. Hoje a gente se prepara para atender o ponto de vendas multimarcas. O produto, a variedade, a embalagem, o preço, tudo é para ocupar esse nicho. E o grande desafio é pensar a cadeia produtiva como um todo. No que você faz pelas pessoas que trabalham contigo, no impacto que você gera na sua micro comunidade por intermédio dessas pessoas e suas famílias. No que você faz para o consumidor final e o ponto de venda que são os nossos clientes. No que você pode proporcionar de diferente e, principalmente, pensar em tudo o que vem antes: a compra direta do produtor e o respeito ao meio ambiente. Não vejo futuro para empresas que não enxergam isso como um todo.

Deu, sim!
A entrevista terminou com Maitê Lang falando sobre um importante projeto que teve o start com uma das frases mágicas. Em visita a uma fazenda no Nordeste ela pediu as sementes de cacau para plantar no quintal em Pomerode e mais uma vez ouviu um “não dá”. Então ela trouxe as sementes, seguiu cada uma das etapas e acompanha feliz o crescimento das mudas. Agora é esperar as plantas crescerem, a inauguração da fábrica e a chegada das crianças e suas escolas para conhecerem de perto o processo produtivo do chocolate e os pés de cacau.

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