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Fundador do movimento Slow Food defende a pequena propriedade e a produção sem escala

Em Florianópolis e região, iniciativas como as do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar e do grupo Flor do Fruto se alinham ao movimento

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
25/11/2017 às 10H13

O sentido da palavra gastronomia, tão em voga neste momento, vai muito além dos inúmeros programas de televisão que ensinam receitas e promovem concursos acompanhados por milhões de pessoas em todo o mundo. Usando o termo “gastronomia de caçarola”, e demonstrando incômodo com essa distorção, o italiano Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, desqualificou em Florianópolis, onde deu uma palestra este mês, o reducionismo que transforma algumas atrações televisivas em equivocado sinônimo de uma ciência interdisciplinar e complexa que envolve aspectos e noções de agricultura, zootecnia, biologia, genética, química e física – sem falar de seus vínculos com as áreas da antropologia, história da cultura e economia política.

Carlo Petrini comprou brigas ao redor do mundo. Para ele, no Brasil, é preciso flexibilizar leis para produtos coloniais - Joyce Reinert/ND
Carlo Petrini comprou brigas ao redor do mundo. Para ele, no Brasil, é preciso flexibilizar leis para produtos coloniais - Joyce Reinert/ND


Presente na cidade para uma série de encontros e visitas (incluindo a engenhos de farinha no interior da Ilha de Santa Catarina), Petrini mostrou-se, na altura de seus 68 anos, um militante entusiasmado da ecogastronomia, da alimentação saudável e de avanços nas legislações que normatizam a comercialização de produtos da agricultura familiar. “Nunca se falou tanto do assunto como hoje, mas só 10% da gastronomia é cozinha”, disparou o italiano, que comprou brigas ao redor do mundo com autoridades que criam todo tipo de restrição ao que não vem das grandes indústrias do setor alimentício. Neste sentido, ele não tem muitas ilusões quanto ao tamanho das barreiras que os pequenos agricultores vão enfrentar para se fazerem presentes na mesa dos consumidores em geral.

“Fala-se muito em comida, mas o sistema agrícola é um desastre”, afirma Petrini. “A concentração do poder alimentar está em mãos de oito a dez corporações no planeta, o número de pessoas morando nas cidades já ultrapassou o das que vivem no campo e os problemas climáticos, incluindo o efeito estufa e a desertificação, nunca foram tão acentuados. Essas questões cruciais não existiam quando nasceu o Slow Food, três décadas atrás. O futuro será de guerras por terra, água e disputa para comandar o ventre das pessoas. Além disso, a obesidade quadruplicou em muitos países, o diabetes tipo 2 aumentou inclusive entre as crianças e o sistema alimentar já responde por 34% do efeito estufa, contra 14% da emissão de poluentes pelos automóveis”.

Produção sem química

Um exemplo de que a desigualdade está crescendo são os 80 milhões de hectares que chineses, indianos e empresas multinacionais compraram na África para produzir alimentos e vender nos centros consumidores da Europa, alijando do processo os moradores nativos. “Os africanos estão sem condições de produzir a própria alimentação”, ressalta Carlo Petrini. Não é por acaso, portanto, que o deserto do Saara e o mar Mediterrâneo sejam gigantescos cemitérios de fugitivos e refugiados que não conseguem chegar ao destino. “Hoje, o tomate que é industrializado na Itália vem da China, e o que é produzido na Europa usa a mão de obra barata dos imigrantes”, informa.

Anderson Romão em seu sítio em Três Riachos. Produção cooperada e certificada chega com qualidade e bom preço ao consumidor - Flavio Tin/ND
Anderson Romão em seu sítio em Três Riachos. Produção cooperada e certificada chega com qualidade e bom preço ao consumidor - Flavio Tin/ND


O que o fundador do Slow Food defende é a valorização da pequena propriedade e da produção sem componentes químicos, respeitando o meio e as peculiaridades de cada comunidade. Em Santa Catarina há a produção de queijo de leite cru, artesanal e saudável, mas a sua comercialização é barrada por critérios sanitários que alijam milhares de famílias do mercado. Neste sentido, Petrini conclama o consumidor a ser um coprodutor, que não apenas compra, mas se engaja na luta pelo direito do agricultor de pequena escala de colocar seus produtos na mesa de quem quiser ou puder adquiri-los.

Considerado pelo jornal britânico “The Guardian”, em 2009, uma das 50 pessoas “que poderiam salvar o mundo”, Petrini tem seguidores em todos os continentes. Em Santa Catarina há vários núcleos e “fortalezas”, projetos de desenvolvimento da qualidade dos produtos em territórios determinados, envolvendo técnicos e entidades locais. Um deles, focado no butiá, é tocado pelo produtor Antonio Augusto, da Rede Ecovida, no Complexo Lagunar Sul, na região de Laguna.

A flexibilização das leis que regem a comercialização de produtos coloniais foi defendida também por Giselle Miotto, facilitadora do movimento Slow Food para o Sul do Brasil. “Os consumidores são grandes responsáveis pela mudança de paradigmas”, afirmou.

Orgânicos para a região

 No sítio de quatro hectares que mantém em Três Riachos, no interior de Biguaçu, o engenheiro agrônomo Anderson Romão faz um trabalho que ajuda a melhorar a qualidade dos produtos que chegam à mesa dos moradores da Grande Florianópolis. Sem usar fertilizantes, agrotóxicos e dissecantes, ele faz parte de um grupo de produtores chamado Flor do Fruto, formado por 12 famílias, e de uma cooperativa que coloca legumes e hortaliças nas escolas do município e em feiras de toda a região, incluindo a Feirinha do CCA (Centro de Ciências Agrárias), na Universidade Federal de Santa Catarina, realizada todas as sextas-feiras no bairro do Itacorubi, e a feira Vida Cidade, aos sábados, no Largo da Alfândega.

Romão e professora Marlene Grade: trabalho em feiras, restaurantes e entregas diretas ao consumidor - Flavio Tin/ND
Romão e professora Marlene Grade: trabalho em feiras, restaurantes e entregas diretas ao consumidor - Flavio Tin/ND


Na propriedade, Anderson planta feijão de vagem, berinjela, alho poró, tomate cereja, pimentão, couve e aipim, além de folhosos, respeitando as características do solo e a época do ano em que tais culturas se desenvolvem melhor. Também produz e comercializa banana, melancia, abóbora e mel, dentro de um processo de certificação que envolve outros produtores e visitas periódicas feitas por fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária a Abastecimento. A região, de antiga tradição agrícola, foi sendo tomada por profissionais liberais que criam gado ou investem em reflorestamento, enquanto os jovens foram saindo para trabalhar na cidade. Nesse contexto, o núcleo de produtores de orgânicos encontrou o ambiente ideal para atender a demanda da área metropolitana.

Nesse trabalho, todos têm responsabilidades comuns, defendem a certificação de forma cooperada e conseguem fazer frente às dificuldades impostas pelo mercado (e pelos supermercados) à produção sem escala. As trocas e a amizade dos consumidores, no cotidiano das feiras, e as visitas de estudantes e de interessados em conhecer a rotina de produção no sítio estão entre as compensações do trabalho duro e das barreiras enfrentadas pelos produtores.

“Plantamos um pouco de cada coisa, incluindo chás e temperos, fazendo a rotação de cada cultura e garantindo o controle das pragas e doenças”, informa Romão. “Sem intermediários, conseguimos vender os produtos orgânicos nas feiras pelos mesmos preços dos convencionais praticados nos supermercados, como no caso da banana que colhemos e dos ovos que fornecemos por encomenda. A venda direta é que viabiliza nosso negócio, sem a presença dos atravessadores e com a credibilidade dada pela certificação”.

Saudáveis com bons preços

 Boa parte dos resultados alcançados pelos pequenos produtores de orgânicos da Grande Florianópolis se deve ao trabalho do Lacaf (Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar), que funciona no Centro de Ciências Agrárias da UFSC. Os projetos de extensão realizados ampliaram os espaços de comercialização, dentro da filosofia do Slow Food de oferecer produtos saudáveis a preços acessíveis, inclusive a restaurantes e supermercados. A abrangência também foi aumentando, a ponto de incluir produtores de Imbuia, no Alto Vale do Itajaí, no rol dos que colocam itens na mesa dos moradores da região da Capital.

A professora Marlene Grade, que leciona Economia Rural no CCA/UFSC, explica que as células de consumo responsável criadas pelo laboratório permitem a entrega semanal de cestas com produtos orgânicos a consumidores interessados em adquirir alimentos mais limpos e saudáveis. As cestas contêm de nove a 14 itens, a preços que vão de R$ 29 a R$ 53 por semana, incluindo folhosas, frutas, legumes, chás, raízes e grãos. “Assim, a comercialização se torna um ato mais ético e solidário, gerando um espaço de diálogo direto entre produtores e compradores”, afirma ela. “É um trabalho que realiza, dignifica e ajuda na sustentabilidade do planeta”.

Outro fator que respalda o crescimento da agricultura familiar é o gosto dos alimentos obtidos a partir do processo orgânico de produção. “Além de fazer bem à saúde, eles são cheios de vida e não perdem o sabor, como acontece com os produtos convencionais”, diz a professora Marlene. “Através de protocolos, o Slow Food também dá atenção especial a produtos ameaçados de extinção, como o butiá, o pinhão e o berbigão, que são importantes não só pelo valor em si, mas pelos aspectos culturais envolvidos, como o modo de preparar esses alimentos”.

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