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Fundação Franklin Cascaes completa 30 anos resistindo ao pouco investimento municipal

Servidores antigos, ex-superintendentes, artistas e a atual gestora da instituição falam sobre como vêem a situação do órgão que tem espaço reivindicado para projetar o setor na cidade

Karin Barros
Florianópolis
31/07/2017 às 11H44

Com o objetivo de fomentar uma ação cultural forte, autônoma e articulada com os setores turísticos, proporcionando maior autonomia às políticas públicas para a área da cultura em Florianópolis no dia 29 de julho de 1987 nascia a FCFFC (Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes). Contudo, não foi dessa forma que os governos da cidade levaram a instituição nessas três décadas.

Sulanger Bavaresco, JB Costa, Dieve Oehme e Roseli Pereira - Flavio Tin/ND
Sulanger Bavaresco, JB Costa, Dieve Oehme e Roseli Pereira - Flavio Tin/ND


Com diversos registros de sede, a fundação que tem como nome o artista catarinense, pesquisador, ecologista e folclorista, que dedicou parte de sua vida ao registro das tradições, lendas, usos e costumes dos moradores da Ilha de Santa Catarina, hoje se encontra em uma sala no Edifício Berenhauser, na rua Trajano, no Centro.

Criada na gestão do então prefeito Edison Andrino de Oliveira, desde o surgimento já estiveram à frente da instituição Isnard Azevedo, Aldírio Simões, Salim Miguel, Lélia Pereira Nunes, Mário Bittencourt, Vilson Rosalino da Silveira, Rodolfo Joaquim Pinto da Luz, Luiz Ekke Moukarzel, Pedro Almeida, João Augusto F. do Valle Pereira, Vanderlei Farias e, atualmente, Roseli Pereira.

Além dos nomes que passaram pela superintendência da FCFFC nesses 30 anos, o quadro de funcionários também sempre foi instável – estando à disposição da prefeitura sempre que necessário -, o que dificulta de certa forma o andamento dos projetos por ali criados mesmo com os planos de metas.

Mesmo com esse fato de ter o quadro efetivo quase inexistente, pelo menos três servidores municipais conseguiram acompanhar o crescimento da fundação de perto. JB Costa, Sulanger Bavaresco e Dieve Oehme muito mais que vestir a camisa da cultura do município, vivenciaram e respiram a fundação. JB é ator e técnico cultural da fundação há 29 anos. Ele é um dos responsáveis pelos trabalhos de pesquisa e resgate da cultura de Florianópolis. É agitador e programador cultural, e quando ele começou na fundação tinha sede no portal turístico da cidade, na entrada da ponte Pedro Ivo.

JB Costa destaca dois projetos de que fez parte: “Encontro das nações - Brasil de todo os tons”, que foi realizado no Largo da Alfândega e dava oportunidade aos turistas e nativos de conhecerem culturas de todo o país, e o “Encontro de bois de norte a sul”, que mostrava as vertentes dos bois (folclore) de todo o Brasil. Para ele, as mudanças da gestão da fundação também têm seu lado positivo, pois cada superintendente focava em uma área da cultura, criando um leque de conhecimento.

Isnard Azevedo - Renato Gama/Divulgação/ND
Isnard Azevedo foi o primeiro superintendente da fundação - Renato Gama/Divulgação/ND


Sulanger chegou a FCFFC no final da gestão de produtor cultural Isnard Azevedo, o primeiro superintendente da fundação. Foi ela também, que durante a superintendência de Salim Miguel, ajudou a criar o Festival Nacional de Teatro Isnard Azevedo (última edição foi em 2015). Sulanger lembra que por várias vezes a instituição esteve prestes a ter a um fim, porém, hoje é um órgão independente, com possibilidades de convênios e patrocínios que podem levar a memória e a cultura da cidade à frente. “Eu me lembro que a cidade recebeu com muita euforia a criação da fundação, foi como um presente. Eu acredito que a criação dela  foi a prefeitura reconhecendo a necessidade e a potência da cultura da sua cidade”, coloca ela.

A servidora que deve se aposentar em pouco mais de um ano, acha importante um quadro técnico constituído por profissionais habilitados e capazes de contribuir com o trabalho da fundação, e que essas pessoas estão na própria cidade. “Muitas pessoas passaram a morar em Florianópolis porque era um espaço possível de se criar artisticamente”, afirma.

Já Dieve Oehme foi a primeira assessora de imprensa do departamento de cultura da fundação, em 1987. “Eu estava no fim da faculdade e trabalhava no turismo, que era na porta da frente. Então comecei na fundação, mas me requisitaram para o gabinete, embora trabalhando lá sempre eu era requisitada na cultura e servia de apoio aos novo assessores”, lembra ela, que se aposenta no próximo mês.

A jornalista se mostra uma apaixonada pela função que exerceu nas últimas três décadas dentro da prefeitura. “Trazemos a memória da fundação, mas acima de tudo a fundação no coração. Porque vamos além pelo amor, sem se ater em horários. Nós temos paixão pelo que fazemos”, diz.

Na memória dos três servidores municipais é indiscutível a gestão do escritor morto no ano passado Salim Miguel. “Ele construiu condições diferenciadas para gente trabalhar. Era um homem vivido, muito culto e com muitas relações para além da Capital. Ele chamava um por um para conhecer, nos instigar e tocar projetos”, diz Sulanger.    

Artistas clamam  por uma fundação mais atuante

A inquieta classe artística de Florianópolis sempre cobrou e deve cobrar da Fundação. A atriz Bárbara Biscaro vê o modelo usado pela instituição como antigo, de uma época que a cultura era gerida de maneira mais leve, mas que não deu certo. “Com o Plano Nacional de Cultura, foi criada uma Secretaria de Cultura, mas a nossa não tem função nenhuma”, afirma. Ela ressalta ainda o uso do Teatro da Ubro, que está sob os cuidados da Fundação, e que está fechado após embargarem um edital para técnico supervisor do espaço.

Para o ator e diretor Renato Turnes, a fundação é um órgão fundamental para todos que trabalham com a cultura na cidade. “Durante esses anos que trabalho em Florianópolis vejo um esforço enorme de pessoas ligadas à fundação, muito comprometidas em desenvolver projetos e programas que façam a missão da fundação realmente acontecer. A importância da fundação como órgão gestor e fomentador da cultura na cidade é inequívoca. Essas pessoas, que levam a fundação nas costas, são os grandes pontos positivos dessa história”, afirma.

No entanto, hoje, Turnes lamenta o estado das coisas. “Tem acontecido um sucateamento de verbas e o não cumprimento das leis de repasse por parte da prefeitura. Sem dinheiro, nem os mais motivados e preparados funcionários dos quadros da fundação conseguem fazer nada, e a cultura da cidade, rica em manifestações tradicionais e em artistas contemporâneos de todas as áreas, sofre um processo gradual de miséria e apagamento”, pontua. “Fico triste em sentir que merecíamos comemorar a história da fundação, mas ser obrigado a lamentar o descaso dos governantes municipais”, finaliza ele.

Carmen Fossari, diretora de teatro da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e coordenadora da oficina permanente de teatro do Departamento Artístico Cultural, lembra da importância do órgão de fazer ações que destaquem a atuação do artista que dá nome a instituição nas escolas, Franklin Cascaes. Para ela, o auge da Fundação foi na gestão de Salim Miguel, onde as ações estavam a plenos pulmões.

“Não temos uma política de fato de cultura e o orçamento que a legislação obriga a ter. Não é possível fazer cultura porque não é cumprida a legislação vigente. Eles priorizam todos os eventos para elite sem valorizar a cultura fazendo um processo desvalorização periférica”, comenta. Para Carmen, a data é um momento de reflexão.

Ex-superintendentes

De 1997 a 2004 a Fundação Franklin Cascaes ficou ao comando de Lélia Pereira Nunes. Ela explica que na sua gestão foi estabelecida uma política cultural voltada às ações que possibilitassem o desenvolvimento cultural das comunidades e na revitalização de bens e espaços culturais. Incentivou-se a valorização das manifestações da cultura popular, o fomento à produção e à difusão cultural. “Nascia nessa época o projeto Cultura da Gente – Mercado Público, Patrimônio da Gente, Banda na Praça, Piano na Escadaria, Ciclo do Divino, Orquestra na Comunidade e Maratona Fotográfica, projetos simples, pontuais, que mexia com todas as comunidades da Ilha e do Continente”, relembra Lélia.

Rodolfo Pinto da Luz, que hoje é presidente da FCC (Fundação Catarinense de Cultura), esteve à frente da FCFFC de 2009 a 2012. Ele conta que entrou para ficar alguns dias e acabou acumulando o trabalho com a pasta de Educação por anos. “Mesmo assim foi possível estruturar o Sistema de Cultura de Florianópolis, criando o Conselho Municipal de Política Cultural, aprovar a lei e pôr em funcionamento, criar o Fundo Municipal de Cultura e lançar o edital para todas as áreas (que inclusive só foi lançado uma vez), o festival Isnard Azevedo teve os locais ampliados, comemoração ao aniversário do poeta Cruz e Sousa, e outras aspirações antigas concretizadas”, afirma o professor, que vê sua gestão como a estruturação do “CPF da cultura”.

O músico, ator e escritor Luiz Ekke Moukarzel foi gestor do órgão de 2013 a 2015. Em seu comando, ele destacou a criação da Secretaria Municipal de Cultura, teve aumento do orçamento para a fundação, foi criado a Escola Livre de Música - que atualmente vive em dificuldades, inclusive já correu o risco de fechar. Houve, ainda, a profissionalização da galeria Pedro Paulo Vecchietti e a digitalização do acervo do arquivo de história.  Contudo, Luiz hoje diz que vê a fundação sucateada pela falta de repasse de verbas e a extinção de projetos culturais. Segundo ele, há mais de 20 anos não é realizado um concurso público para a fundação, diferente do que ocorre com a saúde, educação e a segurança na cidade. “O governo não respeita a área e coloca profissionais de outras áreas para comandar a fundação. Eles esquecem que quem traz turista para Florianópolis é a cultura”, finaliza o ex-superintendente.

Poucos recursos

Desde fevereiro deste ano, Roseli Pereira responde pela fundação. Porém, ela já teve outra passagem pelo órgão entre 2009 e 2012, época da gestão de Rodolfo Pinto da Luz. Para ela, desde 1987, como política de Estado a fundação avançou, por exemplo, colocando em funcionamento o Sistema Municipal de Cultura, que cria um diálogo entre a sociedade civil e a área governamental.

Para o futuro da fundação, Roseli acredita que é preciso fortalecer a identidade cultural do município. “Somos uma Capital que não temos na maioria só nativos, por isso é preciso haver o respeito das diversidades e valorizar essas culturas que vieram, sem perder esse olhar sobre a identidade local”, diz.

Sobre pontos que a classe artística sempre aborda, Roseli afirma que o Teatro da Ubro está em funcionamento, recebendo agendamento para eventos culturais, oficinas, reuniões, ensaios e outras atividades. Entretanto, no caso de espetáculos que exigem uma melhor estrutura de som e luz, está sendo avaliado caso a caso. Assim que esta questão técnica estiver resolvida, a pauta será retomada integralmente.

A Lei Municipal de Incentivo à Cultura está funcionando normalmente, diz, seguindo o calendário de inscrição de projetos disponibilizado no site. Vários projetos já estão em processo de captação e outros em fase de execução, conta ela. Com relação aos editais públicos, a fundação herdou da gestão anterior R$ 430 mil na conta do Fundo Municipal de Cultura e quatro anos sem realização de editais. Havia a pretensão de lançar editais utilizando parte desses recursos, entretanto, segundo Roseli, o Conselho Municipal de Política Cultural não aceitou a proposta.

“Esse ano é diferenciado pela situação financeira que estamos vivendo, existe uma preocupação com as contas que ficaram. Estamos fazendo planejamento, preparando projetos  para fazer captação de recursos”, finaliza Roseli. Projetos como a Escola Livre de Artes e o Cinema nos Bairros devem ser executados ainda esse semestre pela fundação.

Serviço
Confira a programação de comemoração do final de semana

29/7, 10h, Feira de Artesanatos do Campeche, Pracinha do Campeche
29/7, 11h, Choro Catarina, coreto da Praça 15, Centro
29/7, 18h, Museus Virtuais, Cinema do CIC, Agronômica
30/7, 9h30 às 17h, Floripa em Movimento, avenida Beira-mar Norte, Centro
31/7, 10h, abertura do Mural da Cultura, Mercado Público de Florianópolis, Centro

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