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Fotógrafos viajantes registram a natureza, mesclando trabalho, curiosidade e aventura

Renato Rizzaro, Zé Paiva e Neno Brazil são conhecidos pelos cliques de pássaros e paisagens

Karin Barros
Florianópolis
27/05/2017 às 14H58

O trabalho deles pode ser confundido com lazer e causar até um pouco de inveja, mas a justificativa é consistente: é assim que ganham suas vidas, fotografando a natureza. Renato Rizzaro, Zé Paiva e Neno Brazil viajam desbravando o país, o continente e a própria cidade onde moram procurando as melhores paisagens e a maior variedade de pássaros.

Fotógrafo de pássaros Renato Rizzaro - Sergio Berkenbrock/Divulgação/ND
Renato Rizzaro mora atualmente em Florianópolis, mas viaja muito pelo país - Sergio Berkenbrock/Divulgação/ND


Rizzaro, 58, por exemplo, é paulista, mas desde o final da década de 1970 mora em Santa Catarina. A primeira cidade que o abraçou foi Brusque, local que o deslumbrou com tantas belezas. O fotógrafo tem no currículo passagens por jornais e revistas, entre eles a “Folha de S.Paulo”, mas seu olhar sempre foi mais voltado para o mundo natural.

Em 2001, ele conheceu a mulher Gabriela Giovanka, e os dois compraram um terreno de 53 hectares na cidade de Alfredo Wagner, a caminho da serra catarinense, que mais tarde virou a reserva Rio das Furnas. “Descobrimos a natureza, além de sermos presenteados com uma quantidade gigantesca de pássaros. Nós não imaginávamos que teria tantos assim”, diz Rizzaro. Apenas na reserva, 200 espécies de aves já foram registradas por ele, entre pássaros conhecidos, outros raros e em extinção. “É um local privilegiado, com o encontro de várias florestas, rios e frutas”, afirma.

Foto de Renato Rizzaro - Renato Rizzaro/Divulgação/ND
 Renato Rizzaro/Divulgação/ND


Desde então, ele passou a fotografar incansavelmente os pássaros, e também procurava catalogá-los com a ajuda do biólogo Vitor Piacentini. Todo esse tempo pesquisando e fotografando acabaram resultando em pôsteres que, para Rizzaro, é uma forma bacana, principalmente para crianças, de conhecimento da natureza, de “alimentar a imaginação com as belezas que a gente tem”. A partir dos pôsteres “Aves das da Floresta Atlântica”, foi desenvolvido por Rizzaro e Gabriela um trabalho de educação ambiental, o Roda de Passarinho, que já passou por diversas cidades do país.

Depois da intensa imersão no Rio das Furnas, era a hora da dupla partir para outras cidades e conhecer aves “de todos os cantos”. Eles “dividiram” o país em seis biomas: caatinga, serrado, pampa, Mata Atlântica, Amazônia e Pantanal (o primeiro lugar visitado, em 2010). As expedições foram feitas na casa móvel, que não era um trailer, e sim uma Toyota Bandeirante. E cada uma das viagens resultou em um pôster. O segundo foi denominado “Aves do Pantanal”. Tudo feito pelo próprio fotógrafo, que também é designer gráfico.

Ele ressalta que, para reunir o maior número de pássaros, muitas vezes é preciso contar com a colaboração de outros profissionais da área, pois nem sempre é possível encontrar o animal na mata, devido à estação, ao horário ou até mesmo ao simples fato de não estar no local esperado naquele momento.

Como bisbilhotar sem assustar 

Os pássaros são animais muito sensíveis, se assustam com facilidade, por isso Renato Rizzaro salienta o grande exercício de paciência que é ser um fotógrafo de aves, além do peso da paixão. “Também enfrentamos adversidades como com os ‘protetores da floresta’, que são os insetos, vespas, pernilongos. Eles estão cumprindo a função deles, e o fotógrafo tem que se isolar dessa ‘galera’ toda para ter concentração”, explica.

Neno Brazil - Renato Gama/Divulgação/ND
Neno Brazil criou um site para divulgar as aves e se considera um “birdwatching” - Renato Gama/Divulgação/ND


O bioma onde o animal está também influi. “No serrado e no pampa, você está à vista, não tem onde se esconder. Procuramos usar roupas menos chamativas, camufladas, ou apenas cores neutras, mas também acabamos desenvolvendo uma comunicação e interagindo com o pássaro. Todos eles têm capacidade de visão centenas de vezes superiores à nossa. Se você está chegando perto do bicho, é porque ele quer”, afirma.

Neno Brazil, 58, produtor cultural e designer gráfico de Florianópolis, não se intitula fotógrafo profissional, mas sim um “birdwatching” (observador de pássaros) apaixonado por viagens. Conhecendo outras cidades e países desde 1991, o lado da fotografia de pássaros veio há 18 anos, na Costa Rica, após comprar um guia de aves. “Depois disso, todas as viagens têm minha atenção para os pássaros. É um universo maravilhoso”, coloca ele.

Neno Brazil - Neno Brazil/Passarazzi/ND
Pelicano - Neno Brazil/Passarazzi/ND


Com a experiência adquirida e após ter feito um guia para trilhas com 60 espécies de pássaros de Florianópolis (em 2009), entre suas recomendações para uma boa “caçada” – que é apenas de observação, que fique claro – estão as de não usar roupas coloridas e perfumes fracos e procurar os períodos da manhã e do final de tarde para encontrar as aves.

Neno apelidou a própria atividade de acompanhar a rotina das aves de “passarazzi”, nome do seu site, porque “vivo bisbilhotando a vida dos pássaros”. A brincadeira virou coisa séria, com pesquisas constantes, compras de vários livros e guias para identificar os animais, tornando-o um ornitólogo amador.  

A inspiração nos naturalistas

Gaúcho formado em engenharia mecânica, Zé Paiva tinha tudo para estar trabalhando em um escritório ou indústria, porém uma viagem pela Europa e norte da África em 1983 mudou sua vida e o fez adotar a fotografia como profissão. No começo até tentou conciliar as duas coisas, atuado como fotógrafo apenas nos finais de semana, mas não achava justo abandonar a carreira de engenheiro e continuar insatisfeito com a segunda opção.

Zé Paiva - J.P Lucena/Divulgação/ND
Zé Paiva decidiu trocar a engenharia pela fotografia - J.P Lucena/Divulgação/ND


O primeiro projeto viabilizado em que apresentava paisagens foi do livro “Santa Catarina – Cores e Sentimentos”. O segundo, um projeto pessoal, tem como título “Expedição Natureza Santa Catarina”, de 2005. O terceiro foi sobre a natureza gaúcha e o quarto e último, sobre o Estado de Tocantins – foi aí que Paiva se deu conta do rótulo que o acompanhava de “fotógrafo de natureza”.

“Senti isso como uma camisa de força, parecia que eu não podia fotografar outro assunto”, conta. “Parei de me chamar de fotógrafo de natureza, porque desse tema eu gosto muito e é um assunto contínuo na minha vida”, pontua ele, contando ainda sobre o projeto “Iluminados, Personagens da Ilha de Santa Catarina”, que expôs no Masc (Museu de Arte de Santa Catarina).

No decorrer de 15 anos fazendo expedições pelo país com trabalhos autorais, muitos admiradores da fotografia mostraram curiosidade em saber como Paiva organizava as viagens. “Comecei a perceber que as pessoas gostariam de fazer expedições comigo. Meu conceito não é de uma viagem turística. Me inspirei nas expedições dos naturalistas do século 19, como de Georg Langsdorff, Saint-Hilaire e Darwin”, diz ele.

Zé Paiva - Zé Paiva/Divulgação/ND
 Zé Paiva/Divulgação/ND


Na época, como a fotografia estava sendo descoberta, os antigos levavam artistas para desenharem nas viagens. “Minha expedição tem isso de ir para um lugar e documentar com arte, de forma mais poética, com o nome científico das plantas, animais e os locais”, explica. Para os seus grupos de viagem já vieram pessoas do Nordeste, do Chile, Rio Grande do Sul e São Paulo. Cerca de 95% deles são fotógrafos amadores com câmeras semiprofissionais.

Para as viagens, Paiva faz pesquisas na internet e em livros sobre o local, firma contratos de parceria com órgãos ambientais, pede apoio para a cessão de autorizações para fotografar nos parques, além de resolver questões sobre alojamento e transporte. Em troca, ele cede fotos para uso livre do apoiador. “É importante esse pré-contato para pegar dicas da trilha, dos tipos de animais, da vegetação de cada época do ano. Já aprendi muito também sobre aves e mamíferos apenas conversando com pesquisadores e moradores das cidades”, destaca.

Paiva tem residência fixa há sete meses em uma aldeia budista em Canelinha, e está ali perto, em São João Batista, um dos lugares que o deixaram mais surpreso com a paisagem. “Procurei a cachoeira sem esperar muita coisa, mas adorei a foto que fiz lá. Tem lugares espetaculares bem perto da gente. Já à trilha do Rio do Boi, por dentro do cânion do Itaimbezinho (divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul), eu quero muito voltar, tem 700 metros de altura. É um lugar incrível”, garante.

Conheça os fotógrafos
www.zepaiva.com
www.passarazzi.blogspot.com.br
www.renatorizzaro.blogspot.com.br

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