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Filme “Anauê!” fala de perseguição e resistência em regiões de colonização alemã em SC

Documentário do diretor Zeca Pires abriu o FAM, festival que vai até este domingo no Centro de Cultura e Eventos da UFSC

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
23/06/2017 às 19H44
Plínio Salgado  (terceiro à esq.), fundador do integralismo, fazendo a saudação “anauê” - Divulgação/ND
Plínio Salgado (terceiro à esq.), fundador do integralismo, fazendo a saudação “anauê”, que dá nome ao documentário - Divulgação/ND



No final da sessão, aplausos de pé e a sensação, compartilhada pelo diretor, produção e platéia, de dever cumprido. Terminava a projeção do documentário “Anauê! – O Integralismo e o Nazismo na Região de Blumenau”, que o cineasta Zeca Pires começou a planejar ainda na década de 1990 e que abriu o FAM (Florianópolis Audiovisual Mercosul) na terça-feira, dia 20, no Centro de Cultura e Eventos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), na Capital. Assim como a concretização de um projeto penosamente construído, aquele momento também tirava do limbo, para muita gente, o tema tabu do integralismo e suas ações e ramificações no Estado, em especial no Vale do Itajaí, onde as tradições teuto-brasileiras se mostraram muito receptivas ao movimento.

Diretor de 11 filmes, entre documentários, curtas e longas metragens de ficção, Zeca Pires custou para cumprir o caminho entre a concepção de “Anauê!” e a primeira exibição pública do filme. Ele registrou o projeto na Biblioteca Nacional em 1999, alguns anos depois de ter contato com a temática do integralismo quando era assistente da professora universitária Neide Maria Fiori, ao lado do também cineasta Norberto Depizzolatti, em estudos sobre o processo de nacionalização do ensino em Santa Catarina durante a Segunda Guerra Mundial. De lá para cá, além da falta de dinheiro para dar andamento ao trabalho, Pires enfrentou enormes barreiras para convencer as testemunhas daquele momento a falar. “Não conseguia avançar na pesquisa, poucos queriam dar entrevistas ou mostrar documentos”, conta.

Para piorar, o assunto sempre foi pouco abordado nos livros de História. Ao contrário do nazismo, também presente – e com muito destaque – no filme, o integralismo corria à margem dos conteúdos didáticos nas escolas. A própria mãe de Zeca Pires foi transferida pelo Estado para dar aulas em Timbó, no Vale, na época da nacionalização, e achou por bem aprender o alemão para se comunicar com os alunos. Eles se escandalizavam com isso, porque era proibido falar qualquer palavra na língua dos germânicos que colonizaram a região. Em 2005, antes da morte da mãe, o cineasta gravou um depoimento dela sobre essa experiência de mestre vinda do litoral para lecionar português numa tradicional colônia alemã.

Chegada ao congresso da Ação Integralista Brasileira em 1935, em Blumenau, imagem que remete à Alemanha nazista - Divulgação/ND
Chegada ao congresso da Ação Integralista Brasileira em 1935, em Blumenau, imagem que remete à Alemanha nazista - Divulgação/ND



Simpatia pela obra de Hitler

O filme “Anauê!” é uma sequência bem editada (por Giba Assis Brasil, parceiro de Zeca em vários filmes) de imagens, depoimentos, áudios com pronunciamentos (incluindo o famoso “discurso de Blumenau” feito em 1940 por Getúlio Vargas) e vídeos que recuperam, por exemplo, uma entrevista de Antônio de Lara Ribas, que foi delegado de polícia e autor do livro “O punhal nazista no coração do Brasil”. Assim como Ribas, que nutria especial antipatia pelos alemães e seus descendentes, o interventor Nereu Ramos nunca foi bem visto no Vale do Itajaí. Em parte porque era mais radical do que Getúlio nas ideias e mandou a polícia bater nos germanistas mais recalcitrantes, e também pelo fato de pertencer à oligarquia lageana que se opunha a outra, a dos Konder Bornhausen, natural da região.

Nos depoimentos, chamam a atenção a visceral ligação cultural e afetiva dos blumenauenses à Alemanha e seu total desconhecimento do genocídio praticado pelos generais de Aldof Hitler nos campos de concentração da Europa. O “führer”, aliás, é citado com certa benevolência por alguns entrevistados, porque teria levantado a Alemanha depois da débâcle pós-Primeira Guerra, quando o país foi derrotado e obrigado a pagar dívidas astronômicas às nações vencedoras. Uma das depoentes chegou a viajar para a Europa um pouco antes da eclosão do conflito e ficou retida até 1945, porque não havia como embarcar num navio de volta. Como ela, outros descendentes só foram saber do extermínio de judeus quando os Aliados venceram o confronto.

O diretor Zeca Pires começou a pensar no documentário nos anos 1990 e fez longo percurso até lançá-lo - Bruno Ropelato/Arquivo/ND
O diretor Zeca Pires começou a pensar no documentário nos anos 1990 e fez longo percurso até lançá-lo - Bruno Ropelato/Arquivo/ND



Pelo respeito ao diferente

Além de ouvir moradores de Blumenau e arredores, incluindo filhos de pequenos comerciantes que sofreram com a perseguição movida pelo Estado, o filme de Zeca Pires traz a visão de especialistas como a professora Marlene de Fáveri, autora do livro “Memórias de uma (outra) guerra: cotidiano e medo durante a Segunda Guerra em Santa Catarina”, Luís Felipe Falcão, doutor em História, Sueli Petry, do Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, de Blumenau, e René Gertz, professor e especialista em nazismo e integralismo. Eles contribuem para conferir ao documentário a função didática de interpretar aspectos da história que continuam obscuros sobre a influência do pensamento conservador em regiões que resistiram ao abrasileiramento pretendido pelo governo.

O integralismo, criado no Brasil em 1932 por iniciativa do escritor e jornalista Plínio Salgado, pregava os valores da família e da prática cristã, defendia o nacionalismo e o princípio da autoridade e tinha o comunismo como inimigo declarado. Contudo, ao contrário do nazismo, não pregava o racismo e a prevalência de uma raça sobre outra. Blumenau foi palco de um grande congresso integralista em 1935 que atraiu militantes e adeptos de todo o Brasil, que chegaram de trem, carro e navio, subindo o rio Itajaí-Açu. Tudo isso está no filme de Zeca Pires, cujo nome remete à palavra (anauê) usada como saudação pelos integralistas. Para o diretor, além de tirar o tema do ostracismo, importa abrir uma discussão sobre a intolerância que recrudesce no mundo. “Precisamos respeitar quem pensa diferente da gente”, defende.

Marilha Naccari, diretora de programação do FAM,  ressalta a descentralização do festival - Flávio Tin/ND
Marilha Naccari, diretora de programação do FAM, ressalta a descentralização do festival - Flávio Tin/ND



Duas décadas formando público

Tão importante quanto chegar à 21ª edição, um dos méritos do Florianópolis Audiovisual Mercosul é descentralizar o direito de acesso a bons filmes do continente, levando a programação a outras regiões do Estado. A diretora de programação do FAM, Marilha Naccari, destaca que muitos municípios catarinenses já contam com sua inclusão no evento anual, de olho na periodicidade como fator de formação espontânea de público para o cinema de qualidade. Neste fim de semana, por exemplo, 40 pessoas vêm de Chapecó para Florianópolis para acompanhar os últimos dias do festival, como fruto desse intercâmbio que mobiliza pontos de cultura, cineclubes e secretarias municipais de cultura.

Há 13 anos envolvida com a organização do evento, Marilha conta que 56 cidades foram alcançadas nesta edição. “Mesmo onde há pouco público, o importante é o efeito multiplicador, que aumenta a demanda a cada ano”, diz. Professora do curso de Cinema da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), ela ressalta que o FAM é um dos mais importantes eventos de cinema fora do eixo Rio/São Paulo/Brasília/Gramado. O que começou como feira hoje lota os 1.400 lugares do Centro de Cultura e Eventos da UFSC em diferentes horários, durante quase uma semana. E uma parceria com o Sesc/SC garante a chegada dos filmes a 20 pontos do Estado. “Há cidades que esperam pelos meses de abril ou maio para entraram no circuito”, afirma.

Confira a programação do último final de semana:

Sábado, 24/06

12h - Sessão Preferência de Público Itapema FM

14h30 - Sessão RECAM (acessibilidade Legenda para Surdos e Ensurdecidos e Audiodescrição)- Auditório Garapuvu

5x Chico

16h30 - Mostra Doc-FAM - Auditório Garapuvu

Abrindo o Armário,  Dario Menezes e Luis Abramo - Brasil - Rio de Janeiro e São Paulo

18h30 - Mostra Paralela de Música - Hall do Centro de Cultura e Eventos da UFSC

Marcondes trio – MPB e pop

19h - Mostra de Curtas Mercosul - Auditório Garapuvu

Dormidos, Jorge Fierro - Uruguai - Montevidéo - Ficção

Hospital da Memória, Pedro Paulo de Andrade - Brasil - São Paulo - Ficção

Índios no Poder, Rodrigo Arajeju - Brasil - Distrito Federal - Documentário

Ocupação Hotel Cambridge, Andrea Mendonça - Brasil - São Paulo - Documentário

Três Tipos de Medo, Bruno Bini - Brasil - Mato Grosso - Ficção 

20h - Mostra Videoclipe e Longas Mercosul - Auditório Garapuvu

Mapu Kimun, Maria Manzanares - Argentina - Bariloche

Tagore - Mudo, Fabrício Koltermann - Brasil - Rio Grande do Sul 

Oscuro Animal, Felipe Guerrero - Argentina - Colômbia - Ficção - 105min

 

Domingo, 25/6

10h30 - Mostra Infantojuvenil - Auditório Garapuvu

12h - Sessão Preferência de Público Itapema FM

15h - Mostra Doc-FAM - Auditório Garapuvu

Precisamos Falar do Assédio, Paula Sacchetta  - Brasil - São Paulo  

18h30 - Mostra Paralela de Música - Hall do Centro de Cultura e Eventos da UFSC

 Rô Conceição DUO  – Pop e Reggae

 19h - Cerimonial de Premiação

 20h - Mostra de Longas Mercosul - Auditório Garapuvu

Las Toninas Van Al Este , Veronica Perrotta e Gonzalo delgado - Uruguai - Ficção - 93min

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