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Festival de Joinville chega à 35ª edição mantendo o título de maior do mundo

Evento, que abre oficialmente com a apresentação da companhia Deborah Colker, serve de exemplo e inspiração para SC

Rafaela Mazzaro, especial para o ND
Florianópolis
14/07/2017 às 16H34

Suor e economias vão trazer sete bailarinos do Edith Marques Grupo de Dança, do Belém do Pará, para o 35º Festival de Dança de Joinville, entre os dias 18 e 29. O dinheiro poupado garantiu as passagens de avião e alojamentos. Já a transpiração, três vagas nos Palcos Abertos, contrapartida do evento catarinense em que bailarinos pré-selecionados dançam em locais públicos para estarem mais próximos da comunidade. Nesta modalidade não há premiação e a plateia é de passagem – nem sempre com tempo para dar atenção aos jovens talentos. Mas os visitantes não se incomodam: ainda assim dizem valer a pena zerar a poupança e atravessar três regiões do País. “Aqui no Norte as oportunidades são limitadas, as novidades demoram a chegar. Em Joinville é diferente. Participo há seis ou sete edições do Festival e quando não vou sinto falta”, conta Edith Marques, professora de dança que dá nome ao grupo.

Cia Deborah Colker escolheu Joinville para a estreia de “Cão sem Plumas”, espetáculo que abre oficialmente o evento na quarta - Cafi/Divulgação/ND
Cia Deborah Colker escolheu Joinville para a estreia de “Cão sem Plumas”, espetáculo que abre oficialmente o evento na quarta - Cafi/Divulgação/ND


Dançar e não passar pelo Festival de Dança de Joinville, seja como participante, público ou aluno dos quase 100 cursos oferecidos, é o mesmo que fazer parte de um time de futebol e não ter sido convocado para um campeonato importante. Há ininterruptas três décadas e meia, Joinville vira o centro de oportunidades de aprendizado em dança, motivo pelo qual grupos do Pará e mais 17 Estados empenham esforços físicos e financeiros para estarem no Norte de Santa Catarina neste mês.

Só que nem sempre foi fácil convencer esses bailarinos espalhados pelo País a encarar os invernos chuvosos de uma cidade de nome quase desconhecido fora do ramo industrial no começo dos anos 1980. Ao chegarem os primeiros convites via telefone, fax e Correio, não deviam ser raras as escolas e academias de dança a questionar a qualidade de um evento de dança fora do eixo Rio-São Paulo. No mínimo, ficavam curiosas com chamada usada pela organização: “Joinville, um pedaço da Europa fora do Brasil”.

A estratégia de marketing surtiu efeito e já na primeira edição um número satisfatório de bailarinos era recebido por comissões de recepção calorosas com direito a flores e chocolates, delicadeza que rendeu até destaque na Folha de S. Paulo, sob o título “Flores na Madrugada”. O público de estreia também não decepcionou: “A fila para entrar no Harmonia-Lyra dobrava a esquina e não tinha espaço para todos”, lembra Albertina Ferraz Tuma, organizadora das 12 primeiras edições do festival, que na época tinha realização da Prefeitura Municipal.

Nascia uma tradição nos meses de julho, aprimorada ao longo dos anos: a programação competitiva ficando mais acirrada e oportunidades de aprimoramento chegando em maior volume. Mas, sobretudo, nascia uma credibilidade que faz com que nomes importantes da dança mundial também quisessem dividir espaço com um público de amadores.

Já no início, os catarinenses tinham Ana Botafogo, Cecília Kerche e outros nomes importantes da dança nacional a poucos metros de distância. Depois vieram as aberturas memoráveis com o Balé Lolitá da França (1989), Balé Bolshoi de Moscou (1996), Balé Nacional de Cuba e Balé Nacional da Colômbia (1997), Ballet da Ópera de Paris e Ballet Du Capitole de Toulose (1998) e Baryshnikov (2007), isso só para citar as atrações internacionais, que, desembarcadas no Brasil, dificilmente passariam com suas turnês pela região Norte do Estado não fosse o evento.

Da cena nacional, praticamente todos os nomes mais importantes do setor estiveram presentes. Nesta edição, a brasileira Cia. Deborah Colker, coreógrafa de dança contemporânea de renome internacional, estreia sua mais nova criação, “Cão Sem plumas”, no palco de Joinville, trazendo consigo os holofotes da imprensa nacional. O cachê certamente não foi o atrativo principal – aliás, quatro vezes menos do que o que a organização pôde oferecer em 2011, quando Deborah trouxe ao palco catarinense o espetáculo “Tatyana”. “Aqui as companhias encontram um olhar crítico, especializado, é diferente de dançar para uma plateia comum”, justifica Ely Diniz, presidente do Instituto Festival de Dança, entidade que pegou o evento das mãos públicas a fim de buscar vias alternativas de fomento. 

Encanto aos olhos russos

Entre todos os convidados internacionais do festival, pelo menos um criou raízes em Joinville. Começava em 1996, com a vinda do Balé Bolshoi de Moscou para a abertura da 14ª edição, um namoro que resultaria na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, única filial da meca de dança clássica fora da Rússia.

Obstinado em concretizar um sonho antigo do Bolshoi de montar escolas pelo mundo, Luiz Henrique da Silveira, então prefeito da Joinville, desembarcou em Moscou com a proposta de oferecer condições para que a cidade catarinense fosse a primeira a executar o projeto. O acordo incluía a criação de infraestrutura para a escola no Centreventos Cau Hansen, a garantia de torná-la um projeto social e a construção de um teatro - único dos pontos ainda não atendidos.

As promessas de Luiz Henrique até poderiam ser ideais para o propósito almejado pelo Bolshoi, mas é fato que o feitiço provocado pelo Festival de Dança já havia surtido efeito nos russos. “Os bailarinos voltaram para Moscou encantados com Joinville. Comentavam sobre o calor do público. Lembro que na chegada ao aeroporto alguns vestiam camisetas de Joinville”, recorda o diretor geral da escola, Pavel Kazarian, na época integrante da sede em Moscou e a quem foi confiada em 2000 a implantação da escola brasileira aos moldes russos.

Hoje é a Escola do Bolshoi quem lembra o compromisso de Joinville com a dança nos outros meses do ano. “Se não fosse a escola e o Centreventos Cau Hansen, nem de longe o Festival teria a repercussão que tem hoje”, avalia Ely Diniz. 

Influência para mais ofertas

O título de maior do mundo, concedido pelo Guiness Book em 2005, vem sendo mantido pelo festival. No gênero amador e abraçando tantas vertentes do movimento – do clássico ao contemporâneo, passando pelas danças urbanas e populares –, o evento de Joinville continua sendo unanimidade em dimensão, comportando cerca de 7 mil participantes. Natural que tenha estimulado a criação de outros em seu entorno. Tanto que Santa Catarina é o estado com maior número de eventos ligados à dança. São pelo menos 30 festivais anuais, realizados ao longo de todo o ano.

“O Festival de Dança de Joinville, sem dúvidas, nos inspira. Além da expressão artística e de entretenimento, o intercâmbio e a experiência entre bailarinos e profissionais da área, incentivando a pesquisa e as novas linguagens, tornam-se pontos comuns entre nós”, afirma o presidente do Instituto Cultural Desterro, Carlos Eduardo Andrade, responsável pelo Prêmio Desterro, outro importante evento do gênero no País e que chega a 8ª edição em agosto, na Capital.

Mesmo durante o Festival de Joinville, outros eventos paralelos e independentes aproveitam a sua efervescência. É o caso do Dance Kids e do Joinville Dance Camp, que com propostas diferentes aproveitam a movimentação para criar oportunidades distintas a quem visita a cidade nas férias escolares. “O Dance Kids nasce em virtude do festival para atender a uma demanda que ele não consegue suprir, a de bailarinos de três a 14 anos que querem subir ao palco, mas não para competir”, explica a produtor Deivison Garcia. Em troca, os bailarinos do Dance Kids ganham aplausos e coaching de especialistas.

Mas a inspiração também gera uma grande carga de responsabilidade educacional para o Festival, principalmente em relação ao papel dele para o desenvolvimento da área no Brasil e dos jovens que compartilham do mesmo palco. Uma função pedagógica que, de acordo com Sandra Meyer, professora do Centro de Artes da Udesc, vem aos poucos sendo correspondida com a inclusão de seminários e mostras voltadas à pesquisa em dança. 

Oportunidade profissional em casa

Se no Brasil o Festival espalhou empolgação, que dirá em seu próprio quintal. Grupos de joinvilenses formados apenas para “brincar” no palco viram a diversão tomar moldes profissionais. Caso do Maniac’s Crew, conjunto inicialmente de danças urbanas que cresceu estrondosamente desde que conquistou medalha de ouro na mostra competitiva de 2011.

O sucesso conferiu ao grupo convites para o exterior e para lugares de destaque dentro do próprio evento, na Estímulo Mostra de Dança, criada para reconhecer talentos que passaram pelas edições, e neste ano, na Noite de Gala especial de 35 anos, que levará ao palco nomes importantes para o crescimento do evento. “É a oportunidade que qualquer bailarino gostaria de ter”, comemora Thiago Rodrigo Moreira, um dos criadores do Maniac’s Crew.

No caso do bailarino, professor e coreógrafo Fernando Lima, o próprio interesse pela dança surge enquanto acompanhava o pai, fotógrafo, durante a cobertura das edições do Festival, há mais ou menos 15 anos. De lá pra cá, ele coleciona apresentações, criações coreográficas para companhias catarinenses e, o mais importante, hoje pode ter a dança como principal ofício.

Fernando buscou aprimoramento na Europa e hoje mantém um grupo independente ativo nas mostras do festival e é sócio de uma escola de dança que forma novos bailarinos, e muitos deles estrearão no festival deste ano. Tudo por conta do empurrãozinho dado pelo evento. “O festival é um grande incentivador. A partir dele tive muitas oportunidades”, reforça o coreógrafo. 

Edição maior e gala especial

O Festival de Dança de Joinville 2017 terá um dia a mais de programação. Serão 12 dias de atividades, somando 240 horas de apresentações nos palcos principais e alternativos, espalhados em shoppings e praças de Joinville. As atividades começam no dia 18 com os cursos de aperfeiçoamento. Só no dia 19 será dada a largada à movimentação do palco principal do Centreventos Cau Hansen.

Quem dá boas-vindas com garantia de lotação de público no Centreventos Cau Hansen (os ingressos já estão esgotados) é a Cia. Deborah Colker, que traz seu mais recente espetáculo de dança contemporânea “Cão Sem Plumas”, obra inspirada no poema de João Cabral de Melo Neto.

Em meio à programação da Mostra Competitiva e Meia Ponta, acontece a Noite de Gala, no dia 24. O espetáculo “Gala 35 anos Festival de Dança de Joinville” vai homenagear o evento trazendo nomes que se destacaram ao longo das edições ou se formaram na Escola Bolshoi e hoje dançam em importantes companhias do Brasil e do exterior. A direção é do bailarino e coreógrafo Marcelo Misailidis.

O evento também realiza a Feira da Sapatilha, no Expocentro Edmundo Doubrawa; a Mostra Contemporânea de Dança e Estímulo Mostra de Dança, no Teatro Juarez Machado. Para as apresentações que não ocorrem nos Palcos Abertos e na Feira da Sapatilha, espaços gratuitos, os ingressos estão à venda no www.ticketcenter.com.br, com valores que vão de R$ 22,00 a R$ 106,00.

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