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Sábado, 20 de Janeiro de 2018
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Fernando Lindote, artista que mora em Florianópolis, apresenta grande exposição no Rio de Janeiro

Prestes a completar 40 anos de carreira, Lindote reúne obras antigas e exclusivas em “Trair Macuinaíma e Avacalhar o Papagaio”

Karin Barros
Florianópolis
Daniel Queiroz/ND
Visual e sensorial, mostra traz diversas fases do artista que mora em SC. Uma delas revisita o ideário nacional, como o papagaio Zé Carioca, de Renato Canini, que foi mestre de Lindote


Ele começou a desenhar muito novo, aos 12 anos, sem nem saber que aquilo viraria uma carreira reconhecida nacionalmente. E agora, aos 55, imerso em sua arte e ainda eufórico com a mostra no MAR (Museu de Arte do Rio), que abriu em dezembro do ano passado e segue até abril, Fernando Lindote quase esqueceu que em 2017 completa 40 anos do início dessa história. Coincidência ou não, a exposição na cidade carioca, “Trair Macuinaíma e Avacalhar o Papagaio”, é uma das maiores em relação à reunião de obras de fases de sua vida.

O convite para a mostra veio do diretor cultural do museu, Paulo Herkenhoff, que está escrevendo um livro sobre o trabalho do gaúcho (mas catarinense de coração), e deve ser lançado em 2017. Há dois anos, entre viagens para o Rio de Janeiro, e vindas do curador Paulo e dos cocuradores Clarissa Diniz e Leno Veras para Florianópolis, onde o artista mora há quase 40 anos, nasceu a exposição. Para Lindote, ela é cheia de “cruzamentos muito intensos”. “O trabalho do Paulo, de atravessar o artista com a obra, te coloca numa posição de desafio, que é muito bom, muito generoso para o público e para o artista. Mas vinha aquele sentimento: até que ponto meu trabalho aguenta?”, refletiu.

A exposição conta com 180 obras, sendo elas de acervo, objetos pessoais, como chinelos, lençol, colcha e papagaios de coleção, desenhos, ilustrações antigas e esculturas de bronze e outras feitas de gibis assinados pelo próprio artista. Cerca de 50 obras foram feitas exclusivamente para a mostra, que viajaram para o Rio ainda úmidas, devido às constantes mudanças que o artista faz nas pinturas.

Os artistas J. Carlos, Albert Eckhout, Victor Brecheret, Maria Martins, Glauco Rodrigues, Walmor Corrêa, Rivane Neueschwander e Wagner Barja fazem uma participação especial no conjunto da mostra. “Fiquei muito contente quando o Paulo disse que podíamos colocar os artistas que quiséssemos junto à mostra que o trabalho dava conta tranquilamente. Foi legal ver minha escultura ao lado de uma Maria Martins”, lembra Lindote, sobre as obras que conversam com seu trabalho. 

Fernando Lindote já havia exposto no Rio, participou da Bienal de São Paulo, em 2010, e tem ainda no currículo mostras coletivas e individuais em diversos Estados. Para a cocuradora Clarissa, Lindote “tem uma trajetória significativa e singularidade em sua obra, além de ser um grande professor, agitador cultural e referência para outras gerações”.

 

Thales Leite/Divulgação/ND
Exposição reúne desenhos, ilustrações, pinturas, esculturas, objetos pessoais do artista, além de obras exclusivas feitas para o MAR


Iconografia brasileira

O papagaio Zé Carioca, criado pelo cartunista Renato Canini, com quem Lindote conviveu e aprendeu os primeiros riscos ainda criança, é o ponto de partida da mostra. Canini era do interior do Rio Grande do Sul e foi o principal ilustrador brasileiro do personagem, o papagaio da Disney. A ave com as cores do Brasil – criada em 1942, quando os Estados Unidos buscavam ampliar o poder simbólico de políticas culturais e de diplomacia com a América do Sul – foi e é muito importante na carreira de Lindote e permeia até hoje sua obra, sendo constantemente revisitado e reinventado. 

O curador Paulo Herkenhoff, estudioso do trabalho do artista, passou a prestar atenção nos trabalhos que Lindote tinha desenvolvido em cima do personagem. Viu questões que poderiam ser levantadas, como plágio e identidade nacional. “O Zé Carioca é um exemplo de algo em profunda transformação. Cada vez que foi ilustrado por alguém foi transformado. No caso de Canini, ele teve um distanciamento da própria Disney para revolucionar, colocar no contexto brasileiro, mesmo que estereotipando o Rio de Janeiro [local nunca visitado pelo cartunista]. Lindote também é um artista que está sempre se transformando”, compara a cocuradora Clarissa, gerente de conteúdo do MAR.

Lindote vê o papagaio – o pássaro – como uma possibilidade de discutir a identidade nacional, e o papagaio na versão Zé Carioca pelo lado afetivo. “Para mim, ele não é só um personagem da Disney, é um desenho do Renato Canini, que eu o via desenhar, que eu frequentava a casa dele e que é um mestre para mim”, relata o artista, afirmando que Canini seria convidado para participar da mostra, mas morreu enquanto o projeto estava em andamento.

Paralelamente à mostra no MAR, o pintor faz trabalhos com outros artistas pelo Brasil, e usou dessas memórias em Estados como Roraima e Pará para registrar o país da forma que ele via, trazendo a iconografia nacional. “São vivências, culturas diferentes, e isso me faz pensar muito sobre a própria ideia de arte brasileira, de representação do que é o brasileiro, a cor dos lugares e a cor da pele nesses lugares. O Brasil é muito colorido, as peles são muito coloridas”, explica ele, deixando claro o porquê do mix de cores de seus quadros. “Macunaíma” é um livro de Mário de Andrade, importante para a literatura brasileira, onde o próprio Mário, de acordo com Lindote, faz um esforço para entender um pouco o Brasil, e parte do ponto de vista paulista para isso. O artista precisou reler o livro para desenvolver obras que remetessem à história.

Thales Leite/Divulgação/ND
Exposição versa sobre o ideário e representação nacional. Reúne obras de outras artistas, como Maria Martins


Como uma retrospectiva

Desde o início do projeto, a exposição nunca teve um pensamento linear, por isso ela foi se expandindo nas mãos dos três curadores e ganhou o térreo do pavilhão do museu do Rio de Janeiro. Nela, estão reunidos trabalhos, como a primeira revistinha produzida por Lindote, aos nove anos de idade; a coleção de obras mordidas em E.V.A, de 1990; e o “Teatro privado”, produzida em 1999 para um exposição no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo).

A partir desta visão geral de seu trabalho, oportunidade que poucos artistas têm de presenciar em vida, Lindote pode encontrar definição para sua arte. “É difícil de detectar o que eu estou fazendo. Eu vario muito. Meu movimento fica entre conceito, forma, questões históricas e história da arte. Esse é o meu fio, e ele não se dá pela formalização, porque eu mudo toda hora de técnica, de meio. Não se dá pelo tema. Eu estou sempre mudando o estudo. E quando a gente olha o conjunto, ele pode parecer disperso, mas essa exposição mostra como tudo que eu faço e fiz é muito casado”, aponta ele.

Ao final da montagem, os curadores definiram o trabalho de Lindote para o próprio artista como uma “operação mórfica”, e ele concordou. “É isso que eu faço o tempo todo. Desenvolvo um trabalho pensando na forma, aí eu retiro um conceito, que é o que eu vou trabalhar no outro quadro e assim por diante. Eu estou levando sempre de um para o outro. Chamo isso também de deslizamento entre níveis, entre camadas”, acrescenta.

A cocuradora Clarissa explica ainda que a exposição segue o estilo de trabalho de Lindote nesse aparato mórfico. “Uma coisa vai virando outra. Foram selecionados diversos quadros de diferentes fases, e outros feitos exclusivamente para a mostra. Isso tudo para mostrar a obra acontecendo para o público. Cruzamos os morfismos de Lindote com os do Zé. Eles se encontram e se provocam”, diz.

Thales Leite/Divulgação/ND
Zé Carioca, ponto de partida da mostra. Lindote aprendeu desenho com o criador do papagaio, Renato Canini


Imersão real

A mostra “Trair Macunaíma e Avacalhar o Papagaio” é uma imersão real na pintura de Fernando Lindote, segundo algumas pessoas que visitaram a mostra e relataram ao artista, e mesmo a ideia inicial dos curadores. Com paredes laranja, verde, vermelha, uma parede espelhada e o chão verde (nada de branco), a mostra impacta os olhos e se torna bastante sensorial, visto que trechos do filme “Saludos, amigos” (Disney, 1948), fica rodando durante a exposição. “Quando o Paulo planejou a mostra, queria que as pessoas se sentissem dentro da pintura. Ele chamou isso de hiperpintura”, revelou Lindote.

O artista afirma ainda que é muito crítico com o que faz – pode ficar anos em um único quadro – e que algumas vezes não ficou satisfeito com exposições realizadas por ele, por isso estava tenso em imaginar como os trabalhos iam se relacionar, mas por fim, ficou contente com o que viu. “Eu finalmente pude mostrar para uma plateia grande, em um lugar que muita gente vai, a lógica do meu trabalho que é tão difícil demonstrar. Porque as pessoas veem sempre tudo muito fragmentado, então mesmo quem gosta do meu trabalho acaba tendo uma visão parcial, e ali, quem quiser, pode ter uma ideia do meu processo de uma maneira bem colocada”, finaliza Lindote.

Daniel Queiroz/ND
Lindote em seu ateliê em Florianópolis com uma das obras da série que está no MAR. Apesar de nascido no Rio Grande do Sul, sua produção artística é toda catarinense

Serviço

O quê: mostra “Fernando Lindote: trair Macunaíma e avacalhar o Papagaio”
Quando: até 24/4, de terça a domingo, das 12h às 19h
Onde: térreo do Pavilhão de Exposições do MAR, praça Mauá, 5, Centro, Rio de Janeiro
Quanto: R$ 10 e R$ 5 (meia); nas terças a entrada é gratuita 

IMPRESSÕES DE QUEM VISITOU A MOSTRA:

Significativa, pensada sob o prisma da transversalidade, a exposição situa a trajetória de Lindote num conjunto de trabalhos com uma abrangência temporal surpreendente. Além de colocar a sua poética em relação a outros importantes nomes da história da arte brasileira, a mostra situa-se no desejo de uma revisão historiográfica e geopolítica da arte do país, uma das marcas do curador Paulo Herkenhoff em sua gestão frente ao MAR (Museu de Arte do Rio de Janeiro).

Néri Pedroso
Jornalista

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Emocionei-me com Lindote na abertura da exposição no Rio de Janeiro. Ficou visível, para mim, o quanto ele se sentia plenamente representado e, também, a alegria da equipe do museu com o resultado do trabalho. A gente entra na exposição e leva um tempo para se orientar, é como se alguém te entregasse todos os mapas possíveis de um território de uma só vez e, aí, você tem que se virar com tanta informação. Revolvi aquele lugar muitas vezes depois que cheguei do MAR. Minha latitude e longitude preferidas hoje? Algum lugar verde entre o Macunaíma pintado pelo Fernando e o chão próximo a escultura de Maria Martins. 

Vanessa Schultz
Curadora

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Presenciei uma relação interativa da arte, e uma recepção prazerosa disso tudo nos visitantes. Uma exposição magnífica, relacionando a biografia do artista com a obra e o Rio naquela semana em que eu pensava sobre o carioca, se esse personagem ainda era malandro e se haviam cariocas não malandros. A reflexão de Lindote encontrou-se com meus pensamentos e eu pude compreender que os estereótipos não existem à toa, mas também não são unanimidades. Me dirigi à educadora que se encontrava ao lado de uma instalação e ela estava rodeada de adolescentes e mulheres perguntando muitas coisas sobre quem era o artista. Eu mal pude falar, estavam todos alegres, se divertindo e querendo saber mais.

Micheline Barros
Escritora e Professora de Artes Visuais

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