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Sábado, 18 de Novembro de 2017
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Feira de Arte Impressa de Florianópolis acompanha movimento em alta no país

Evento que acontece de 13 a 15 de maio no Centro da Capital terá 54 expositores com trabalhos vindos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal, Bahia, Amazonas e Rio Grande do Sul

Marciano Diogo
Florianópolis
Rosane Lima/ND
Gustavo Reginato e a Editora Caseira: artista usa uma grande mala para transportar e expor as publicações

 

As produções gráficas independentes, como catálogos, postais, pôsteres, gravuras, zines e publicações de artistas, têm ganhado cada vez mais força e apreciadores no Brasil. O fortalecimento de eventos como a Feira Tijuana e a Feira Plana em São Paulo, a Parada Gráfica no Rio Grande do Sul, a PÃODEFORMA no Rio de Janeiro, e agora o surgimento do Parque Gráfico – Feira de Arte Impressa de Florianópolis comprovam o crescimento desses produtos no país, que trazem como fundamento a produção de peças gráficas em menor escala, quase artesanal – algumas viram pequenas obras de arte.

“A arte impressa inclui as publicações de artistas, que ainda têm a característica de cópia, mas trazem um maior refinamento visual e tátil. Frequentamos feiras semelhantes em outras regiões do Brasil e observamos a necessidade de trazer algo para Santa Catarina centralizado na mesma proposta de valorizar o movimento craft, que é cada vez mais presente no mercado de impressões”, explica a designer Camila Petersen, idealizadora e organizadora do Parque Gráfico, feira de exposição, troca e comercialização de arte impressa, que acontece de 13 a 15 de maio no Centro da Capital. O evento trará para Florianópolis trabalhos vindos de diferentes regiões do Brasil como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal, Bahia, Amazonas e Rio Grande do Sul, e terá ao todo 54 expositores, entre eles artistas, designers, quadrinistas, coletivos e editoras independentes.

Tendo como principal característica o craft, movimento sustentável em que as habilidades manuais do artista dão originalidade à peça, as publicações de artista vão na contramão das produções maquínicas padronizadas do mercado comum. “O livro de artista cria condições específicas de leitura, traz uma linguagem independente e ainda assim repleta de sistemas de signos. Para entender essas publicações, como disse o pesquisador Ulises Carrión, é necessária uma cumplicidade intelectual e sentimental dos leitores em matéria de amor, política, psicologia e geografia”, afirma produtora cultural Gabi Bresola, que criou em 2014 o selo editorial de publicações experimentais Miríade, braço da editora Letras Contemporâneas.

Flávio Tin/ND

A produtora cultural Gabi Bresola criou em 2014 a Miríade, selo editoral da Letras Contemporâneas focado em publicações de artistas

 

Sendo responsável pela edição de cerca de dez trabalhos, todos de artistas independentes, a Miríade traz a proposta de não limitar-se a formatos tradicionais de publicação, produzido livros de artistas, zines, pôsteres e outros. “O melhor desse tipo de publicação é não defini-la, não prendê-la especificamente a um único suporte”, observa Gabi Bresola, que também é idealizadora e organizadora da Flamboiã Feira, evento centralizado em arte impressa que teve sua primeira edição em novembro de 2015 e terá a sua segunda em outubro de 2016 na Capital. “Feiras como o Parque Gráfico são reflexo da ascensão desse tipo de produção artística libertária e independente”, completa Bresola, que também traz os trabalhos da Miríade para o evento que acontece na próxima semana.

Trabalhos múltiplos e seriados

O Armazém, selo editorial da editora Cultura e Barbárie, também tem como proposta as publicações de artista. Lançado em 2014 e idealizado pela artista visual Juliana Crispe, o selo é uma vertente do Projeto Armazém, exposição e feira de arte impressa que surgiu em 2011 em Florianópolis e terá sua oitava edição na cidade em junho deste ano. “A arte impressa é um movimento surgido ainda na década de 1950 e 1960, idealizado por artistas que queriam fazer trabalhos múltiplos e seriados. No Brasil, creio que esse movimento também tem relação com os poetas concretistas, que buscavam se utilizar da própria estrutura do livro para repensar outros suportes artísticos”, explica Juliana Crispe.

Flávio Tin/ND
Criado pela artista Juliana Crispe e nascido do projeto de exposição e feira que leva o mesmo nome, o selo Armazém, da editora Cultura e Barbárie, também traz publicações diferenciadas

 

Para a editora do Armazém, esses tipos de publicações tornam as obras de arte mais acessíveis e democráticas. “Apesar de haver a reprodutibilidade técnica, ainda há uma conservação da essência da obra. Ainda acho que há uma aura, e também um processo de fetiche que faz com que as pessoas queiram colecionar e adquirir esses objetos e publicações. Apesar de seriados, são trabalhos únicos porque são produzidos manualmente”, afirma Juliana Crispe, que também traz os trabalhos do Armazém para a 1ª edição do Parque Gráfico. O selo, que já publicou cerca de 20 obras, também é responsável por realizar traduções de obras literárias.

A designer catarinense Tina Merz, que também mora em Florianópolis, já trouxe seu trabalho gráfico para algumas publicações de artista. Além disso, produz independentemente encadernações, zines e livros. “Eu gosto desse caminho entre a arte e o design, do cuidado com a memória gráfica que essas publicações costumam ter”, observa Tina, que integra o Coletivo Piscina, plataforma virtual criada em 2015 para reunir e expor o trabalho de mulheres artistas de diferentes regiões do Brasil, que também estará comercializando trabalhos no Parque Gráfico. Além de ter produzido um zine especial que reúne mais de 30 trabalhos visuais das integrantes do Coletivo Piscina, Tina Merz é responsável por produzir o próprio folder de divulgação do Parque Gráfico e também vai ministrar no evento uma oficina de encardenações para crianças. “A margem de lucro dessas publicações é muito pequena, a maioria desses trabalhos são bem existenciais, feitos mais por amor à produção artística”, opina a designer, que utiliza a máquina tipográfica, sem aplicação de tinta, para produzir suas próprias publicações.

Rosane Lima/ND
Tina Merz e a máquina tipográfica de hotstamping: para a designer que integra o Coletivo Piscina, a maioria dos trabalhos são feitos por amor à produção artística

 

Produtos independentes e experimentais

De acordo com a pesquisadora Regina Melim, o mercado alternativo das produções gráficas independentes potencializa as experimentações artísticas. A professora da graduação de Artes Visuais da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) criou em 2006 a Parentesis, plataforma virtual independente que pesquisa projetos artísticos e curatoriais no formato de publicações impressas. “O termo publicação de artistas abarca uma série de experimentações. São os múltiplos meios de se produzir um trabalho de arte. Ainda sim, o suporte papel permanece e tem um valor e importância expressiva fundamental”, afirma a especialista, que reforça a relevância das feiras expositivas: “houve um aumento expressivo de feiras, que costuma ser o lugar desse tipo de produção, que não se adequa nem a uma livraria, galeria ou museu”, explica a professora.

Saiba mais sobre o Parque Gráfico - Feira de Arte Impressa de Florianópolis

Entre os artistas que criam suas próprias gráficas independentes está o catarinense Gustavo Reginato, que lançou em 2014 a Editora Caseira, que já publicou livros, zines e objetos gráficos do próprio editor. “Cada publicação tem um projeto gráfico específico com sua encardenação, que é feita artesanalmente. Criei a editora como canal para viabilizar minhas obras e ela ganhou repercussão. Hoje, a editora já publicou cerca de 20 obras”, conta Reginato, que mora atualmente em Florianópolis. Para transportar os trabalhos da Editora Caseira e percorrer diferentes feiras, o artista visual usa uma grande mala que também serve como dispositivo expositivo das criações. “Essas publicações fazem os leitores pensarem a materialidade do livro como experiência. São publicações para serem habitadas. Mesmo havendo um padrão, um livro sempre acaba ficando diferente do outro”, opina Reginato, também expositor na Feira de Arte Impressa de Florianópolis.

A feira Parque Gráfico é viabilizada por meio do Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura/2014, do Governo do Estado – o projeto é um dos vencedores da categoria Eventos Artísticos e Culturais. A feira também promoverá oficinas, debates e palestras, além de ter sete estandes e oficinas de encardenação direcionadas ao público infantil: “também teremos palestra com João Varella, editor reconhecido da Lote 42”, conclui a designer Camila Petersen, idealizadora e organizadora do evento.

O quê: Parque Gráfico – Feira de Arte Impressa de Florianópolis
Quando:
De 13 a 15/5. Na sexta-feira das 16h às 19h, sábado e domingo das 13h às 19h
Onde:
No Museu da Escola Catarinense, rua Saldanha Marinho, 196, Centro, Florianópolis, tel. 48 32258658
Quanto:
Gratuito, palestras e oficinas pagas, diferentes valores

Glossário – familiarize-se com a arte impressa:

Publicações de Artista: não se restringem ao formato livro, estendendo-se a tudo quanto implique editar, publicar, disseminar e circular: gravuras, fotografias, jornais, revistas, cédulas, cartazes, fanzines, lambes, mapas, selos, cartas, postais, adesivos, múltiplos seriados.

Livro de artista: transcende o conceito de livro tradicional. Podem ser produzidos em tiragem limitada, seriados ou serem obras únicas. O livro é entendido nele mesmo como uma obra de arte, não é ele um livro sobre arte, mas a própria obra.

Zine ou Fanzine: é uma publicação independente, de baixo custo e feito para ser reproduzido normalmente por Xerox. Nasceu nos Estados Unidos nos anos 1930 pelos poetas que desejavam divulgar suas poesias. Na década de 1970 foi amplamente utilizado pelo movimento punk na Inglaterra. Hoje produzido por artistas, literários, e grupos de movimentos ativistas, traz discursos de gênero, raciais, políticos.

Pôster ou cartaz: publicação artística em maior escala. Para manter a facilidade de reprodução, podem ser produzidos com diferentes técnicas, desde impressão comum, tipografia, serigrafia, xilogravura e reproduções de originais seriados e assinados.

Lambe-lambe: Pôsters ou cartazes pensados para serem colados em espaços públicos que se inserem no contexto da Arte Urbana. Geralmente traz trabalhos visuais ou mensagens escritas.

Arte Postal: surgiu na década de 1960 através de correspondências trocadas entre artistas. A mail art (arte postal) utiliza-se do sistema de correio e das materialidades (cartas, cartões-postais, selos, envelopes, telegramas, carimbos-postais, etc) para sua construção.

 

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