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Sábado, 22 de Setembro de 2018
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Prefeitura de São José busca R$ 3 milhões para reformar teatro mais antigo de SC

Recuperação do Adolpho Mello, que completa 160 anos em 2016, vai começar pelo telhado

Karin Barros
Florianópolis
Bruno Ropelato/ND
Inaugurado em 1856, o chamado 'teatrinho' além de espaço cultural importante para a cidade, foi cinema e até quartel


O prédio de 343 m² de área construída do Theatro Adolpho Mello, na praça Hercílio Luz, em São José, que em 2016 completa 160 anos de sua inauguração oficial, passará pela primeira restauração geral depois de 30 anos da última reforma.

O teatro, que é o mais antigo de Santa Catarina e o terceiro mais antigo do Brasil, passou por diversas fases: serviu de quartel na Revolução Farroupilha, quase foi substituído por um mercado, e correu o risco de ser trocado por dois caminhões.

Em meio a isso, serviu de teatro até o início do século 20, depois como cinema pela Liga Josefense, em seguida como espaço cultural, onde aconteciam apresentações de dança, teatro e lutas romanas. Na década de 1940 foi o Cine Rajá, e nos últimos anos de funcionamento retornou aos primórdios e foi palco de diversas peças locais no município.

O projeto de restauro deu início em 2013, com a interdição do espaço pela Defesa Civil em janeiro do mesmo ano a pedido da prefeitura.

Diversas infiltrações tanto do solo, por onde passa um olho d’água de grande pressão, que inicia no Beco da Carioca e desemboca no mar, tanto pelo telhado datado do século 19, que atualmente sofre com cupins, a chuva e a água que escorre diretamente de um telhado vizinho, causaram diversos estragos na estrutura arquitetônica e no que havia dentro.

Problemas elétricos e de estrutura, quanto às normas exigidas pela Defesa Civil, também impedem o teatro de funcionar a plenos pulmões.

De acordo com a superintendente adjunta da Fundação Municipal de Cultura e Turismo de São José, Joice Porto Luca, a busca por recursos para o restauro do Theatro Adolpho Mello iniciou assim que a prefeita Adeliana Dal Pont assumiu o cargo, em 2013. “O primeiro passo foi a interdição do local para evitar que tragédias acontecessem. Foi na mesma época do caso da Boate Kiss, no Rio Grande do Sul, onde centenas de jovens morreram, e nós ficamos alertas”, lembra a superintendente adjunta.

Para a reforma, de acordo com Joice, será necessário o valor de R$ 3 milhões. A primeira verba veio do Estado, em meados de 2014, quando foram solicitados R$ 300 mil para a obra do telhado, a parte emergencial da estrutura.

Na época, a prefeitura teve problemas com a transferência, porque foi depositado em dezembro de 2014, e no ano seguinte eles não conseguiriam mexer no recurso. O dinheiro foi devolvido ao Estado e feito um novo cadastramento do teatro para o uso da verba. O valor repassado pelo governo chegou a R$ 182 mil, e, em contrapartida, a prefeitura de São José precisaria dar 30% do valor.

No total, a fundação tem R$ 261.375,77 para a reforma do telhado. “O combinado com a prefeita foi economizar em outras áreas da fundação, como o Carnaval, para dar força ao restauro. Algumas partes vão sofrer, mas não podemos perder esse bem do município, nem adiar mais esta obra”, sintetiza Joice.

O resultado da licitação para esta parte sairá na próxima terça-feira (19), e terá início imediato, já que a intenção é finalizar as obras no primeiro semestre de 2017. “Já estamos pensando na reabertura, e a peça a ser apresentada será a mesma que aconteceu em 1856, “O Monge da Serra D’Ossa”. O grupo convidado já está estudando o assunto”, revela Joice.

Flávio Tin/ND
As 29 obras do artista Rodrigo de Haro foram desgastadas pelo tempo e não têm mais condições de recuperação. O próprio artista se propôs a refazer as obras


Obras de Rodrigo de Haro deterioradas

Parte delicada e importante na memória recente do Theatro Adolpho Mello são as 29 obras do artista Rodrigo de Haro, 77, nascido em Paris mas morador da Capital, pintadas e colocadas no espaço na década de 1980, quando houve a última grande reforma. Parte delas foram pintadas diretamente nas paredes, e outras em telas.

Em entrevista a revista “Vogue” da década de 1980, que tratava exclusivamente da construção do Theatro Adolpho Mello, Haro diz: “busquei nos argonautas uma síntese perfeita dos meus objetivos. Essa narrativa, a mais antiga que se conhece de uma viagem ao Oriente, possui diversos níveis de interpretação (...)”. O artista diz que buscou no “tarô francês de mademoiselle Le Normand, as oito imagens necessárias para compor livremente a narrativa da fábula”.

Em novembro de 2015, Haro entregou um dossiê à prefeitura disposto a refazer as obras. “Ele foi até o teatro, viu as obras, fez anotações, descreveu tudo à mão do que precisaria ser feito para ter as obras novamente. Elas não podem ser restauradas, pois estão muito deterioradas com a infiltração. Teria que ser feito tudo original novamente”, ressaltou a superintendente Joice.

Para as obras de arte de Haro seriam destinados R$ 400 mil e um ano de trabalho. “Tentamos via Fundo de Recuperação de Bens Lesados do Ministério Público e não foi aprovado. Estamos buscando novas fontes de patrocínio”, explicou o superintendente da Fundação Municipal de Cultura e Turismo do município, Caê Martins.

 Gilberto Gerlach, 72, engenheiro e historiador que fez parte das transformações do teatro na década de 1980, quando tinha cargo na FCC (Fundação Catarinense de Cultura), conta que Haro fez questão de fazer parte do teatro.

Anterior a essa reforma, as paredes do teatro passaram por diversas fases. “O local tinha galerias e camarotes nas laterais, e não possuía banheiros. Eu que os incluí na entrada principal, o que diminuiu um pouco a estrutura. Quando o teatro foi criado, as pessoas diziam que ‘tinham que ir prontas’”, brinca.

Foi durante a última grande reforma do teatro que ele passou a se chamar Adolpho Mello. O nome foi escolhido pois Adolpho nasceu em São José em 20 de outubro de 1861.

Além de violinista, compositor e regente, foi tesoureiro-geral do Estado e diretor do Conselho Municipal de Desterro. Em 1854, quando colocada a pedra fundamental por conta de uma estrada que ligava Lages a São José, ele se chamava apenas Theatro Municipal, e assim permanece no letreiro antigo na fachada do prédio.

Flávio Tin/ND
O engenheiro e historiador Gilberto Gerlach participou da última reforma do teatro, que incluiu banheiros no teatro


Tombamento somente municipal

O também chamado “teatrinho de São José”, segundo Gerlach, funcionou como teatro de 1856 a 1910. “Segundo manuscritos, as pessoas da Ilha vinham pelo mar, paravam na altura da Câmara de São José para prestigiar as peças do teatrinho”, conta o historiador.

Em seguida, os padres franciscanos criaram então o cinema da Liga Josefense. Em 1924 houve uma nova reforma, e o teatro reabriu apenas na década de 1940, como Cine Rajá. Este teve funcionamento até 1978. “No Cine Rajá havia apresentações de cantores famosos, porque era a época da rádio, e às vezes acontecia uma peça antes do filme a ser exibido.

O cinema funcionava de segunda a segunda, uma equipe fazia os anúncios que ficavam pendurados em frente ao teatro e na entrada da Praia Comprida e Ponta de Baixo, e noticiávamos no jornal. As sessões aconteciam em vários horários, e no inverno, domingo à tarde, tinha às 16h e às 18h. Era muito barato ir ao cinema naquela época. Mais que hoje”, relembra Gerlach orgulhoso do momento histórico em que viveu.

Graças a Gerlach também o Adolpho Mello não foi vendido. “Uma moça da prefeitura me procurou apavorada, dizendo que havia visto o nome do teatro para venda na prefeitura. Imediatamente fui em busca do Jorge Bornhausen [governador do Estado na época], e ele decretou o teatro como de utilidade pública”, conta.

O espaço foi reinaugurado no final de 1980, com a presença da atriz Tônia Carrero, 93. A falta de reconhecimento histórico não foi apenas na década de 1980. O mais antigo teatro de Santa Catarina não é tombado pelo governo federal ou pelo Estado, apenas pelo município, desde 2005, o que dificulta todos os trâmites financeiros para reformas.

Segundo a superintendente adjunta da Fundação Municipal de Cultura, Joice Porto Luca o teatro já foi inscrito em diversos editais, mas poucos para o patrimônio histórico foram lançados nos últimos anos.

Pelo tombamento estadual, o processo não andou. “Há um dossiê elaborado pelo arquiteto Fabiano Teixeira, atualmente no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) de Laguna, requerendo que sejam incluídos como Patrimônio Cultural do Estado de Santa Catarina 26 imóveis localizados em São José entre os quais o Theatro Adolfo Mello.

A chancela do Estado ao patrimônio cultural de São José é de fundamental importância não só pela possibilidade de ampliar os canais de financiamento de restauro como também para aumentar sua efetiva fiscalização”, explicou Rafael Barcelos Martins, coordenador do SERPPAC (Serviço de Proteção do Patrimônio Cultural e Natural de São José).

A Fundação Catarinense de Cultura informou por telefone que nenhum dossiê desde 2013 foi encontrado para dar andamento ao caso do Adolpho Mello.

Flávio Tin/ND
Teatro precisa ser totalmente restaurado. Prédio sofre com infiltrações e cupins


Modernização
 

De acordo com a coordenadoria do SERPPAC, o processo de recuperação do teatrinho será bastante complexo e demorado.

“A Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) fez o projeto arquitetônico e não os complementares, que são o hidrosanitário e elétrico. Completo mesmo apenas o do telhado, que está em licitação. As obras iniciam no final de janeiro, se o processo encerrar sem qualquer diligência por parte dos concorrentes. Após a cobertura, inicia a licitação dos projetos complementares e em seguida, o global do prédio. Em sequência dessas intervenções se faz necessário a parte da iluminação cênica e os demais componentes como sonorização, cortinas, etc”, pontua Rafael Barcelos Martins.

O projeto da Udesc, feito pelo engenheiro civil Edy Luft, foi entregue em agosto de 2014, mesma época em que o Estado garantiu a verba para troca do telhado.

Na última medida paliativa feita no theatro, foram colocados ares-condicionadores, porém, segundo o superintendente Caê Martins, quando eles eram ligados, caia a energia do prédio.

Com o restauro, a Fundação Municipal de Cultura e Turismo garante a mudança na tecnologia do som, que deve seguir os parâmetros do Centro Multiuso de São José, climatização, a colocação de bancos especiais para cadeirantes e rampas de acesso, além do aumento na largura das escadas. Tudo isso deve diminuir o número de público do local, que podia chegar a 150 pessoas. 

Entenda a história do Theatro Adolpho Mello

- Pedra fundamental colocada em 17/9/1854
- Inaugurou em 21/6/1856
- Foi quartel da Revolução Farroupilha
- Funcionou como teatro até o início do séc. 20
- Em 1910 funcionou com cinema da Liga Josefense
- Em 1924 passou pela primeira reforma
- Foi reaberto na década de 1940 como Cine Rajá
- Foi reformado em 1954
- Funcionou até 1978
- Teve a última reforma no início da década de 1980
- Reinaugurou em 30/12/1981, com a presença de Tonia Carrero
- Em 1982 passou a se chamar Adolpho Mello
- Ficou sobre administração do Estado até 1992
- Desde então passou apenas por obras paliativas
- Previsão de início do restauro em 2016

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