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FAM abre com "Anauê!" filme de Zeca Pires sobre o nazismo e integralismo no Vale do Itajaí

Filme se concretizou após grande pesquisa do experiente cineasta catarinense, conhecendo de perto a realidade do local

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
20/06/2017 às 14H55

O mais produtivo e experiente cineasta catarinense é a estrela do FAM 2017, que começa nesta terça-feira (20) no auditório Garapuvu do Centro de Cultura e Eventos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em Florianópolis. O novo filme de Zeca Pires, o documentário “Anauê! – O Integralismo e o Nazismo na Região de Blumenau”, marca a abertura do evento, às 21h desta terça (20), e põe fim a quase duas décadas de idas e vindas, dificuldades inerentes à produção de cinema no Estado e barreiras que a própria proposta do projeto criou, porque o tema é um grande tabu e exigiu do diretor mais paciência do que em todas as suas produções anteriores. Falar de nazismo e integralismo não é para qualquer um, e o assunto é delicado até mesmo para a população de Blumenau e região, onde Pires foi buscar a matéria prima para o longa-metragem.

“Anauê” é o 11º filme do cineasta e só se concretizou após muita pesquisa, leituras e a garimpagem de personagens que estudaram ou conheceram de perto a realidade no Vale do Itajaí durante o período da 2ª Guerra Mundial. O ponto de partida foi um filme de Alfredo Baumgarten, um dos pioneiros do cinema catarinense, que registrou o Congresso Integralista de 1935 em Blumenau. Depois disso, Zeca Pires conseguiu um vídeo sobre o mesmo congresso que praticamente empurrou seu projeto para frente. O integralismo teve mais adeptos no Sul do que em qualquer outra região do Brasil e em Santa Catarina floresceu no Vale, onde também o nazismo encontrou terreno fértil para se espraiar. A palavra “anauê”, de origem tupi, era um cumprimento integralista que virou o título do projeto.

Evento em que aparece a suástiza nazista na região de Blumenau - Divulgação/ND
Evento em que aparece a suástica nazista na região de Blumenau - Divulgação/ND


O primeiro contato com o tema ocorreu na década de 1990, quando Zeca Pires e Norberto Depizzolatti, também cineasta, foram assistentes iconográficos da professora Neide Almeida Fiori, da UFSC, numa pesquisa sobre a nacionalização do ensino no país. “O que me deixava intrigado é que essa história era pouco contada e documentada, não estava nas histórias oficiais”, conta o diretor. Sua própria mãe lecionou em Timbó e ali não se podia falar a língua alemã, mas todos os alunos eram filhos de descendentes dos colonizadores germânicos e, portanto, era preciso aprender o idioma para se comunicar..

Um grande trauma para várias gerações

O trabalho de mestrado de Zeca Pires sobre Alfredo Baumgarten e Jose Julianelli, outro nome entre os primeiros a registrar o Estado pelas câmaras do cinema, aumentou exponencialmente o interesse pelo tema. Baumgarten era filho do dono do jornal “Blumenau Zeitung”, publicado em alemão, e foi eleito vereador pelo Partido Integralista. Foi preso duas vezes, numa delas por escutar o noticiário da guerra pelas rádios da Alemanha, o que era proibido. As perseguições a quem desrespeitava as normas, a mudança dos nomes de cidades que tinham denominação em língua germânica e outros traumas dificultaram as pesquisas. “Senti a dificuldade das pessoas, sobretudo as mais velhas, de falarem sobre isso; algumas sofreram pessoalmente, outras viram os pais sofrerem”, conta ele.

Ontem, por telefone, o cineasta disse que a estreia do documentário no FAM é um momento especial e que seu interesse é que o tema seja mais discutido. “As gerações atuais querem conhecer a história, e o filme é um pequeno degrau para isso”, destacou. Há na produção depoimentos e cenas marcantes como um discurso feito pelo presidente Getúlio Vargas em 1940 em Blumenau e o episódio dos ovos jogados contra o interventor Nereu Ramos, na mesma cidade. “Com o filme, quero estimular a discussão sobre a importância do diálogo num momento em que a intolerância cresce em todo o mundo”, afirmou.

Confira a programação de terça-feira (20):

14h: Mostra Infanto-juvenil – Especial Hospital Infantil Joana de Gusmão –“Macacada”, de Thomas Larson, Brasil, Animação, 4min; “No Caminho da Escola”, com alunos da rede municipal de ensino fundamental de Vitória (ES), Brasil, animação, 9min; “O Bruxo do Cosme Velho”, idem, animação, 15min; “Uma aventura na caatinga”, de Laercio Filho, Brasil, animação, 12min

18h: Mostra Paralela de Música - Hall do Centro de Cultura e Eventos da UFSC – Grupo Vai Como Der

18h30: Cerimonial de abertura (Auditório Garapuvu)

19h30: Mostra de Curtas Catarinense “Do que te Lembras Maria?”, de Mara Salla, Palhoça, drama, 15min; “Cinco5”, de Camila Arriaga Torres, Santa Cruz de la Sierra, Florianópolis, Bogotá, Cochabamba e Assunción, drama, 6 min; “Larfiagem”, de Gabi Bresola, Herval do Oeste, Joaçaba e Florianópolis, documentário, 18min; “O Prometido”, de Rodrigo Araujo e Thiago L. Soares, Florianópolis, suspense, 18min

20h: Mostra de Longas – Auditório Garapuvu – “Anauê!”, de Zeca Pires – Santa Catarina, Brasil, documentário – 106min

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