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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Falta de discussão sobre o futuro do MArquE é motivo de controvérsia na UFSC

Museu de Arqueologia e Etnologia Prof. Oswaldo Rodrigues Cabral (MArquE) é o único museu da UFSC

Roberta Ávila
Florianópolis

Foto: Daniel Queiroz/ND
 
O Museu de Arqueologia e Etnologia Prof. Oswaldo Rodrigues Cabral (MArquE) é o único museu da UFSC. Órgão suplementar da universidade, assim como o Hospital e o Restaurante Universitário, ele tem como missão servir a todos os estudantes da UFSC e à comunidade. Pelo menos enquanto mantém seu status, que pode ser alterado ano que vem. Por iniciativa da reitoria, o MArquE, que tem em seu acervo ossadas de 20 mil anos e mais de 2.700 desenhos, manuscritos e esculturas de Franklin Cascaes, um dos mais renomados artistas catarinenses,  pode deixar de ser um órgão suplementar para se tornar vinculado ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH).

Essa alteração deixou os servidores do museu apreensivos com a possibilidade de que ele passe a funcionar como um laboratório do CFH, principalmente do curso de museologia, que teve sua infraestrutura considerada insuficiente pela avaliação do Ministério da Educação (MEC). Como não foram inaugurados os laboratórios previstos no plano de criação do curso, provisoriamente os alunos estão tendo aulas no pavilhão de exposições do MArquE. O MEC, em documento que regulamenta a criação do curso, emitido neste ano, considera essa situação inadequada porque o local abriga acervos legalmente protegidos.

Angelo Renato Biléssimo, historiador e responsável pelo laboratório de arqueologia do MArquE, conta que uma das preocupações é que o acervo passe a ser usado em aulas de restauração, por exemplo.

“As aulas são no pavilhão de exposição e com isso circulam alunos em uma área de segurança, restrita para quem lida com a reserva técnica” afirma o historiador. Outra questão são os projetos interdisciplinares do museu, como a do sambaqui realizada junto com a biologia. Com a vinculação com o CFH, o futuro do projeto, para o historiador, fica incerto.

A diretora do MArquE, Sônia Weidner Maluf, discorda do parecer do MEC e afirma que o local onde os alunos têm aulas não é uma área de reserva técnica.

Sem diálogo

A decisão de vincular o museu ao CFH foi tomada em junho pela Secretaria de Cultura da UFSC (SeCult).

 “Fomos surpreendidos com a notícia de que o MArquE iria passar para o CFH em uma reunião em fevereiro. A gente acredita que isso foi fruto de uma conversa entre a reitoria e o CFH, mas com a gente nada foi conversado, só fomos comunicados”, afirma o historiador Angelo.

O desejo dos servidores do museu é participar da discussão sobre o assunto e esse pedido foi formalizado em uma carta endereçada à reitoria em abril e assinada por oito membros da equipe. Nunca tiveram resposta.

A necessidade de debater também foi reiterada pelos estudantes do curso de museologia da UFSC e pelo conselho universitário em outras duas cartas, uma delas assinada pelo Centro Acadêmico Livre de Museologia, que questiona os motivos da decisão e defende que a questão seja debatida.

A outra carta foi assinada pelo Conselheiro da UFSC Hélio Rodak de Quadros Júnior, que questiona a validade de uma série de decisões relacionadas ao caso devido a conflitos de interesse e a choques com a legislação da UFSC.

“A portaria que vincula o museu ao CFH é assinada pelo secretário de cultura da UFSC, Paulo Ricardo Berton. Só que o museu, como órgão suplementar, é subordinado à reitoria. O secretário de cultura tem autoridade para fazer essa vinculação?”, questiona o conselheiro.

A diretora do MArquE explica que a secretaria de cultura da UFSC foi nomeada responsável pelo museu pela reitora, portanto tem autoridade para administrar o órgão suplementar. Também segundo a diretora, tanto os funcionários do museu quanto os alunos do curso de museologia estiveram presentes em reuniões e debates sobre a questão, mas devido a questões políticas negam essa participação.

Paralisia acadêmica

 Depois da última reunião do conselho universitário, realizada no dia 3 de dezembro, a proposta de retirar o MArquE como órgão suplementar, que estava em pauta, não foi votada por falta de quórum. A direção do CFH emitiu uma nota no dia 6 de dezembro explicando que duas questões principais motivaram a vinculação do museu ao CFH: a demanda de atividades relacionadas ao museu dos cursos de CFH e o estado de “paralisia acadêmica e esvaziamento institucional” em que o museu se encontrava.

O conselheiro da UFSC Hélio Rodak questiona essas justificativas.

“Desde que a nova gestão assumiu a reitoria, o museu ficou sem diretora por mais de um ano. Como os funcionários poderiam ter autonomia para desenvolver projetos e tocar pesquisas sem alguém que valide essas decisões?”, pergunta.

Já a demanda dos cursos do CFH, seria principalmente relacionada à criação do curso de museologia, em 2010. Avaliado pelo MEC em setembro deste ano, o curso teve seu desempenho considerado insuficiente tanto no item da dimensão didático-pedagógica como na infraestrutura.

O documento do MEC aponta que a UFSC não seguiu o proposto nos planos de criação do curso e que existe forte relação com as áreas de antropologia e história e pouca formação específica em museologia. O documento também afirma que os laboratórios previstos não foram implantados e que não existe nenhuma pesquisa ou atividade de extensão em museologia na UFSC.

Para Sônia Weidner Maluf, que também é vice-diretora do CFH, o plano do curso de museologia surgiu junto do museu, mas isso não significa que ele será um laboratório do curso.

“Significa sim que ele pode dar apoio ao curso, assim como também dará apoio ao futuro curso de arqueologia, que ainda não tem data para começar”, informa.

A diretora também acrescenta que graças à aproximação com a museologia, os alunos do curso fizeram sua primeira exposição, chamada “Lendas Urbanas”, em novembro no MArquE, atividade que até então não tinha sido possível. Segundo a diretora, a quesão da criação dos laboratórios da museologia está sendo discutida pelo CFH para que a questão seja resolvidad.

“Prefiro me distanciar”

A nota emitida pelo CFH no dia 7 de dezembro afirma que foram realizadas pelo menos 15 reuniões com todo o quadro de funcionário do museu para debater a questão, mas a coordenadora da divisão de museologia do MArquE, Cristina Castellano, afirma não ter conhecimento sobre o assunto.

“Não conheço o documento do MEC que avalia a utilização do museu pelo curso de museologia e não li a carta feita pelos colegas para a reitora”, afirmou. Quando questionada sobre os motivos pelos quais não leu esses documentos a coordenadora explicou:
“A gente se abstém desses problemas políticos que existem há tantos anos. Prefiro me distanciar”.

Tanto Cristina Castellano quanto a professora Aline Dias da Silveira, coordenadora do curso de história da UFSC, acreditam que a interação com outros cursos será definida pela gestão do museu, independente da vinculação ao CFH.

O que é o MArquE?

O museu desenvolve atividades de pesquisa, ensino e extensão em arqueologia pré-colonial e histórica, etnologia indígena e cultura popular. O destaque do acervo é a coleção “Profª Elizabeth Pavan Cascaes”, que reúne mais de 2.700 desenhos, manuscritos e esculturas de Franklin Cascaes, um dos mais renomados artistas catarinenses, que são referência para a análise da ocupação humana na Grande Florianópolis.

Conflitos apontados pelo conselheiro Hélio Rodak de Quadros Júnior

“A portaria, com data de 19 de junho, que vincula o museu ao CFH e é assinada pelo secretário de cultura da UFSC, Paulo Ricardo Berton. Só que o museu como órgão suplementar é subordinado à reitora. O secretário de cultura tem autoridade para fazer essa vinculação?”

“A diretora do MArquE, professora Sônia Weidner Maluf, é vice-diretora do CFH. Existe um conflito de interesse aí, já que CFH é beneficiado pela vinculação”.

“Pela legislação da UFSC a reitora só pode passar um órgão suplementar para uma pró-reitoria ou para uma secretaria com status de pró-reitoria, portanto é possível que seja irregular a vinculação ao CFH”.

“Agora a reitora pede que o museu deixe de ser um órgão complementar. Isso é como pegar o HU e fechá-lo para a comunidade, fazer com que ele esteja disponível apenas para os alunos de medicina”, explica o conselheiro.

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