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Evento em Florianópolis reunirá profissionais que criam letras

O Café com Serifa, em sua terceira edição, busca discutir a profissão, trocar experiências e dicas entre calígrafos, typer designers e pessoas que fazem letterings

Karin Barros
Florianópolis
02/12/2016 às 18H01
O calígrafo Ivan Jerônimo, organizador do Café com Serifa, evento que atende a um segmento em expansão. Hoje a caligrafia é uma opção de trabalho para ele - Flávio Tin/ND
O calígrafo Ivan Jerônimo, organizador do Café com Serifa, evento que atende a um segmento em expansão. Hoje a caligrafia é uma opção de trabalho para ele - Flávio Tin/ND



Sabe aquela letra bonita, bem desenhada e “diferentona” que a gente encontra em convites, cardápios de restaurantes e em marcas famosas? Todas elas são muito bem pensadas por pessoas que estudam a tipografia em suas três vertentes: lettering, type design e a caligrafia. Em Florianópolis, ocorre na próxima quarta-feira (7), o terceiro Café com Serifa, evento que busca reunir profissionais do ramo para mostrar portfólio, trocar dicas e experiências. 

A iniciativa do jornalista e calígrafo, Ivan Jerônimo Iguti da Silva, 40, se soma a outros indícios do crescimento dessas profissões no Brasil. Em 2016, por exemplo, a quantidade de trabalhos brasileiros na Bienal de Tipos Latinos, concurso em que participam designers de fontes de toda a América Latina, foi exatamente o dobro da edição passada e a maior desde 2006. Além disso, os dois principais grupos brasileiros de caligrafia no Facebook - Caligrafia e Coffee Calligraphic Associations -, somam hoje mais de 20 mil membros.
A primeira edição do Café com Serifa reuniu quase 60 pessoas, para a surpresa de Ivan, que acredita que cerca de dez pessoas trabalham como calígrafos na cidade atualmente. O evento foi inspirado no “Bistecão da Ilustração”, que acontece em São Paulo e até teve uma versão na Capital, o “Berbigão da Ilustração”. 

Ivan Jerônimo explica que a tipografia surgiu antes do século 14 – que foi marcado pela imprensa de Gutemberg. Na época, tudo era feito a mão, por isso, os livros que eram em sua maioria sobre religião, era muito caros. As edições eram feitas por copistas, que ficavam em mosteiros e desenvolviam os tipos de letras de acordo com a religião e o período histórico e artístico. “O mosteiro da Alemanha e da França, por exemplo, tinham estilos diferentes”, explica. 

Depois da invenção da imprensa, os tipos de letras começaram a variar e a ter um caráter não só de livro, mas de documentos. “As letras também correspondiam a cada estilo artístico, como o Barroco, Gótico e Renascentista”, explica o calígrafo, deixando claro que as fontes não tinham relação visual com a arte, mas herdava  nome do movimento artístico.   

Um dos trabalhos de caligrafia de Ivan Jerônimo - Divulgação/ND
Um dos trabalhos de caligrafia de Ivan Jerônimo - Divulgação/ND



A relação de Ivan Jerônimo com os tipos começou nos anos 2000, quando cursando jornalismo na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e trabalhando com design gráfico, conseguiu uma bolsa para trabalhar no Japão. Por lá, fez um curso de caligrafia japonesa, e ali “despertou o olhar”. “Era difícil porque tinha que fazer o alfabeto japonês, e usávamos pincel e tinta, que não é tão firme como a pena que é de metal”, lembrou ele. Ao retornar para o Brasil, o ofício com as letras parou, porque por aqui não havia especialização, estudos ou livros do estilo. 

Porém, há quatro anos com a expansão da caligrafia ocidental, artistas começaram a deixar o tradicional de lado e fazer algo mais contemporâneo, voltado para a street art. “A expressão se tornou mais individual, e ficou mais fácil de ter informação e acesso a materiais. Eu já tinha algumas coisas, mas estavam guardados porque não sabia usar”, recorda. Hoje, Ivan tem a caligrafia como segunda opção, onde produz diversos trabalhos, e em primeiro plano vem o emprego como designer gráfico na UFSC.   

Bruno Abatti trabalha com letterings e uma de suas especialidades é a escrita no quadro negro - Flávio Tin/ND
Bruno Abatti trabalha com letterings e uma de suas especialidades é a escrita no quadro negro - Flávio Tin/ND



Quadro negro como referência 

Para ser um calígrafo é preciso muito esforço pessoal, porque fora os poucos workshops dados por quem pratica a arte, o ensino do ofício é quase inexistente. Ivan explica que os cursos de design têm uma disciplina referente às fontes, mas para seguir é preciso buscar sozinho por livros, informação e prática. 

Dentro das tipografias, três estilos ramificam os profissionais: o type designer, que é especialista em tipografia, responsável por desenhar as fontes que usamos no computador. Sabe ainda combiná-las de forma adequada ao projeto; o calígrafo, profissional que escreve textos manualmente em tipos específicos de letras, como cursivo e gótico; e o lettering, que realiza um trabalho manual semelhante ao do calígrafo, mas em vez de escrever as letras, desenha-as. 

O estudante de design gráfico da UFSC, Bruno Abatti, 21, que faz o estilo lettering há quatro anos. Ele iniciou o curso e a vontade de trabalhar com lettering juntos. Durante a faculdade que ainda está cursando, só uma disciplina compreende o assunto. Eventos como o Café com Serifa, são importantes, segundo Bruno. “Participei da primeira, e é legal porque conhecemos outros trabalhos, conhecemos novos profissionais e pegamos dicas”, diz. Ele, na recém-carreira que vem construindo, já é conhecido como o lettering dos quadros negros, ou paredes pretas. 

Mural-cardápio do café Uma Origem, no Mercado São Jorge, feito por Bruno Abatti - Divulgação/ND
Mural-cardápio do café Uma Origem, no Mercado São Jorge, feito por Bruno Abatti - Divulgação/ND



Na realidade, ele fez apenas três trabalhos no estilo, mas o cardápio no café Uma Origem, no mercado São Jorge, no Centro de Florianópolis, parece eternizado. Foram duas semanas desenhando e escrevendo em sete metros de comprimentos por 1,5 de altura. “Acho que ficou marcado pelo tamanho e pelas diversas técnicas que usei”, explica. Bruno afirma que para quem já trabalha com as letras, estudar design é um “plus”, porque aprofunda o estudo das fontes, com a história da arte, por exemplo. 

Jefferson Cortinove criou fontes inspiradas na artes rupestres da cidade e na ponte Hercílio Luz, a Hercílio - Divulgação/ND
Jefferson Cortinove criou fontes inspiradas na artes rupestres da cidade e na ponte Hercílio Luz, a Hercílio - Divulgação/ND



Fontes de Floripa

Jefferson Cortinove, de Florianópolis, que é professor de tipografia na Unifebe (Centro Universitário de Brusque) também é um exemplo de type designer. Formado em artes plásticas, a relação com a tipografia começou por influencia do pai que era tipógrafo. Já na universidade, cursando artes plásticas, se interessou por algumas disciplinas extras, como tipografia e artes gráficas e percebeu que suas poesias ficariam mais interessantes com um certo cuidado com a tipografia, o que foi o pontapé para mudar a sua área para o design gráfico. 

Por volta de 1999 começaram seus primeiros esboços e tentativas de letras, mas a primeira fonte surgiu apenas em 2007, seguida em 2011 pela participação em um calendário alemão, o Typodarium, dando visibilidade ao trabalho. 

Em comemoração aos 90 anos da Ponte Hercílio Luz, Cortinove, criou a família completa de fontes inspiradas na arquitetura da ponte, onde o lançamento oficial foi em maio deste ano com download gratuito. Hercílio DC é uma família tipográfica sem serifa, condensada, moderna e geométrica. A FloriGlyphos também uma fonte inspirada na cidade, e outros projetos temáticos já estão sendo trabalhados inspirados na Capital. 

A Hercílio, que tem como referência a ponte de Florianópolis - Divulgação/ND
A Hercílio, que tem como referência a ponte de Florianópolis - Divulgação/ND



Cortinove diz que, apesar de a tipografia ser um mercado em expansão, ela ainda é uma prática pouco conhecida e valorizada no país. “Tanto o desenvolvimento como a compra das fontes são muito pequenos se comparados a outros países. A dica para quem está começando é aprimorar constantemente o desenho vetorial”, diz ele.

Serviço

O quê: Café com Serifa
Quando: 7/12, 18h
Onde: Coffee & Shop 18, rua Acelon Pacheco da Costa, Santa Mônica, Fpolis
Quanto: entrada gratuita

Programação

- Lançamento do livro de poemas "Roubadas de um jardim", do type designer Jefferson Cortinove
- Lançamento dos cartões tipográficos da PARQUE Edições
- Conversas sobre a possibilidade do DiaTipo Floripa em 2017

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