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Escavações no Museu Victor Meirelles, em Florianópolis, encontram peças do século 19 e 20

Louças, vidros, garrafas e ossos de animais ajudam a entender como se vivia na antiga Desterro

Karin Barros
Florianópolis
11/02/2017 às 12H09
Museu Victor Meirelles - Flavio Tin/ND
Thayná Costa, da equipe do Iphan,  procura vestígios. No final do século 19, sem coleta de lixo, as famílias jogavam os dejetos nos próprios terrenos - Flavio Tin/ND



Não é só nas fotos antigas que se descobre o passado de uma cidade. Por meio de estudos no âmbito da arqueologia histórica se pesquisam as modificações materiais que ocorreram no mundo desde a expansão europeia, entre os séculos 15 e 16. Porém, esses estudos não são focados apenas no que os europeus fizeram, e sim em como isso foi alterando o mundo. Períodos mais próximos, como os séculos 19 e 20, também são analisados, pois a arqueologia não está presa a um tempo específico, mas ao vestígio material dele.

Em Florianópolis, uma equipe de seis arqueólogos analisa vestígios encontrados em um sítio arqueológico no terreno onde fica localizado o Museu Victor Meirelles, no Centro da cidade. O local recebe desde abril do ano passado as obras de restauração e ampliação previstas pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) – Cidades Históricas, do governo federal, avaliadas em R$ 3,8 milhões. Com isso, desde novembro de 2016 arqueólogos trabalham em cima de uma área de 4m² e 1,5 m de profundidade, localizada embaixo de uma das salas do museu, na parte de trás da construção.

A área foi escolhida porque o museu está passando por um processo de criar acessibilidade, e nessa parte será instalado um elevador que ligará a antiga casa natal do pintor Victor Meirelles (1832-1903) ao prédio anexo, doado ao Iphan (Instituto do  Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) pelo Estado. Segundo a fiscal da obra e superintendente do Iphan em exercício, Marina Cañas Martins, o trabalho de arqueologia costuma acontecer apenas no local em que será utilizado de fato na obra a ser restaurada. Sabe-se historicamente que no final do século 19 não havia coleta de lixo na antiga Desterro, e as famílias optavam por instituir grandes lixeiras no próprio terreno de suas casas e comércios.

Essa não é a primeira restauração do museu, nem a primeira vez que é encontrado um sítio arqueológico no terreno. Em 2001 aconteceu a primeira escavação, sob coordenação da arqueóloga Fabiana Comerlato, na parte da frente do salão. No local foram encontrados muitos ossos de animais, referência à alimentação de seus moradores, que eram anteriores à casa que existe hoje, do período colonial, do final século 18.

De acordo com o arqueólogo Pedro Henrique Damin, 29, da equipe da atual obra do museu, isso ocorria por problemas na época de concessão a alguns matadouros para venda de carne. “Isso explicaria a grande quantidade de material ósseo faunístico dentro da casa, não respeitando as estruturas originais”, afirma, lembrando que a rua, que hoje se chama Victor Meirelles, era conhecida como Rua do Açougue.

Museu Victor Meirelles - Flavio Tin/ND
Escavação ocorre no local onde terá elevador que ligará a antiga casa do pintor ao prédio ao lado, que será anexado ao museu- Flavio Tin/ND


Armazém e residência

Os arqueólogos do Iphan SC estão escavando vários processos do terreno contemporâneos à estrutura. O material que está aparecendo no momento é de uma lixeira do início do século 20, pelo tipo de material, mas conforme o avanço das escavações podem aparecer vestígios mais antigos – dos séculos 19 e 18. A casa pode ser definida como um sobrado luso-brasileiro, provavelmente construída entre o final do século 18 e início do 19. Inicialmente térrea, após construção do segundo pavimento a ocupação do edifício seguiu o padrão do período:  comércio no térreo (no caso, um armazém de secos e molhados) e residência no andar superior.

Segundo Damin, do Iphan SC, no buraco aberto apareceram ossos animais, como bovino, suíno, aves e muita vértebra de peixe, espinhas, escamas. Também surgiram objetos como vidro de garrafa, frasco de remédio, restos de vidros construtivos, que poderiam ser de uma janela, de porta, e vidros de garrafa, que têm a característica de serem mais curvados. Encontraram ainda três tipos de louça: a faiança, produzida no século 17 e 18, a faiança fina, que é feita em uma queima mais alta, por isso tem menos rachaduras, e a louça inglesa, louça fina de decoração ‘willow’, muito comum de se encontrar no mundo inteiro nesse século, pois era vendida de forma massiva.

A pesquisa no solo do museu está sendo feita em oito camadas, divididas em 10 cm. As buscas se encerram quando não aparece mais nenhum tipo de material diferenciado ou se chega à base rochosa, o que é fácil, pois essa parte do Centro de Florianópolis era chamada de bairro da Pedreira.

Concomitante às escavações, os materiais encontrados vão para o MArque (Museu de Arqueologia e Etnologia) da UFSC, onde já está sendo curado, limpo, registrado e será posteriormente analisado. A UFSC também terá a guarda desse material arqueológico. As pesquisas devem ser encerradas dentro de um a dois meses no museu, e o trabalho do laboratório pode levar até seis meses.

Museu Victor Meirelles - Flavio Tin/ND

Vidros, ossos de animais e faianças foram encontrados - Flavio Tin/ND


Complexidade da obra 

A fiscal Marina Cañas Martins explica que a obra de restauração tem dois objetivos: o primeiro é entender o que ocorria no terreno até mesmo antes da casa da família Meirelles, e o segundo é entender como era a casa, pois ela já passou por várias fases. “Às vezes não temos registros, fotos e desenhos suficientes, e só a arqueologia consegue nos dizer onde eram os pisos, os resquícios de uma parede. Eles auxiliam a equipe de engenharia e arquitetura a enxergar os possíveis formatos da edificação”, diz.

A obra não tem a intenção de mexer na questão estrutural da casa, mas já está sendo comprovado que ela não era assim desde início. Outras escavações também já foram feitas no Centro da cidade, como no Museu da Escola Catarinense, na Catedral, no Palácio Cruz e Sousa e na Casa de Câmara e Cadeia, a mais recente. O Iphan, em parceria com a direção do museu, tem a intenção de transformar as peças encontradas em uma exposição, e isso pode acontecer no térreo do sobrado, como uma interpretação sobre quem era Victor Meirelles, o que tinha na casa e as obras que foram feitas na edificação.   

Desde o início foi dito que os recursos para a restauração do Museu Victor Meirelles estavam reduzidos, um reflexo da crise em que o país vive. Com isso, a fiscal do Iphan SC afirma que houve um envolvimento maior dos funcionários do instituto com a obra. Poucas vezes acontece de o Iphan, além de fiscalizar a obra, ser também a equipe de arqueólogos responsáveis.

O novo museu deve abrir suas portas ao público em 2018, e com a ampliação, terá quase o triplo de tamanho do espaço atual – os 280 m2 atuais da edificação passarão para 800 m2. O equipamento cultural terá um café, uma loja, auditório, além de sala de exposição e reservas técnicas maiores. O novo prédio também terá climatização e acessibilidade.

Visite a escavação do Museu Victor Meirelles

Serão duas etapas de visitação, abertas ao público, nos dias 15 e 22 de fevereiro (às quartas-feiras), às 15h30.

Serão reservadas dez vagas para cada etapa devido ao espaço e à segurança das pessoas.

Você pode agendar sua participação pelo telefone 48 3222-0692.

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