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Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
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Novo curador da Bienal de Design, Freddy Van Camp, fala sobre os desafios do evento

Bienal Brasileira de Design ocorrerá entre 15 de maio e 12 de julho em Florianópolis

Marciano Diogo
Florianópolis
Divulgação/ND
Novo curador tem menos de três meses para preparar o mais importante evento de design do Brasil


Na última semana o designer Freddy Van Camp foi anunciado como o novo curador da Bienal Brasileira de Design 2015, que ocorrerá entre 15 de maio e 12 de julho em Florianópolis. Com 47 anos de experiência na área, Van Camp é um profissional de referência nacional, designer premiado, curador de várias exposições,  professor na Escola Superior de Desenho Industrial, no Rio de Janeiro. Freddy é formado em design industrial pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e possui mestrado em design industrial pela UCLA (Universidade da Califórnia) e também em design ambiental pela Braunschweig, na Alemanha.

ND Durante dois anos você foi o representante do design junto ao Conselho Nacional de Política Cultural do MinC (Ministério da Cultura). Que experiências destacaria em gestão de políticas públicas que fomentem e incentivem uma produção maior do design no Brasil?

FVC Desde a época de estudante, quando era membro de um grupo de design, tento trabalhar a regulamentação da nossa profissão e o fomento de entidades representativas do setor. Regularmente, o design existe em nosso país há 50 anos, com escolas e profissionais qualificados. Nosso grande problema de fato é que não há política que fomente a produção. É um trabalho processual, lento, mas que já vem sendo feito há décadas. 

ND Como está o cenário atual do design no Brasil? Temos a cultura do design incorporada a nossa identidade nacional?

FVC Sobre o ponto de vista mercadológico, temos excelentes profissionais. Do ponto de vista de fomento, infelizmente ainda é um pouco limitado. Porém essa Bienal nos traz um incentivo de extrema importância. O empresário brasileiro ainda não acredita no design como ferramenta estratégica, ainda falta incentivo para indústria em geral. O grande problema é a falta da cultura do design no meio empresarial, mas aos poucos está mudando. Santa Catarina, por exemplo, foi um dos primeiros Estados a adotar o design, o empresário catarinense já procurava o design como diferencial há 45 anos. Inclusive meu primeiro emprego como designer foi em Santa Catarina na Consul.

ND Quanto à relação comercial estabelecida com a produção do design, que experiências você reconheceria junto a demandas de clientes? Que cases merecem destaque?

FVC Prefiro destacar produções de outros designers, principalmente os catarinenses. Empresas como a ARTEX, que foi uma das primeiras empresas do Brasil a usar computação gráfica para produzir suas toalhas, a própria Consul, que tem um poderoso departamento no mercado mundial quanto ao design, e a Hering, que se destaca pelo design em seus PDV’s [Pontos de Venda, lojas]. Quanto à minhas produções, destacaria a Cadeira Delta, que vendemos a 20 anos seguidos no mercado. É um case especial porque tem uma demanda específica, hoje em dia poucos fazem cadeiras diferenciadas em nosso país, todo mundo importa da China. Vou exemplificar com uma fala que meu colega Sérgio Rodrigues dizia, que gostava de criar produtos para “sentar à carioca” e para “sentar à paulista”. O carioca senta mais largado, relaxado, então precisa de um assento diferente. Já o paulista é mais conservador e senta mais ereto, direito. 

ND Sobre a curadoria geral da Bienal, você assume o cargo em um momento conturbado em que a então curadora, Adélia Borges, deixou o cargo por motivos de pressão profissional. Como será o seu trabalho de curadoria? Irá supervisionar todas as exposições?

FVC Sim, vou supervisionar todas, inclusive a que já estão em andamento. Adélia era uma curadora extremamente competente, e teremos que terminar o trabalho deixado por ela. Já estou examinando o que está em andamento e uma das decisões tomadas é que chamaremos cocuradores locais para nos auxiliarem nas exposições, até para acelerar o processo. Serão quatro cocuradores locais, um para cada linha definida. A ideia é trabalhar com design para diversidade, projetos da esfera pública, produtos da classe C/D que democratizam o design e também algo voltado para o design comunitário.

ND O que priorizará nesse processo de curadoria?

FVC Quero fazer a coisa mais consistente e coerente possível no tempo em que temos. Em função de prazos, teremos que cortar alguma coisa. Reconheço que teremos algum prejuízo, mas farei com que seja o mínimo possível. Quero que a Bienal também seja um veículo de promoção da produção catarinense, com produtos locais, e para isso precisamos que a indústria local também apoie o evento, que é fomentado através da Lei Rouanet. Estamos captando recursos através da lei, mas precisamos de ainda mais.

ND A coordenadora geral da bienal, Roselie Lemos, afirmou que você traria “um novo olhar, com novos eixos de pensamento” para o evento. Que novo olhar é este?

FVC Quero voltar para uma produção de design em alta escala, para atender a população. Quero desmistificar a ideia de que o design é algo para privilegiados, para pessoas entendidas. O design existe para dar qualidade de vida às pessoas, para fazê-las sentirem-se melhores. Uma pessoa pode sentar em um toco de madeira ou uma pedra, mas quando se senta em uma cadeira se sente melhor. Se um cirurgião tiver um bisturi com um bom design, com a ergonomia e material correto, vai fazer uma cirurgia melhor. Um passageiro de ônibus merece qualidade no transporte, com uma cadeira bem desenhada, a alça na altura correta e a campanhia com fácil acesso. Podemos viver sem design, mas com ele vivemos melhor. É isso que falta: as pessoas entenderam que o design é um fator aditivo à qualidade de trabalho e de vida. O design democratiza a qualidade de vida. Quando temos um produto com um bom design, ele pode ser operado por alguém formado ou um leigo. A bienal cristaliza essa questão: as pessoas encontrarão produtos que estão em prateleiras, produtos extintos que deixaram de ser fabricados e também protótipos.

ND Quais são suas expectativas para o evento?

FVC O evento ter ido para Florianópolis é um reflexo do movimento que já foi observado nos anos 1960, quando Santa Catarina, através de seus empresários, já tinha o design como algo necessário. Trazer a Bienal para Santa Catarina foi uma candidatura com fundamento, devido à ligação histórica que o Estado tem com o setor. A Bienal vai mostrar a produção do design catarinense para todos os visitantes, vindos de diferentes áreas e até de fora do país. O empresário tem que entender que o design é um dos fatores mais baratos que ele tem para diferenciar sua marca: o lucro é absolutamente inacreditável se comparado ao investimento, e o inovar passa muitas vezes pela casa da criatividade, e não da complexidade tecnológica. Design não existe sem criatividade. Teremos uma bienal bem diversificada e ativa, com eventos em paralelo, exposições em vários locais. Vamos desmistificar a questão da exclusividade e ressaltar o tema do evento: design para todos.

Conheça os trabalhos de Freddy Vam Camp através do site http://www.vancampdesign.com.br/.

Saiba mais sobre a Bienal Brasileira de Design através do site http://www.bienalbrasileiradedesign.com.br/

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