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Quinta-Feira, 15 de Novembro de 2018
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Entrevista: Charles Watson fala sobre criatividade e como fomentar o processo criativo

O estudioso escocês está em Florianópolis, onde ministra seu famoso workshop, procurado por pessoas de várias áreas ligadas em inovação

Rafael Thomé
Florianópolis
Diego Bofill/Divulgação/ND
Watson está na Capital desde sexta, até domingo, onde dá um curso no Centro Executivo de Florianópolis, do Senai

“As pessoas não nascem criativas, elas se tornam criativas”. A sentença é fruto do trabalho do escocês Charles Watson, radicado no Brasil há 40 anos e autoridade quando o assunto é processo criativo. Formado em artes na Bath Academy, na Inglaterra, e professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, Watson ministra cursos disputadíssimos – como o que ocorre em Florianópolis neste final de semana –, nos quais propõe reflexões e o desenvolvimento da capacidade criativa no mundo dos negócios, principalmente em tempos de crise econômica.

A criatividade pode ser desenvolvida nas pessoas ou é algo que nasce com elas?

As pessoas não nascem criativas. Nascem com aparelhagem para poderem se tornar criativas. Isso não é suficiente, nem garante criatividade. Por exemplo, ninguém nasce sabendo tocar piano, as redes neurais envolvidas em tocar piano surgem com a prática. Pode haver uma predisposição, mas não isso não é definitivo.

Como o desenvolvimento da criatividade pode ser fomentado?

Depende de como cada um quer sua vida, mas há certas vantagens se o processo começar cedo. O cérebro é mais flexível quando as pessoas são muito jovens, tem mais espaço disponível para ser desenvolvido. Existe uma certa competição no cérebro: áreas mais usadas se desenvolvem mais, por isso, se você começa uma atividade cedo, isso te dá mais vantagens. Outro ponto, é que é muito raro que jovens bem dotados se transformem em adultos criativos. Ao contrário do que parece, pessoas muitos criativas aprendem com as dificuldades, não facilidades.

A realidade social dos indivíduos interfere no processo criativo?

Tendo a achar que em qualquer que seja o setor da sociedade, você sempre vai encontrar pessoas reclamando da situação e outras superando seus limites. Outra questão importante é educacional. Uma pessoa pode mostrar uma capacidade criativa, mas isso, muitas vezes, é reprimido por uma falta total de educação.

Estamos em uma situação ridícula em termos de educação no Brasil. Somos a sétima economia do planeta e o 54º país em termos de investimento do PIB em educação. Isso é vergonhoso. O futuro do país não é a soja, nem o pré-sal, são as pessoas. Enquanto esse investimento não for feito, vamos ter problemas.

O que bloqueia o processo criativo?

São inúmeros os motivos. Talvez, os mais potentes e populares são bloqueios por pessoas que acham que não podem ou devem errar. Todo criador, de qualquer área, sabe que se você não erra, você nunca foi para um lugar desconhecido. A sociedade faz expectativas irreais e idiotas sobre isso, achando que o sucesso tem que ser garantia para alguém, e uma pessoa que é chamada de bem sucedida reluta em arriscar. Ela tende a se cercar com problemas e situação que já lhe são familiares em vez de arriscar em áreas novas.

A falta de tempo para o ócio criativo pode ser um “bloqueador”?

O ócio criativo são pequenos intervalos entre períodos longos de trabalho. Algumas pessoas acham que é só não fazer nada que as ideias caem do céu. Não se trata disso. Você só é capaz de perceber significantes acidentes quando está muito preparado dentro da sua área. O acaso favorece apenas uma mente muito bem preparada.

O conceito de criatividade sempre esteve ligado às artes, como incorporá-lo na vida social e no mundo dos negócios?

Criatividade associada com arte tem um motivo. Normalmente, trabalhos artísticos são mais associados com pensamentos divergentes, enquanto negócios normalmente são associados com o pensamento convergente. A verdade é que as pessoas que fazem a diferença nas suas áreas são uma minoria. Há tanto “funcionalismo público” na arte como em qualquer outra área.

Qual a importância da interdisciplinaridade nos processos criativos?

Uma vez que criatividade é caracterizada pela capacidade de ver improváveis ligações entre assuntos diferentes, na medida em que você tem experiência em áreas diferentes, me parece que pode ser vantajosa a multidisciplinaridade. Muitas pessoas que se mostraram notáveis nas suas áreas tendem a ter diferentes interesses e curiosidades em outras áreas. Ao mesmo tempo, é importante mencionar que interdisciplinaridade vai ser complementar ao processo criativo. Não se pode confundir multidisciplinaridade com mente de borboleta, que fica indo de um lado para outro sem pousar em nenhum lugar.

De que forma é possível tratar de um assunto como a criatividade para públicos tão diferentes?

Os fatores importantes no processo criativo superam as diferenças de linguagens. Tem momentos que posso tocar cientistas citando poetas, por exemplo. O fato de ter um público variado é vantajoso, porque você conta com uma abrangência maior em disciplinas diferentes, que ajudam a encontrar semelhanças nas questões. As palestras, são bastante intensas e são ilustrados com filmes, entrevistas, citações, etc. Em um dos módulos, damos ênfase na comparação entre sistemas biológicos. O momento que vivemos, de extrema aceleração e de quantidade inimaginável de dados, assemelha-se ao imenso sistema de biodiversidade. Podemos aprender muitas lições aprendendo esses sistemas e fazendo analogias.

Na tua opinião, qual a melhor referência contemporânea quando o assunto é criatividade?

Uma disciplina, que não é necessariamente nova, mas sim suas conclusões... A área que conhecemos como neurociência tem descoberto mais sobre o funcionamento do nosso cérebro nos últimos anos do que descobrimos em toda história da humanidade. 

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