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Ensaio: Um “até logo!” a Trisha Brown, àquela que deu carne ao pensamento

Coreógrafa estadunidense deixa um vão não apenas em quem assistiu às suas performances, mas deixa árido um tempo onde se vê cada vez menos produções

Anderson do Carmo - *Artista e pesquisador da dança
Florianópolis
24/03/2017 às 20H11
A coreógrafa Trisha Brown morreu no sábado passado, dia 18 - Divulgação/ND
A coreógrafa Trisha Brown morreu no sábado passado, dia 18 - Divulgação/ND



Trisha Brown foi embora, aos 80 anos, enquanto chegava a primavera no hemisfério norte. De modo similar a sua obra (sem alarde e, no entanto, avassaladora) a morte da coreógrafa estadunidense deixa um vão não apenas no coração de quem assistiu sua companhia ao vivo no palco, trombou com suas performances no meio de inúmeras cidades pelo mundo ou contatou sua poética por meio de vídeos e fotos; o vão que se alarga um pouco mais com essa despedida é lugar árido onde cada vez se vê menos produções – não apenas artísticas, mas humanas de modo geral – que conseguem ligar os que vieram antes com os que virão depois de nós. Trisha conseguia.

Em seu manuseio artesanal da gravidade a texana-de-nascimento e nova-iorquina-por-opção dava a ver mais do que o fôlego vanguardista dos anos 1960 que marcou sua geração. Sua singularidade se firma não no ímpeto adolescente de ultrapassar o que se compreendia como dança, tempo, espaço e corpo até então, mas na radicalização das descobertas de seus antecessores – um salve à Merce Cunningham e Anna Halprin – a tal ponto obstinada que dela brotavam infiltrações em linguagens outras, como nas criações musicais de Laurie Anderson e na visualidade de Robert Rauschenberg.

O trabalho ininterrupto, obsessivo e progressivamente minucioso desenvolvido ao longo dos mais de quarenta anos de atividade, no entanto, não são o que mais se pode se celebrar. O que realmente merece festejo é a capacidade desencadeadora de outras inquietações em outras gerações de artistas. Desde o estabelecimento da Trisha Brown Dance Company não há estudante, artista, coreógrafo e audiência de dança contemporânea no qual não se perceba vestígio das inquietações brownianas.

Viga-mestre que é da construção da contemporaneidade na dança suas mais de 100 coreografias, óperas, exposições e filmes vão além de pensamento ganhando carne, são vida invadindo a arte e arte ocupando a vida: em “Foray Forêt”,1990, a trilha sonora que compunha junto dos movimentos dos bailarinos lembrava o som longínquo de uma fanfarra; o barulho aumentava a tal ponto que parecia haver uma fanfarra de verdade atrás da porta de entrada do teatro. E havia. Atravessando a plateia e ocupando o palco um pedaço de vida penetrava a cena e deixava clara a origem da poética browniana: a possibilidade concreta de recriar nossa compreensão sobre a realidade.

Trisha Brown parte para sua próxima aventura como uma das artistas da dança que mais perto chegou de tocar naquilo que nos faz ser quem somos. Sua dança esfregou matéria e pensamento um no outro até que deles saísse faísca que – mesmo momentaneamente – permitia entrever a resposta do mistério que é a vida. Trisha foi cedo. Jamais seria hora oportuna para sua partida. Resta – gigantesca – a saudade.

 

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