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Empreendedores apostam no Continente para movimentação cultural de Florianópolis

Se antes ainda era preciso ir até a Ilha para ter acesso à cultura, hoje muitas pessoas acreditam no fluxo contrário da cidade

Karin Barros
Florianópolis
24/07/2017 às 15H01

Nem para consumir os setores de gastronomia, vestuário, automobilístico e lazer é preciso ir até a Ilha. Apenas a cultura ainda mantinha o fluxo de migração da Grande Florianópolis em busca da metrópole por algo diversificado e com qualidade. Porém, há pouco menos de um ano se tenta reverter esse conceito com o apoio de pessoas que acreditam na parte continental de Florianópolis.

Natália Veiga, da Lona Criativa - Flavio Tin/ND
Natália Veiga criou no Estreito, em um prédio de três andares, espaço sustentável para vários usos culturais - Flavio Tin/ND

Para empreendedores como Natália Veiga, Bruno Brasil e Airton Nunes, o outro lado da Ilha tem potencial para deixar de ser conhecido apenas como passagem e virar referência na busca de boa música, workshops e oficinas artesanais - inclusive, tem aluguéis bem atrativos e imóveis disponíveis. Parece que o “Brooklyn manezinho”, aos moldes do condado novaiorquino, vem ganhando vez na movimentação cultural da Capital, na altura da “Manhattan”.

Parte já consolidada disso é o Parque de Coqueiros, que completou a maioridade em abril de 2017, e que atrai um público de quase 15 mil pessoas nos finais de semana. Na área de lazer, após autorização da prefeitura, diversas empresas podem promover eventos, feiras e exposições, movimentando o comércio e a cultura local. Para o secretário do Continente, Edinho Lemos, o parque hoje é peça fundamental na movimentação da região, além de ser a maior área de lazer de Florianópolis.

Natália, 30, mora desde que nasceu no bairro Estreito, tem família e amigos na região, e apostou na rua Fulvio Aducci para empreender. Depois de um ano e meio fazendo pesquisas sobre o quê era interessante pôr em prática e o quê as pessoas necessitavam na cidade, ela começou a ter dificuldade na locação do imóvel. Sem conseguir a sala que queria no bairro Santa Mônica e perdendo os apoiadores financeiros, ela se viu sem saída no projeto.

Por muito pouco o sonho de Natália quase ficou apenas no papel, até encontrar outro imóvel, dessa vez no Estreito. Tudo colaborou. Desde a estrutura às questões financeiras, já que o dono do prédio de três andares estava há algum tempo sem um locatário. De fora, ainda não é possível identificar o centro cultural que a empresária solidificou há sete meses, mas por dentro muita coisa já foi colocada em prática.

O momento ainda é de testes na Lona Criativa, pois é preciso algumas reformas que irão fazer do local algo sustentável, com salas para reuniões e trabalho, por exemplo. Enquanto isso, Natália e os apoiadores voluntários vão realizando workshops, palestras, oficinas e bazares no espaço fomentando a movimentação cultural do continente. “Quando quis criar esse espaço, a ideia era repensar a cadeia de produção de moda, as formas de trabalho e educação, algo que sempre tive grandes problemas. Eu queria repensar muita coisa, e porque não o fluxo da minha cidade?”, coloca Natália.

Na Lona já foi feito, por exemplo, oficina de marcenaria para mulheres (que inclusive lotou e terá outra em agosto), de empoderamento feminino por meio da dança, aulas de tecido acrobático semanais, e por último uma exibição da série “Game of Thrones”, que lançou recentemente a 7ª temporada. “Eu não vejo a série, achei que não ia dar certo, mas quase 70 pessoas lotaram nosso espaço e vibravam a cada fala dos personagens. Muita gente do bairro, que nem sabia que a casa existia veio, foi incrível”, lembra ela.

A Lona agrega ainda um food truck, a loja Pulp, que era no Centro de Florianópolis, e depois das dezenas de arrombamentos cogitou fechar até conhecer o projeto de Natália; o acervo da Novelo Filmes; e o Banco de Tecidos de Reuso, que é de São Paulo.

A cabeça da empreendedora não para, e conseguindo um apoio financeiro o prédio deve passar em breve por uma grande reforma que vai beneficiar ainda mais a parte continental da cidade.

Conexão tatuagem e arte 

O estúdio de tatuagem do artista urbano Bruno Brasil e do carioca Pedro Gomes vai além de traçar a pele. Para começar, a Café Preto Tattoo tem sede no Jardim Atlântico, bairro que faz divisa com São José, e uma filial no Rio de Janeiro. “Vimos essa brecha de fazer uma conexão com as duas cidades, que é algo que já acontece na música, e na arte precisava de um gás”, afirma Brasil.

Bruno Brasil, do Café Preto Tatto - Flavio Tin/ND
Bruno Brasil  tem um estúdio de tatuagem e arte urbana no Jardim Atlântico , que aposta no intercâmbio - Flavio Tin/ND


Há pouco tempo eles completaram um ano do projeto, que nasceu despretensioso, da vontade de Brasil de voltar a tatuar após um intercâmbio de estudo em Portugal.

O jovem empreendedor de 22 anos chama o estúdio de “plataforma artística”, pois a ideia é fazer sazonalmente eventos, workshops e oficinas relacionados à tatuagem com uma curadoria cuidadosa que busca manter o padrão do que é produzido no dia a dia do local. “Essas viagens já acontecem desde o meu trabalho com a pintura urbana, mas não era rentável, e com a tatuagem eu vi um caminho para continuar isso e ainda receber as pessoas em Floripa”, diz.

Tatuadores como Bru Simões, de Vitória (ES), Daniel Kenji, do Rio, além de profissionais de São Paulo, Curitiba e Minas Gerais já tiveram passagem pela Café Preto. “Hoje em dia essa tendência de troca de tatuadores está em alta no país porque a evolução do profissional atinge um nível muito maior quando está em contato com outros artistas. Eu tenho certeza que evolui muito com essa vivência”, explica Brasil.

A escolha pelo Jardim Atlântico, na rua pintor Eduardo Dias, também tem a ver com uma relação afetiva de Brasil com o bairro onde nasceu, cresceu e tem casa. Para ele, o que importa é a qualidade do serviço. Com isso, interessados em tatuagem se deslocam de onde for pelo melhor traço. Recentemente, Bruno e outros tatuadores viajaram para a Europa em uma conferência de tatuagem. Na viagem eles fizeram diversos vídeos que vão virar um documentário com estreia prevista no Rio em setembro e mais tarde em Santa Catarina.

Modelo americano de fazer 

Já inspirado nos moldes americanos que acompanha na TV fechada, o curitibano Airton Nunes, 50, morador de Florianópolis há quase 30 anos resolveu inovar no seu negócio. Há 25 anos ele mantém uma oficina mecânica de injeção eletrônica na rua Bernardino Vaz, no Estreito, porém, desde o verão o espaço funciona nas noites de quarta e sexta-feira também como bar, o Gasoline Custom.

Airton Nunes, da Gasoline Custom - Flavio Tin/ND
De dia é oficina mecânica e em algumas noites abre como bar, assim é o espaço de Airton Nunes, no Estreito - Flavio Tin/ND

Segundo Airton, essa é uma tendência da cultura Custom, que já acontece nos Estados Unidos e que aos poucos vem dando as caras no Brasil. Ele é ligado a grupos de carros antigos e moto clubes, por isso, com frequência seus amigos iam até a oficina para tomar umas cervejas e até fazer um churrasco.

Airton, entusiasmado com os programas americanos, viu nisso uma forma de empreender ainda mais na região continental. A oficina passou por uma reforma estrutural, ganhou bar e decoração temática, mas mantendo sempre a característica principal que é ser uma oficina mecânica, tudo feito e pensado pelo proprietário. “Dei uma camuflada, mas não podia deixar de ser oficina. Ainda quero fazer um cinema trash, colocar cortina vermelha e um telão”, acrescenta ele.

O empreendedor reforça que o bar é de amigos e simpatizantes da cultura Custom, e que busca fazer algo comportado para não atrapalhar a vizinhança. Nas quartas-feiras o Gasoline tem happy hour a partir das 19h com música ambiente e o movimento Biker, voltado às motocicletas. Nas sextas é a vez da música ao vivo, sempre com algum cantor de blues.

Serviço

O quê: Lona Criativa
Onde: rua Fulvio Aducci, 534, Estreito, Fpolis
Quando: de terça a domingo, a partir das 11h

O quê: Café Preto
Onde: rua pintor Eduardo Dias, 141, Jd. Atlântico, Fpolis
Quando: atendimento com horário marcado 

O quê: Gasoline Custom
Onde: rua Bernardino Vaz, 177, Estreito, Fpolis
Quando: quartas e sextas, a partir das 19h

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