Publicidade
Terça-Feira, 20 de Novembro de 2018
Descrição do tempo
  • 25º C
  • 16º C

Novo curador do Masc tem pela frente desafios e cobranças da classe artística

Nomeado como novo administrador e curador do segundo museu mais antigo do país, Josué Mattos fala sobre não apenas preencher paredes

Karin Barros
Florianópolis
10/04/2017 às 10H55
Josué Mattos - Daniel Queiroz/ND
Mattos é de Criciúma e morou sete anos na França - Daniel Queiroz/ND


Josué Mattos, 35, costuma dizer que estuda artes desde os nove anos de idade, quando ia com frequência à Fundação Cultural de Criciúma, sua cidade natal. Depois disso, aos 15 anos, mudou-se para São Paulo e abriu-se para outras oportunidades. Viveu entre a cidade paulista e o Rio de Janeiro, e de 2003 a 2010 morou em Paris (França), local onde estudou História da Arte e Arqueologia na Université Paris 10 Nanterre, e obteve o título de Master 1 e 2 em História da Arte Contemporânea. Em 2009, concluiu o mestrado em Práticas Curatoriais, na Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne.

Desde 2010 em Florianópolis, a última semana de Josué foi de muitas reuniões após assumir oficialmente a administração e curadoria do Masc (Museu de Arte de Santa Catarina), o segundo museu mais antigo do Brasil, ao lado da curadora-adjunta Édina de Marco. O museu já não contava com uma administração capacitada no assunto, inclusive, há quase dez anos ninguém lança um dos editais mais importantes do Estado, o Salão Victor Meirelles.

Josué sabe muito bem que está ocupando um espaço que ficou marcado nos últimos tempos pelo ostracismo, falta de investimento, e recebe muita cobrança da classe artística, que há um bom tempo está em busca de seus direitos relacionados a editais que caíram no esquecimento.

Entre os últimos trabalhos de Josué está a concepção da trienal de artes de Sorocaba (SP), pelo Sesc-SP, em que fez a curadoria geral do projeto. Nele, o curador trabalhou com artistas de 26 nacionalidades, de países como Argentina, Colômbia, Holanda, Amsterdam, Brasil e Espanha. Atualmente, ele também tem em andamento o lançamento do livro do artista maranhense Thiago Martins de Melo, que vai circular o mundo inteiro; e o Centro Cultural Veras, que deve ficar pronto até o início de 2019, no Córrego Grande, na Capital.

Josué, antes de aceitar o convite do Masc, iria ministrar aulas na faculdade em que se formou em Paris, com início em junho. “Eu recebi a notícia com a discrição que me pediram e fiquei esperando o momento para comemorar, mas acho que não é a hora agora depois da nomeação. Vou esperar passar os próximos meses e ver as coisas acontecerem. Estou trabalhando como se estivesse em qualquer outro museu, o que está em jogo é reconhecer que é a linguagem que domina a arte e não a notoriedade ou a história”, afirma ele.

Masc - Arquivo/Marco Santiago/ND
O Masc ficou conhecido pelo seu ostracismo nos últimos anos - Arquivo/Marco Santiago/ND


Entenda a opinião do novo administrador e curador do Masc 

Acervo do Masc 

Meu grande interesse sempre foi cuidar de um acervo, e aqui temos um. Ele é muito lacunar, com nomes importantes, mas em determinadas fases. Um acervo que se contenta com a presença nominal, não com a qualidade ou o corpo de obras, então se você tem um Tarsila do Amaral, ninguém quer saber o que é, de onde veio, de onde saiu, qual o estado de conservação e o nível de relação que essa obra estabeleceu com outras coleções. De modo que o Masc possa ser lembrado em uma grande exposição e emprestar uma obra. O acervo tem que ser visto como um núcleo pelo qual o educativo se fortalece e o curatorial também. Queremos também enriquecer o acervo com alguma política de doação ou compra. 

Exposição permanente 

É um nome até fantasioso numa condição que estamos em que nada se estabelece no mundo. Grandes museus falam do assunto com alguma ressalva. O Museu do Louvre teve grandes problemas com o acervo permanente, porque o parisiense ia na infância e depois não voltava mais, isso que ele deve ter cem paredes a mais que a gente [o Masc]. Uma exposição permanente sempre traz esse problema de assiduidade. É possível que haja uma redistribuição espacial do Masc de modo que não tenhamos a restrição de utilizar uma pequena galeria como espaço de exposição de acervo. 

Programa curatorial 

Se prevê algo, mas estamos em processo de avaliação. Estamos pensando em um programa que não sirva exclusivamente para preenchimento de parede e sim a um processo de profissionalização do setor. Esse museu tem data, é um senhor respeitável no Brasil e esquecido em função da sua pouca sistematicidade. E o que fará dele esse museu que todos almejamos na região é a postura profissional diante do setor de arte e cultural, algo ainda pouco praticado sob tudo na política de editais. Precisamos de um mês pra arrumar a casa para poder receber a classe e amantes de arte como se deve. 

Importância do museu 

O museu é o lugar que preserva a memória e fomenta a pesquisa, com isso temos um certo tipo de auto-imposição. É um lugar onde há contato com o público e isso fomenta a linguagem do mundo e do tempo presente. Isso faz com que o museu caminhe com as próprias pernas logo, tudo associado com as ações presentes na programação. 

Modelo internacional 

Vamos inaugurar o projeto Claraboia, que tem ocupação na claraboia, e que reproduz outros modelos do Piasan, do MoMA, da Sala 315. É uma espécie de programa que consiste em comissionar obras a artistas vivos e quase sempre o interesse que essa obra não seja deslocada do entorno do museu. Podemos trabalhar com os presidiários, as rendeiras da Lagoa da Conceição ou uma comunidade ribeirinha e trazer a obra aqui para dentro. O objetivo é fazer do museu uma extensão do espaço público, e isso não precisa ser na rua. Queremos que as pessoas vejam que isso é nosso e que vale a pena entrar aqui. Florianópolis é uma cidade que se volta muito para a beleza natural, mas raramente encontra um momento de pausa para uma introspecção que extrapole a natureza. A previsão é de inaugurar uma individual do Arnaldo Antunes no começo do mês que vem [maio], um projeto que já estava previsto na outra administração. Junto teremos o artista Roberto Freitas, que é catarinense, e o grupo de arte O Grivo. 

Chegando em regiões 

Essa é uma grande preocupação do professor Rodolfo [presidente da Fundação], que haja de fato uma penetração do museu em outras regiões do Estado. O Masc vai procurar espaços que possam acolher o acervo, e isso será fruto de uma pesquisa de campo. Vamos iniciar as conversas pelo extremo-oeste, e finalizamos com o extremo-sul e vale do Itajaí, onde já identificamos alguns espaços. 

Núcleo consultivo

A intenção é introduzir dentro do museu figuras que de repente não tenham tanto envolvimento com a cena artística, mas amam isso, além dos próprios artistas. Vamos tentar trabalhar muito com as realidades já existentes em sistemas de museus com abrangência internacional. 

Continuação

O projeto Geração Masc deve continuar, mas agora criando relações com pesquisadores de várias intuições do Estado. Vi figuras que estão estudando artistas do nosso acervo no Oeste do Estado, e que tem potencial para estarem no projeto. Isso vai trazer para dentro dessa pesquisa alguma possibilidade de ampliação de horizontes.     

Contatos com outros países

Precisamos estabelecer um diálogo mais estreito com a história da arte brasileira, participar dessa escrita ou reescrita, e manter contatos com o Sul da América do Sul, como Uruguai e Argentina. É mais perto que buscar relação com o norte do país, por exemplo, que também será feita. E através desse entendimento que queremos responder as questões ligadas ao que nos compete aqui como curadores. 

Novidade

Vamos inaugurar uma sala de vídeo na antiga sala de depósito, mas que não é mais necessária. É uma sala incrível. A primeira exposição deve ser de algum artista internacional. Isso vai facilitar que a gente consiga trazer um programa de vídeos de artistas internacionais. São equipamentos caros, que precisamos licitar e esperar, mas tudo indica que sairá em breve.

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade