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Em comemoração aos 80 anos de Sylvio Back, mostra no CIC revisita filmografia do cineasta

Em entrevista ao Notícias do Dia, o catarinense falou sobre o cinema brasileiro contemporâneo, editais e relação com a crítica

Gustavo Bruning
Florianópolis
08/09/2017 às 17H35

Os 76 prêmios, nacionais e internacionais, e a filmografia que ultrapassa o meio século oferecem bons indícios de quem é o cineasta catarinense Sylvio Back. Também jornalista e poeta, o blumenauense de 80 anos acredita que a crise político-institucional do país resulta em um “olhar caolho” para o passado a partir da sétima arte. “Acho que o cinema brasileiro está um tanto desossado”, afirma. “É preciso reconhecer que a indústria televisiva está mais aguda e inquietante que o cinema nacional, que vem pegando muito a rabeira da TV”, explica.

O papel de democratizar temas que eram tabus, através do cinema, é um velho conhecido de Back. Em suas obras, o cineasta já tratou da presença da FEB (Força Expedicionária Brasileira) na Itália, do nazismo no Paraná e no Rio Grande do Sul, da revolução de 1930 como Golpe de Estado e de Getúlio Vargas como ditador, entre outros “Não vejo mais um cinema brasileiro que corre riscos. Hoje fazem muitos filmes com ideias já consolidadas, e a inquietude do autor é a primeira camada de um filme e de um poema.”

De volta a Florianópolis para a estreia da mostra em sua homenagem, Back mora no Rio de Janeiro há 32 anos - Daniel Queiroz/ND
De volta a Florianópolis para a estreia da mostra em sua homenagem, Back mora no Rio de Janeiro há 32 anos - Daniel Queiroz/ND


Depois de morar em Florianópolis, Back viveu em Curitiba por três décadas. Nos últimos 32 anos, trocou a residência sulista pelo Rio de Janeiro. Apesar da carreira de sucesso, a trajetória no Sul permeia o seu DNA. “Tenho muito orgulho de ter nascido em Santa Catarina. Foi o Sul do Brasil que me deu ego e compasso para formatar uma carreira”, conta.

Para celebrar as oito décadas do cineasta, comemoradas em julho, o Cinema do CIC apresentará até o dia 1º de outubro os 12 longas-metragens assinados por ele. A maior parte das obras, que serão exibidas todas as sextas, sábados e domingos, às 20h, é relacionada a Santa Catarina. Entre os filmes que fazem parte da seleção estão “Cruz e Sousa – O poeta do Desterro”, “O Contestado – restos mortais” e “Aleluia, Gretchen”. A realização é da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) com apoio da Fundação Catarinense de Cultura, o curso de Cinema da Unisul e Cinemateca Catarinense.

O cineasta acredita que o emprego da região Sul como cenário de seus filmes foi uma consequência de sua criação. “Eu nunca pretendi fazer uma obra que mapeasse cinematograficamente o Extremo-Sul”, diz. Desde então, fez obras situadas nos três Estados, e já abordou temas que vão da imigração alemã à Guerra do Paraguai, e da imigração polonesa à história dos guaranis. “Na época em que comecei, o cinema brasileiro raramente virava suas câmeras para o Extremo-Sul. Era como se o Brasil terminasse abaixo do eixo Rio-São Paulo”, revela. Sem ter sua história explorada nas telonas, coube ao cineasta transpô-la de forma peculiar. “Quando o cinema brasileiro se voltava para o Extremo-Sul, era algo folclórico, como se não existisse civilização portunhola e imigrantes europeus”, declara. Foi então que o catarinense foi “tragado pela história e pelo cotidiano do Extremo-Sul”.

O Cacique do Brasil

“Meus filmes são melhores que eu”, afirma Sylvio Back. Questionado sobre qual seria sua obra favorita, entre as 38 lançadas desde 1968, ele evita a pergunta. “Filmes são que nem filhos. Uns deram mais satisfação, outros me fizeram sofrer mais”, justifica. No papel de pai, ele se diz firme quanto a sua filmografia, mesmo quando suas obras são omitidas, ridicularizadas ou vítimas de incompreensões. “Jamais flertei com o público, a crítica ou a mídia”, reforça.

Sylvio Back dirige a atriz Ruth Rieser em “Lost Sweig”, que trata do emblemático suicídio do escritor Stefan Zweig e da mulher Lotte - Acervo Sylvio Back/Divulgação/ND
Sylvio Back dirige a atriz Ruth Rieser em “Lost Sweig”, que trata do emblemático suicídio do escritor Stefan Zweig e da mulher Lotte - Acervo Sylvio Back/Divulgação/ND


O grande objetivo de suas projeções, explica, não é “apascentar almas ou fundar verdades unívocas”, e sim deixar o espectador na orfandade. Como parte desse processo, o artista busca caminhar com os próprios pés e não alimentar o “espírito de horda” do público.

Um dos mais importantes integrantes do movimento Cinema Novo, o cineasta e escritor Glauber Rocha, considerava-se fã do trabalho de Sylvio Back. Um dos filmes favoritos do diretor baiano, conta o catarinense, era "Aleluia, Gretchen". A obra apresenta a história de uma família alemã que foge do nazismo, durante a 2ª Guerra Mundial, e busca abrigo no Sul do Brasil. “Eu o encontrei algumas vezes e ele sempre dizia que eu era o ‘Cacique do Sul’”, relembra Back.

O apelido, atribuído por causa da filmografia conectada à região, recebeu uma recente atualização, quando o cineasta Cacá Diegues o considerou “Cacique do Brasil”. “Fiquei muito honrado, porque sou admirador de muitos diretores do Cinema Novo que acabaram se tornando meus amigos”, conta Back. Alguns deles, sobre os quais o catarinense escreveu quando atuava como jornalista, até a década de 1960, incluem o paulista Nelson Pereira dos Santos e o carioca Roberto Farias, além de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988).

O cinema na prática

Desde o lançamento de seu primeiro longa, “Lance Maior”, no Festival de Brasília de 1968, os obstáculos enfrentados por Sylvio Back para levar sua arte às telas foram inúmeros. “Eu olho para os 38 filmes e fico assustado com o fato de ter conseguido fazer tudo isso nesses 50 anos de atividade”, revela.

O cineasta, que também acumula 26 curtas e médias-metragens, traça um paralelo entre as etapas de criação e produção. “A criação é um fluxo randômico que absorve o criador e não é premeditado. É algo muito pessoal e imprevisível”, define. Essa etapa, explica, é um “itinerário de sofrimentos, um momento de iluminação”.

Cenas de “Cruz e Sousa – O poeta do Desterro” (à esq.) e “Yndio do Brasil” - Acervo Sylvio Back/Divulgação/ND
Cenas de “Cruz e Sousa – O poeta do Desterro” (à esq.) e “Yndio do Brasil” - Acervo Sylvio Back/Divulgação/ND


Já o processo de produção de um longa-metragem – da ideia à estreia – pode levar de três a sete anos. “Ainda que o cinema brasileiro esteja a pleno vapor, com muitos cineastas novos, a produção sempre foi muito difícil”, acredita. Para ele, a complexidade começa quando os cineastas precisam ser tanto os criadores quanto os comerciantes dos próprios filmes. Para os que estão fora do eixo Rio-São Paulo, garante, a dificuldade para formatar a obra é triplicada. “Eu não diria que hoje é mais fácil. As dificuldades para se produzir cinema no Brasil são cíclicas e similares às de países como Argentina, Chile e Colômbia”, afirma.

“Mesmo com as facilidades da digitalização e do online, o cinema ainda é um procedimento absolutamente artesanal. Essa é a maravilha disso, de criar aquela coisa que envolve [o espectador]”, acredita. O cineasta explica que vê filmes como trabalhos colaborativos, que envolvem no mínimo 300 pessoas. “Dirigir um filme é uma administração de egos. Além do próprio ego, você administra o de toda a equipe.”

Na luta por direitos

Apesar da facilitação com os editais, o catarinense diz estar frustrado com a burocracia do meio e com a falta de consideração com cineastas longevos, como Ruy Guerra e Nelson Pereira dos Santos. “Aos 80 anos, ainda preciso entrar na fila para ter projetos aprovados. Talento não tem idade, mas é um absurdo. Nós demos notoriedade ao cinema brasileiro e agora temos que competir com jovens de 20 anos”, expõe sua opinião. A alternativa, sugere, seria se espelhar em países da Europa e no Japão. “Lá o financiamento é uma homenagem. É preciso criar mecanismos dentro da Ancine que deem prevalência à idade e filmografia”, sugere. “O cinema brasileiro é feito de dinheiro público e é preciso homenagear quem deu a vida a ele.”

Além dos 12 longas, a filmografia de Back inclui 26 curtas e médias-metragens - Daniel Queiroz/ND
Além dos 12 longas, a filmografia de Back inclui 26 curtas e médias-metragens - Daniel Queiroz/ND


Enquanto um novo longa-metragem não sai do papel – Back tem três temas em mente – e os projetos poéticos são desenvolvidos, o cineasta vem participando da luta pela cobrança de direitos autorais de filmes. Ele é presidente da DBCA (Diretores Brasileiros de Cinema e do Audiovisual) e, ao lado de outros 253 profissionais do ramo, busca garantir a diretores e roteiristas o pagamento pela exibição de seus trabalhos. “O direito autoral é uma das maiores conquistas do século, mas isso não é respeitado no Brasil – eu nunca recebi um direito autoral com as exibições dos meus filmes”, revela. “Isso funciona na música e no teatro, então queremos a isonomia com os músicos e dramaturgos.”

Mostra “Sylvio Back 8.0 – Filmes Noutra Margem” -

O cineasta define, por meio de uma frase, cada um dos 12 filmes que serão exibidos em Florianópolis. Todas as sessões serão realizadas às 20h.

Lost Zweig (2002) – 8/9 (já exibido) – "Memória de um gesto insondável."

Lance maior (1968) – 9/9 – "Cinema existencial."

A guerra dos pelados (1970) – 10/9 – "O filme com certezas absolutas."

Aleluia, Gretchen (1976) – 15/9 – "O desmonte das certezas absolutas."

Revolução de 30 (1980) – 16/9 – "A saga de um Golpe de Estado."

República Guarani (1982) – 17/9 – "O índio desideologizado."

Guerra do Brasil - Toda Verdade Sobre a Guerra do Paraguai (1987) – 22/9 – "O ‘nosso’ Vietnã."

Rádio Auriverde (1991) – 23/9 – "A tragicomédia da FEB (Força Expedicionária Brasileira)."

Yndio do Brasil (1995) – 24/9 – "Não olhe para trás."

Cruz e Sousa – O poeta do desterro (1998) – 29/9 – "A poesia que redime."

O Contestado – Restos Mortais (2012) – 30/9 – "Santa Catarina em chamas."

O Universo Graciliano (2013) – 1/10 – "O avesso da utopia."

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