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"Ela é o único gênio que conheci"; amigos se despedem da artista catarinense Eli Heil

O artista plástico Janga, define o acervo de Eli como "extremamente original" e dona de uma "assinatura única"

Gustavo Bruning
Florianópolis
10/09/2017 às 22H07

A arte catarinense perdeu um de seus mais importantes ícones neste final de semana. A artista plástica Eli Heil morreu no começo da tarde deste domingo (10), aos 88 anos, em Florianópolis. Natural de Palhoça, ela fez sua carreira artística na Capital catarinense, onde mantinha desde 1993 a Fundação "O Mundo Ovo de Eli Heil", com o objetivo de preservar sua obra. Ela morreu após sofrer duas paradas cardíacas no hospital SOS Cárdio, onde estava internada há 12 dias.

>> Coluna do Carlos Damião: Eli Heil, uma personagem de seu tempo e de sua obra

Eli morreu aos 88 anos, em Florianópolis - Daniel Queiroz/Arquivo/ND
Eli morreu aos 88 anos, em Florianópolis - Daniel Queiroz/Arquivo/ND



Eli teve três filhos, dois netos e dois bisnetos. Pintora, desenhista, escultora e ceramista autodidata, começou na arte em 1962 e participou de inúmeras exposições no Brasil e no exterior. Ela está sendo velada na igreja de Santo Antônio de Lisboa, nesta segunda-feira (11) e o enterro será realizado no cemitério do bairro, às 16h.

Frequentador da casa de Eli desde a década de 1960, o artista plástico João Otávio Neves Filho, o Janga, destaca a importância dela para a estruturação da classe no Estado. “Nós nos reuníamos com outros artistas na casa dela, no Estreito, e fomos criando um fórum de discussões”, relembra. O grupo, na década seguinte, se transformou na ACAP (Associação Catarinense dos Artistas Plásticos), que chegou a ser presidida pela palhocense.

Janga define o acervo da catarinense como “extremamente original” e dona de uma “assinatura única”, que a transformou em um dos nomes mais importantes nacionalmente no movimento da arte bruta. "Ela é o único gênio que eu conheci em vida", garante. O artista relembra a ocasião em que o holandês Corneille, do movimento expressionista Cobra, veio ao Brasil, há algumas décadas. “Ele ficou impressionado com as obras da Eli em São Paulo e adquiriu algumas delas. Depois disso, a definiu como uma pequena irmã de Van Gogh.”

Reportagem relembra o cinquentenário de sua arte

Em reportagem publicada pelo Notícias do Dia em novembro de 2011, quando Eli comemorava seu cinquentenário na arte, a artista contou como começou na pintura, a partir de um pedaço de pano, "porque eu não conhecia a tela". A até então professora de educação física tinha 33 anos e perguntou ao irmão como os outros artistas pintavam. O irmão respondeu que usavam pincel e tinta e, foi nesse momento que Eli desafiou: "Ah, então eu faço diferente", disse. Desde então, sempre buscou inovar, usando palitos no lugar de pincéis, ou agulhas, canetas, linhas, lã e até tinta de sapato.

Responsável pela curadoria da exposição de 50 anos da carreira de Eli, o médico e colecionador Ylmar Corrêa Neto afirma que a arte complementava a vida da catarinense. “Ela vivia para produzir a arte e a arte a ajudava a viver”, conta. Para ele, ela sempre foi fiel à própria obra. “Nunca se submeteu ao mercado e, mesmo passando por privações financeiras, sempre priorizou a produção.”

Os quadros, desenhos e esculturas assinados por Eli “têm uma participação muito grande do inconsciente e surgem a partir de soluções inusitadas”, explica Janga. É a fuga dos preceitos acadêmicos, diz, que torna a obra tão peculiar. “A Eli trabalhava muito com essa ideia de expor as vísceras ao mundo, de que a criação é aquela coisa que sai de dentro do ovo depois de ficar contida”, afirma. É uma arte bruta composta por personalidades muito individualizadas, resultados de processos artísticos permeados de inquietação, como define Janga. "A obra dela amplia os limites do que é feito na arte de Santa Catarina”, completa Ylmar.

Vitalidade constante 

“A Eli era uma típica manezinha de Palhoça, mas a arte dela era sem fronteiras. Ela sempre foi uma mulher à frente de seu tempo”, destaca a jornalista Kátia Klock, que produziu dois documentários e lançou um livro sobre a catarinense. Os filmes, intitulados “Eli Heil – Criadora e Criatura” e “Coração de Eli”, foram lançados em 2009 e 2010. O livro, “Óvulos de Eli: a expulsão dos seres de Eli Heil”, foi publicado em 2011.

Segundo Kátia, a vitalidade era algo constante em todos os momentos da vida da artista. “Ela não admitia parar nunca, ela precisava criar. A Eli dizia que, se não criasse, se transformaria em mancha”, conta. A jornalista relembra o período de cinco anos em que acompanhou de perto o trabalho da catarinense, durante a produção dos documentários. “Eu buscava registrar aquele trabalho e mostrar o que estava por trás daquele ser, que era pura criação”, revela.

No museu O Mundo Ovo, localizado às margens da SC-401, em Santo Antônio de Lisboa, está exposta a maior parte do acervo de Eli. O espaço, que inclui mais de 3.000 obras, é definido por Kátia como “sensorial”. A esperança, para a jornalista, é que o acervo deixado ganhe ainda mais reconhecimento. “Geralmente é o que acontece. O artista vai e a obra fica, mas muitas técnicas foram embora com a Eli”, lamenta.

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