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Terça-Feira, 20 de Novembro de 2018
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É tempo de jazz em Florianópolis

Entre as atrações mais esperadas, Jurerê Jazz Festival traz o catarinense Edu Ribeiro, do Trio Corrente, de volta a sua terra natal

Edinara Kley
Florianópolis

Se a música é a linguagem universal, é através do jazz que a comunicação acontece. Pela arte da improvisação o gênero, de origem norte-americana, fundiu-se com outras culturas e, mesmo centenário, permanece como base indispensável de instrumentistas de todo planeta. Uma pequena, mas expressiva parte desses músicos pode ser vista, ouvida e aplaudida em Florianópolis durante o Jurerê Jazz Festival. O evento começou dia 24 de abril e segue até dia 4 de maio, com apresentação de talentos locais, nacionais e internacionais em vários espaços da cidade.

 

Divulgação/ND
Baterista Edu Ribeiro está entre os nomes mais esperados do festival

 

A receita para improvisação parece simples: Junte uma bateria, um violão ou baixo e acrescente instrumentos musicais a gosto. Caso queira incrementar, coloque uma pitada de outros ritmos. Leve ao palco e aí é só tocar a nota certa no ponto forte e qualquer nota no ponto fraco. Mas facilidade é só aparência. Para conseguir afinação, ritmo forte e timbres agradáveis, códigos universais da música de qualidade, conforme ensina o violonista Felipe Coelho, é preciso um estudo sério das partituras e do vocabulário jazzístico.

O manezinho, que toca neste domingo com o Trio Espiral, composto por músicos do Chile e Colômbia, integra uma programação instrumental de peso aberta em alto estilo pelo israelense Avishai Cohen, no Teatro Pedro Ivo, e alcança os brasileiríssimos do Trio Corrente, ganhador do Grammy 2014 na categoria melhor álbum latino de jazz.  O festival também abre espaço para a MPB e o erudito, e junta Lenine com a Camerata Florianópolis e ainda dá espaço para músicos e grupos queridos na cena catarinense, como Luiz Gustavo Zago, Rivo Trio, Leandro Fortes e Skrotes.

Entre tantos talentos, a quarta edição do festival traz um nome com brilho especial: Edu Ribeiro, baterista do Trio Corrente. Mais pela volta à terra natal e que pelo prêmio internacional de música, sua presença na cidade é comemorada por instrumentistas e plateia.  Esta é a terceira vez que o filho do Maestro Zezinho, da tradicional banda Stagium 10, vêm a Florianópolis, desde que partiu para estudar música na Unicamp (Universidade de Campinas), em São Paulo.

Antes da parceria com Paquito D’ Rivera, que resultou no disco “Song for Maura” ganhador do Grammy, tocou com Yamandú Costa, Rosa Passos, Dorival Caymmi, Hamilton de Hollanda, Fafá de Belém, entre outros muitos nomes. Do encontro com o pianista Fábio Torres e o baixista Paulo Paulelli aconteceu em 2005, e resultou em outros dois discos, “Corrente” (2005) e “Vol. 2” (2010).

“Trapézio sem rede”, diz Edu Ribeiro

Com composições estritamente brasileiras e repertório dividido entre autoral e rearranjos de clássicos do choro, bossa nova e MPB, onde canções de Tom Jobim, Paulinho da Viola e Baden Powell, sobressaem-se, o músico encontra no jazz o espaço de criação necessário para constituir outras estruturas musicais. “É um estilo de importância para todos os gêneros. É um trapézio sem rede. É daí que vem a improvisação e é daí que surde o jazz”, comenta Edu Ribeiro, por telefone.

A agenda sempre cheia, as viagens e os compromissos pessoais impedem que o catarinense visite Florianópolis com frequência. Da cidade, conserva as memórias de infância, dos ensaios que movimentavam a casa do pai nas quintas-feiras, de tocar algumas músicas e dormir no camarote dos salões onde o maestro tocava. “Faz muito tempo que saí e nunca mais voltei. Não tenho contato, mas tenho saudades. Sei que tem muita coisa boa acontecendo e muita gente boa morando aí. Torço para que isso cresça e adoraria participar mais”, comenta.

Enquanto os catarinenses comemoram a vinda de Edu, o instrumentista diz estar contente pelo fato de poder voltar ao Estado, que na sua opinião segue o caminho certo para a difusão da música instrumental de qualidade.  Manter acessa esta chama, é tarefa de agentes culturais, do governo, da população e dos próprios músicos. “Acredito que a educação cultural pode salvar uma geração, eu sou parte de uma em que se ouvia Tom Jobim e Chico Buarque no rádio. Hoje o mercado mudou, para fazer música basta um teclado, uma produção mais barata e mais rentável”, diz.

Nesse cenário, destaca que os festivais são importantes, mas é preciso que haja manutenção o ano inteiro e que os músicos busquem e cobrem a valorização profissional e criem seus próprios espaços na cidade, como clubes de jazz. “Quando a pessoa assiste uma apresentação em determinado local, ela tem que ficar com vontade de voltar. O músico tem que fazer as pessoas gostarem do que ouvem e agente tem que buscar a melhor forma de fazer isso. Eu acredito no diálogo com o espectador, por isso sempre trago uma canção de conhecimento público, uma forma de fazer um carinho a quem está assistindo”, conta.

Um dia para o jazz mundial

Declarado Dia Internacional do Jazz pela Unesco, 30 de abril serve como um pretexto no calendário  para  apresentações musicais em praticamente todas as partes do planeta.  Florianópolis integra a programação oficial do “Internacional Jazz Day” e celebra a data com uma invasão musical que pelas ruas, escadarias e calçadões da cidade. A programação abre à tarde com Leandro Fortes e Grupo, no Ticen (Terminal de Integração do Centro), e encerra à noite com Trio Corrente em Jurerê Internacional.

Há 10 anos na estrada, o instrumentista de jazz e MPB que também integra o Quarteto Rio Vermelho e acaba de musicar sonetos de Cruz e Sousa ao lado da soprano Marília Oliveira e do Quinteto de Cordas Catarinense, conta que vê o gênero crescer. “Embora nunca tenha alcançado a popularidade do rock, da bossa nova ou do pop, conquistou um espaço importante no gosto do público e parte disso se deve a internet. Pelas redes sociais as pessoas têm contato com músicas e artistas que antes era impossível encontrar sem sair do país”, observa.

Não fosse a falta de curiosidade do público, opina Fortes, o alcance do jazz seria ainda maior. A opinião do guitarrista é compartilhada pelo organizador do festival, Abel Silva. “Temos músicos suficientes, mas não o costume de pagar para ver o artista local ou o desconhecido que pode trazer algo bem bacana. A curiosidade ainda é bastante pequena”, comenta.

Frequentador de festivais Brasil afora, o produtor musical Abel Silva viu em Florianópolis o lugar ideal para sediar um evento desse porte, nada megalomaníaco, lembra ele, que busca consolidar a cidade como destino cultural, a exemplo dos festivais de jazz da Terra do Fogo, na Argentina, e de Guaramiranga, no Ceará.

Da primeira edição, em 2011, à quarta, em 2014, o festival que já trouxe Andy Summers, Fernanda Takay, Jazz 6, Guinha Ramires e Rob Mazurek,  cresceu e consolidou. Neste ano, são 11 dias de espetáculos e mais de 15 atrações. “Quisemos democratizar o acesso, muitas pessoas não conseguem chegar aos espaços onde acontecem os shows, colocando os músicos na escadaria da Catedral Metropolitana e no Ticen, por exemplo, conseguimos ampliar o alcance”, diz.

Misturas bem-sucedidas (Rivo Trio)

Em combinações bem-sucedidas com o jazz, os ritmos brasileiros conseguiram encontrar a harmonia com o estilo. Nesta vertente, o Rivo Trio Samba Jazz de Florianópolis é fiel representante desta categoria. “Somos uma mistura de música brasileira, do samba a balada, que permeia a música do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com características jazzísticas de arranjo e improvisação”, define o Rafael Calegari.  

O grupo toca junto desde há dois anos, e entre músicas autorais e releituras de canções brasileiras, o Rivo Trio, conjunto base de CDs Alegre Corrêa, Guinha Ramires e Luiz Meira, deve lançar o seu primeiro disco ainda em 2014. “Somos novos enquanto grupo, mas experientes como músicos. Já passamos por festivais internacionais

Fruto desta boa safra musical da Ilha, Felipe Coelho é só empolgação ao falar sobre o festival, além de estar na programação, ciceroneou Avishai, um ídolo do jazz convidado para o festival por sua indicação.  Experiente e perfeccionista, o catarinense encara um desafio e neste domingo quando entra em uma roda de improvisação com o Trio Espiral. “É uma experiência bastante interessante com músicos que eu não conhecia. É uma troca mais humana que que musical. A arte tem esse aspecto de troca e interagir com músicos de outro local é também uma forma de aprendizagem”, reflete.

Na opinião do músico, a humanização e contemporaneidade do gênero, que apesar de ainda estar lincado com a cultura americana se inseriu de tal forma em outras culturas que é considerado um linguagem mundial. “É um improviso muito colorido, que exige destreza musical e resulta numa linguagem criativa vez maior. Hoje a música brasileira aceita muito bem o jazz, que está bem vivo e se fundindo com outros gêneros e adquirindo cada vez mais uma linguagem musical humana”, considera. 

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