Publicidade
Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
Descrição do tempo
  • 27º C
  • 22º C

Documentário reconta o período de exílio do ex-presidente JK

O filme, uma co-produção entre Brasil e França, investigou o período mais melancólico vivido por Kubitschek

Pedro Santos
Florianópolis
Divulgação
Memórias do exílio. A filha Maria Estela Kubitschek e Maria Alice, secretária do ex-presidente

Histórias de presidentes provocam curiosidade quando mostram que, apesar de figuras simbólicas, ícones do poder político do Brasil, eles são como qualquer um de nós, pessoas comuns obrigadas a conviver diariamente com medos, dúvidas, angústias e incertezas.

Nesta terça-feira, um novo capítulo da história de um dos mais populares presidentes da República poderá ser conferido na Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis. Trata-se do documentário “JK no Exílio”, dirigido por Charles Cesconetto e Bertrand Tesson, que aborda os momentos dramáticos vividos pelo presidente Juscelino Kubitschek depois de ter os direitos políticos cassados durante o golpe militar, em 1964.

“Minhas lembranças são de muito sofrimento. Papai sofreu muito pela perseguição e pela insegurança”, conta Maria Estela Kubitschek, filha do presidente, que estará presente durante a projeção na Capital.

Para um político atuante como Kubitschek, o exílio teve um peso muito forte em sua trajetória pessoal e profissional. Acusado de corrupção e de ser apoiado por comunistas, JK exilou-se em Paris, onde sua família, acostumada a viver em palácios, teve que se adaptar a um apartamento de dois quartos. Desprovido de ocupar a carreira que exerceu por toda a vida, e com dificuldades financeiras, JK viveu momentos de profunda melancolia, chegando mesmo a pensar em suicídio.

São esses instantes delicados que o documentário de 51 minutos resgata principalmente a partir de cartas, documentos oficiais e depoimentos de amigos, parentes e pelo testemunho da secretária particular do ex-presidente, Maria Alice Gomes Berengas, 88 anos, exilada até hoje.

A ideia do documentário partiu do professor Carlos Alberto Antunes Maciel, que conheceu Maria Alice quando morava a França. Foram necessários mais de 15 anos de amizade até que Maria Alice permitisse contar sua história. Foi quando Carlos Alberto convidou o diretor Charles Cesconetto e o cineasta francês Bertrand Tesson para concretizar o projeto.

“O presidente fitava-me com seu olhar bondoso e eu ficava intimidada, ciente de estar diante de uma pessoa de valor excepcional que me falava com simplicidade”, afirma Maria Alice no documentário. Enquanto redigia suas memórias, o presidente JK contava com o auxílio constante da secretária.

“Nós sabemos muito pouco sobre o exílio. Pouco veio a público, porque não era do interesse dos militares”, explica Cesconetto.

Para filha de JK, o documentário tem a oportunidade de mostrar um momento pouco conhecido da trajetória do ex-presidente, mas ao só a dele.

“Eu me emocionei muito com o filme”, lembra Maria Estela Kubitschek. “Mas, além disso, o documentário resgata a memória de todos aqueles que sofreram perseguição, mas que estão anônimos. Nessa história de quem sofreu com o exílio, há bem mais pessoas do que é possível imaginar.”

Serviço

O quê: Documentário “JK no exílio”
Quando: 22/11, 19h
Onde: Fundação Cultural Badesc, rua Visconde de Ouro Preto, 216, Centro, Florianópolis, tel.:3224-8846
Quanto: Gratuito

***

Entrevista com o diretor

ND - O que voltou sua atenção para a história sobre os anos de exílio de JK?
Charles Cesconetto
- Tudo começou com um convite do professor Carlos Alberto Antunes Maciel, em 2008. Comecei a estudar o tema e descobri que na verdade havia pouca informação sobre o exílio de JK. Fui, aos poucos, compreendendo melhor a temática e descobri que o episódio não era algo menor em sua história. Este episódio é revelador de muita injustiça, muitos equívocos e muita falácia resultante de interesses politico-ideológicos, que acabam provocando reflexos até os dias atuais.

“JK no Exílio” provavelmente inaugura também uma nova reflexão sobre o tema exílio, muitas vezes interpretado de maneira equivocada. O exílio nunca é uma condição voluntária, não é uma viajem, não é uma fuga, o exílio é sempre um banimento. É uma condição que pode levar o exilado a soluções extremas.

O que registramos com este documentário foi o momento mais cruel da vida de Juscelino Kubitschek, que, afastado de sua família e do povo brasileiro, foi perseguido, traído e acusado, injustamente, de ser a sétima fortuna do mundo, vítima de um plano de difamação para afastá-lo do cenário político.

ND – Como foi possível resgatar essa história tantos anos depois?
Cesconetto
- O filme só foi possível graças aos relatos de várias testemunhas de grande importância e principalmente a uma testemunha que ainda encontra-se exilada e que melhor do que qualquer outra pessoa poderia falar sobre aquele momento, a senhora Maria Alice Gomes Berengas, secretaria de JK em Paris, encontrada pelo professor Carlos Alberto Maciel, idealizador do filme.

 ND – O que você espera com o documentário?
Cesconetto
- O documentário “JK no Exílio” tem como objetivo, esclarecer os fatos, fazer justiça com Juscelino Kubitschek e com Maria Alice Berengas, e chamar a atenção para a importância da reflexão sobre o significado do exílio, a fim de transmitir às novas gerações este exemplo de dignidade, uma referência para todos os brasileiros.

ND - Qual foi a maior dificuldade que você e a equipe enfrentaram para contar essa história?
Cesconetto
- É uma pena que muitos dos que viveram aqueles momentos e que testemunharam o exílio de JK já tenham partido. O fato de não termos mais estes depoimentos, sem dúvida é o que torna mais difícil a reconstituição deste episódio. Encontrar documentos sobre esta fase da vida de JK também não foi um trabalho muito simples, pois o país encontrava-se em situação de controle e falar sobre JK era tema praticamente proibido, uma vez que o objetivo de toda a campanha difamatória era o de afastar qualquer possibilidade de eleição daquele que era o candidato certo para as eleições de 1965. Os militares não permitiam registros ou publicações sobre JK que não fossem as que auxiliavam nesta difamação. 

Espero que este documentário seja uma contribuição para que as novas e as futuras gerações compreendam alguns aspectos importantes da história recente de nosso país e espero que possa ser utilizado como referência para o estudo da questão do exílio.

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade