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Segunda-Feira, 19 de Novembro de 2018
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Documentário “Nem Caroço Nem Casca” mostra o lado doce dos quilombos: seus habitantes

O diretor Will Martins, da Novelo Filmes, percorreu seis comunidades quilombolas do Maranhão para contar sua realidade atual

Carolina Moura
Florianópolis
Divulgação
Em vez de focar no passado, Will decidiu mostrar a vida dos moradores dessas comunidades hoje

 

O babaçu é uma fruta que cresce no interior do Brasil, entre as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Entre a casca dura e os caroços dos quais se extrai o óleo de babaçu fica o mesocarpo, a parte doce e nutritiva que compõe muitas receitas locais. Assim é também o documentário “Nem Caroço Nem Casca”, longa de estreia do diretor Will Martins sobre seis comunidades quilombolas no interior do Maranhão. “É um filme doce. Não vai no caroço da questão, sobre a história de Zumbi e Palmares, mas também não fica na superfície”, diz ele. O filme, da Novelo Filmes, tem sua pré-estreia hoje no Rio de Janeiro, em uma sessão para convidados no Cine Odeon. Ainda não há data para a exibição em Florianópolis.

Com experiência em filmes etnográficos acumulada em seu tempo na Plural Filmes, Will decidiu buscar caminhos inexplorados quando foi convidado para dirigir o documentário. Ao invés de focar no passado dos quilombolas, ele quis conhecer seu presente.  Para isso passou cinco semanas pela estrada que liga seis comunidades nos arredores da cidade de Viana, conhecendo cada uma delas e seus habitantes. “O filme sai do micro para o macro. Pega nuances de cada indivíduo para traçar a situação quilombola atual”, explica.

Cada comunidade apresenta um recorte dessa realidade. Em Cacoal, ele mostra a vida da família Gomes — composta de pai, mãe, três filhos e uma neta. “O ambiente da família deles é diferente. Inclui o afilhado, o vizinho. A concepção de família é coletiva”, conta Will. Em Capoeira, ele mostra a liderança das mulheres, que trabalham como quebradeiras de babaçu enquanto os homens cuidam de casa. Em Mocambo, mostra outra liderança feminina: Severa Mendes, uma senhora de 88 anos que comanda um terreiro de macumba e, de manhã, uma igreja católica. Já Boa fé, o sincretismo religioso foi deixado de lado por uma comunidade inteira que se tornou evangélica.

“Um homem branco que veio contar nossa história”

Will Martins costumava imaginar que seu primeiro longa-metragem seria de ficção. “Mas, querendo ou não, o documentário sempre cruza o meu caminho, e eu nunca disse não para ele”, conta. E o que cruzou seu caminho desta vez não foi um tema simples. “Foi apavorante”, diz ele sobre a experiência. “Mas achei bom sair da minha zona de conforto, porque achei que aí que a magia podia acontecer.”

O segredo do filme talvez seja a entrega. “Levei para onde o coração me dizia para ir, foi muito sensorial”, diz Will. Essa experiência acabou se tornando mais que profissional, mas um grande crescimento pessoal. Das comunidades, o que mais chamou sua atenção — e que ele leva para a tela — é o amor e bom-humor daquelas pessoas. Algo que voltou à tona quando exibiu a eles o corte final do filme, ainda em processo de finalização, em fevereiro. “Foi o dia mais emocionante da minha vida. Eles se viam no filme e choravam, vibraram”, conta Will. No fim, um dos entrevistados — Cordeiro, da família Gomes, de Cacoal, lhe disse: “você veio aqui contar nossa história. E a gente vai contar para os nossos filhos a história de um homem branco que veio contar nossa história. Agora você também é parte da família Gomes.”

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