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Terça-Feira, 20 de Novembro de 2018
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Dia do Namorados e os amores transversais

Casais que atuam no campo da cultura compõem pequena e curiosa enciclopédia amorosa

Dariene Pasternak
Florianópolis
Alexandro Albornoz/ND
Janga e Fátima, grande amor, com afinidades estéticas e casas separadas
Alexandro Albornoz/ND
Vinícius e Teresa, opostos que se complementam

Os opostos ou as afinidades, os interesses ou o físico, o que é essencial para o amor nascer entre duas pessoas e justificar a união de bagagens e corpos? A resposta é difícil: Sócrates, Platão, Sigmund Freud, Roland Barthes, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Mario Benedetti, Gabriel Garcia Marquez, Vinícius de Moraes e outros inúmeros autores, poetas, músicos e escritores, cada um a seu tempo e maneira, forneceram pistas sobre o sentimento que acompanha a humanidade.

Mas algo é visível na história do mundo, a arte teve um grande atributo de aproximar pessoas e formar casais que conseguiram se inspirar um ao outro com o amor. Não é preciso recorrer aos exemplos de cônjuges famosos, há muitos na pequena história de Florianópolis.

O poeta e editor Vinícius Alves, 50, chega a sentir falta do barulho de sua companheira, a professora e consultora na área museologia, Teresa Collares, 52, a “mulher projeto”, como ele define. Ele é caseiro, tranquilo, se puder, passa o dia inteiro na solidão da leitura, mais noturno e um tanto boêmio. Teresa é ‘rueira’, gestora, adepta dos planejamentos e gosta de trabalhar em equipe, dorme cedo. “Ela não acorda, ela pula da cama e começa a trabalhar só escuto o tic-tic-tic dela caminhando. Eu acordo burro, começo a ficar inteligente à tarde. À noite sou genial”, brinca o oposto poeta.

Mas quem disse que não dá certo, a união já dura 14 anos e quatro meses desde quando se conheceram, em um dia primeiro do ano, por amigos em comuns, entre eles a cupida e artista Lu Pires. A história só vingou no Carnaval. “Ficamos, na linguagem moderna. Ele estava sozinho, eu também. Ele era separado, eu também”, lembra a museóloga. “Nossa interação é transversal. Eu tenho o olhar das artes plásticas e ele da literatura”, completa.

É óbvio que ele gostaria que ela lesse James Joyce, Paulo Leminski, e ela também desejaria que ele soubesse dos livros dela “O Vini como escritor precisa de um interlocutor. Eu não sou boa. Estamos à noite conversando, ele falando e digo, preciso dormir”, conta Teresa. “É um pouco o filme ‘Feitiço de Áquila’, que ela é um falcão e ele um lobo, se vemos em alguns momentos”, compara. Porém a relação se complementa e eles vivem bem entre duas casas, no bairro Santa Mônica, durante os dias de semana e onde Vinícius tem a editora Bernúncia, e em Cacupé, após as 18h01 de sexta, onde costumam receber amigos e os filhos, só de outros casamentos, com Vinícius na cozinha. “Ele é um homem a cada dia. Corta o cabelo, muda a barba, fica diferente, não consigo enjoar”, diverte-se Teresa.

Eterno retorno


“Acho que será uma bomba quando alguns lerem esta matéria”, disse, brincando, a artista, artesã e criadora Fátima Póvoas, 56. Até alguns dias atrás ela estava mais uma vez ‘meio separada’ do artista e crítico de arte João Otávio Neves Filho, o Janga, 64. Não é problema para eles, pois tudo segue o caminho natural, suspende e volta.  “A nossa referência sempre continua”, diz Janga.

Os dois também foram apresentados por amigos em comuns. No começo, ele se interessou mais nela, do que ela nele. O artista já era dono da Casa Açoriana, local que integra a arte em Santo Antônio de Lisboa. “Não tinha um senso prático e ela vinha de uma loja de moda. Alguém me falava, que bonito isso, e eu dizia, pode levar. Não colocava nem preço. Ela ampliou o alcance da casa, trouxe uma visão mais empresarial e a arte foi o nosso elo”, lembra Janga.

Eles são parecidos em diferentes áreas e a afinidade estética segue atenta aos mínimos detalhes. “Vou num ferro-velho e olho uma tranqueira enferrujada, uma mesa encracada e penso, o Janga vai adorar isso”, conta Fátima. Depois eles vão ver juntos e tudo vira uma festa. “Ela é saltitante. São coisas que estão mais associadas a essência do ser, coisas profundas que fala da alma. Que interesse teria um ferro carcomido”, observa Janga, ciente de um casamento de almas entre os dois.

Eles estão juntos, cada um em sua casa, desde 1997, e tiveram duas separações mais longas durante a relação. Numa delas, a recente, ficaram meses sem se ver e Janga só a encontrou quando foi conhecer o bar e espaço cultural que ela criou também em Santo Antônio, o Coisas de Maria e João. “Fiquei emocionado, tinha a alma dela ali”, conta o artista. “Foi tiro e queda, a gente se olhou e pronto”, acrescenta Fátima. E assim o amor recomeçou tudo de novo, mais uma vez. “O artista tem a sensibilidade a flor da pele e a libido muito forte. Se não são da mesma área ou não tem uma ligação é difícil se relacionar. Mas quando os dois curtem é uma plenitude, um ato de liberdade e é claro que isso vai aparecer na relação”, filosofa Janga.

Alexandro Albornoz/ND
Raquel e Marco, de uma amizade chegou o amor

Interações e trocas estéticas

O diretor de cinema Marco Stroisch, 36, e a atriz e produtora Raquel Stüpp, 27, se conheceram em um set de filmagem de “Quem Disse que Estou Indo Pra Casa” em 2006. A amizade veio antes, tinham trabalhos, assuntos e amigos em comum, o amor chegou depois, como consequência. Eles sabem que namoram há mais ou menos dois anos, não sabem delimitar a data exata, de tanto que os dois sentimentos se aproximaram.“Encontramos muitas afinidades, líamos os mesmos livros, víamos os mesmos filmes. Ela trouxe coisas que eu não conhecia e eu mostrei outras para ela”, recorda Marco.

Cada um tem seu trabalho, apesar de Raquel sempre participar nas produções de Marco, como em “Memórias de Passagem” e “Desencanto”, e eles vivem a trocar referências.  No processo de ensaio de peças dela, a opinião de Marco é importante, assim como a de Raquel nos filmes dele. “Ontem mesmo estávamos vendo um filme e lembrei de uma atriz que poderia ser interessante para ele. Paramos e anotamos as ideias”, conta Raquel.
A interação também é constante entre o casal de bailarinos de dança de salão Gabriel Ferreira, 26 e Lidiani Emmerich, 26. Eles já dançavam juntos e não manifestavam nenhum interesse sobre o outro. Após cinco anos de amizade, uma curiosidade levando a outra, cada descoberta trazendo mais encanto, nasceu o amor entre eles.

A convivência deles é intensa, trabalham na mesma empresa, o Centro Cultural Kirinus, frequentam as mesmas reuniões, os mesmos ensaios, praticamente as mesmas aulas. “Nossa dedicação é tão integral que realmente é muito legal que possamos compartilhar em relação”, diz, sinceramente Lidiani, sobre algo que torna difícil a relação de muitos casais, a falta de tempo para cada um. Ao contrário, eles se inspiram, se ajudam, se influenciam e criam quando estão juntos.

“Adoro as viagens dela. A cabeça sempre vai longe quando está criando algo ou quando está em aula com os alunos. Sem limites”, pontua Gabriel. “O Gabriel além de dançar também é músico, o que abre ainda mais meu leque de encantos por ele, sou completamente apaixonada pela relação vida x música”, confessa a bailarina.

 

Na vida e na música


Florianópolis é pequena, mas demora a aproximar pessoas até da mesma área, como os músicos Julia Muniz, 40, e Airton Perrone, 51. Ela cantava em Florianópolis desde o final da década de 1980 e o Airton tocou em várias bandas desde a década de 1970. Mas só foi nesse tempo de redes sociais que os dois se aproximaram.  “O Airton começou a puxar assunto pelo Orkut e marcamos algumas reuniões entre amigos, assim fomos nos conhecendo melhor e pudemos confirmar a atração mútua”, reconhece Julia, lembrando que eles até se falaram uma vez num show da banda dela, em 1987, na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Eles são parceiros em tudo. Os dois músicos também trabalham juntos, como coordenadores e professores na mesma escola de música, criam e executam projetos culturais, alem do trabalho musical de leituras sonorizadas e composições próprias. “Os mesmos atributos que inspiram, provocam admiração e atraem o outro, também geram, em certas situações, conflitos. O cuidado tem que ser redobrado para não desgastar o relacionamento”, observa o casal.

A vantagem da arte entre eles e justamente a troca de influências, referências, informações, gostos, áreas artísticas. “Os programas que gostamos de fazer também são, na maioria das vezes, os mesmos. Difícil mesmo é desgrudar”, diz a cantora.

 

Casais históricos


Na artes visuais, na literatura, na música ou fotografia muitos casais extrapolaram as suas afinidade artísticas e aproveitaram de diferentes maneiras a energia da criação amorosa. Para lembrar de alguns: Frida Kahlo e Diego Rivera, Paula Modersohn-Becker e Otto Modersohn, Auguste Rodin  e Camille Claudell, Wassily Kandinsky e Gabrielle Münter, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Robert Mapplethorpe e Patti Smith.

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