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Sexta-Feira, 19 de Outubro de 2018
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Com bons cursos e profissionais premiados, Santa Catarina se destaca no design de móveis

Criatividade da produção estadual é reconhecida internacionalmente

Marciano Diogo
Florianópolis
Rosane Lima/ND
Com escritório e showroom em Florianópolis, o catarinense Jader Almeida acumula mais de 35 premiações de design

 

O desafio em unir beleza e utilidade perpassa diferentes áreas de criação. Quando se trata de design de mobiliário, a junção de ambos se faz ainda mais presente: a criatividade é fundamental na concepção e produção de um móvel, que precisa atender às necessidades de seu usuário seja pelo aspecto funcional ou estético. Em Santa Catarina, o cenário do mercado do design de móveis e mobiliários é promissor. Com diversas graduações especializadas na área e profissionais premiados que se destacam pela originalidade na maneira como integram forma, funcionalidade e materiais, o Estado está bem representado, até internacionalmente.

O designer Jader Almeida, 35, é um dos catarinenses que se destacam no exterior por suas criações. Formado em arquitetura pela UnoChapecó (Universidade Comunitária da Região de Chapecó) e com showroom e escritório em Florianópolis, teve sua carreira com design de móveis consolidada a partir de 2008, quando venceu com a cadeira Bossa o Prêmio Design MCB (Museu da Casa Brasileira). A partir daí, o catarinense acumulou mais de 35 premiações, parte delas internacional, como com a cadeira Clad, premiada no If Design Award, na Alemanha, e o cabideiro Loose, que conquistou o prêmio americano Good Design e foi reconhecido pelo “The Wall Street Journal” como um dos melhores cabideiros da atualidade.

“A cadeira não passa de uma prótese para o corpo, mas é preciso colocar nesse produto algo que gere uma emoção e que transcenda apenas o uso, que traga a poesia e que seja confortável para os olhos e para proporção do design. Design de mobília é encontrar um novo olhar para um determinado elemento já existente, é encontrar o novo dentro de algo prosaico”, afirma Jader Almeida, que tem suas peças comercializadas em países como Estados Unidos, Inglaterra, França, Líbano, Austrália e Itália. Desde 2010, quando criou sua grife original, o designer lança coleções anuais, e a próxima será lançada em março deste ano. Para ele, as pessoas tendem a mistificar a criação do design de mobiliário: “é também um processo industrial. Identifico e decodifico tendências e comportamentos. A concepção se dá pela identificação, interpretação e tradução. O design se vive. Em qualquer lugar estamos observando e absorvendo referências. A matéria-prima do processo criativo são as vivências, experiências e questionamentos do profissional”, opina Jader.

Assim como Jader, o designer catarinense Bruno Faucz, 30, já teve suas peças de mobiliário expostas em importantes eventos de design. “Já expus na semana de design de São Paulo, Nova York, Paris e Milão, e em todos os lugares os designers e indústrias catarinenses marcam presença. Santa Catarina tem excelentes profissionais e empresas especializadas, alguns deles há anos com visibilidade internacional como Renata Moura e Jader Almeida, mais recentes, Richard Gohr, Rodrigo Meinert e Fabiano Simão”, aponta Bruno, formado em design de mobiliário pela Universidade do Contestado e pós-graduado em design de produto pela Sustentare. No último ano, Faucz venceu o Prêmio Design Catarina na categoria móveis com a poltrona Cora, peça composta por madeira de freijó, cobre, couro trançado artesanalmente e tapeçaria.

Andrá Mortatti/Divulgação/ND
O designer catarinense Bruno Faucz já teve suas peças de mobiliário expostas na semana de design de São Paulo, Nova York,Paris e Milão

 

Para Bruno, que tem estúdio e showroom localizado em São Bento do Sul, no Norte de Santa Catarina, o designer de móveis precisa dominar técnicas relevantes de produção. “O mobiliário é uma das vertentes do design industrial, nele precisamos dominar a engenharia de construção da peça, se eu não souber como o produto é construído não será possível projetá-lo. A parte gráfica é importante para que eu possa apresentar o produto desenvolvido de maneira adequada”, conclui o catarinense.

Formação e mercado
Santa Catarina tem mais de 20 graduações de design em diferentes áreas, entre elas design gráfico, industrial, de produto, de moda e de interiores.  Entre os cursos mais tradicionais, está o departamento de designda Udesc (Universidade Estadual de Santa Catarina), que existe desde 1996 e oferece atualmente graduações em design gráfico e industrial e pós-graduação em design e fatores humanos, com ênfase em ergonomia.

Em 20 anos de existência, a Udesc já formou mais de 400 profissionais para o mercado. A criação de móveis, questões relacionadas a padronagens, texturas, tecnologias de impressão em diferentes superfícies são alguns dos temas estudados nos cursos. “Santa Catarina é um dos polos moveleiros do Brasil. Temos uma ampla atuação no cenário nacional do design de mobília, seja através de cursos, empresas ou premiações”, afirma o professor Elton Moura Nickel, 31, chefe do departamento de design da Udesc.

De acordo com a SC Design (Associação Catarinense de Design), instituição fundada em 2005 e que tem mais de 90 profissionais associados, Santa Catarina vive um momento promissor na criação de mobiliário. “Crescemos cada vez mais neste setor. Somos um dos Estados do Brasil que mais oferecem cursos especializados na área e temos um polo moveleiro potente, principalmente a região do Norte e Oeste do Estado, pois a grande produção industrial está concentrada neste território. As nossas graduações também são referência de inovação em projetos e conceitos, principalmente na área de pesquisa, etapa fundamental na criação”, explica Adriano Wagner dos Santos, 38, presidente da SC Design. Para ele, o fato de a Bienal Brasileira de Design ter ocorrido em Florianópolis em 2015 também impulsionou regionalmente o setor de criação de móveis: “o catarinense entendeu melhor a integração entre as diferentes áreas no desenvolvimento do mobiliário”. Desde 2014 a SC Design promove o Prêmio Design Catarina, que reconhece os melhores profissionais de Santa Catarina da área em dez setores, entre eles, design de móveis.

Foco no universo masculino 
O designer de produto desenvolve projetos com ênfase tridimensional, relacionados às soluções formais e funcionais de objetos produzidos industrialmente ou artesanalmente, como o mobiliário. O design de móveis é uma vertente do design de produto. Para materializar uma peça, os profissionais seguem etapas fundamentais, entre elas, a pesquisa.

Foi nesta etapa que os três designers da Ipsilon, empresa fundada em março de 2014 com sede na Capital, encontraram seu nicho de mercado. Focados no mercado masculino, os catarinenses Altino  Alexandre, 27, André Ramos, 26, Maurício Scoz, 27, perceberam que o aumento de produtos e serviços destinados aos homens indicava o caminho da criação e comercialização de peças focadas neste público. “Desenhamos para nós mesmos, então conhecemos o público-alvo”, brinca André Ramos, que assim como os colegas é formado em design industrial pela Udesc.

Rosane Lima/ND
Os designers Maurício Scoz (à esq.), André Ramos (centro) e Altino Alexandre criaram a Ipsilon, empresa de design de mobília focada no universo masculino


O foco da empresa Ipsilon está inserido em seu nome, que faz alusão ao cromossomo masculino Y. O design da marca explora o universo masculino com o uso de linhas e formas anguladas, que fazem alusão a agressividade, e com cores neutras e discretas, como o preto fosco, branco e cinza. A Ipsilon produz banquetas, luminárias, mesas, prateleira e cadeiras. Em 2014 a cadeira Alpha, peça feita totalmente de metal, projetada pelos designers, foi vencedora do Prêmio Design Catarina na categoria móveis, e o sucesso da cadeira foi tão grande que no mesmo ano a Tok&Stock comprou o direito autoral da peça para comercializá-la. A parceria durou um ano e já foi finalizada, pois requeria exclusividade na venda. “Também temos uma característica própria de montagem, como nossos móveis são comercializados pela internet, eles podem ser facilmente montados pelo comprador”, conclui Altino Alexandre. Em 2016, a Ipsilon lança a nova luminária Spyder.

Marcenaria com design
A Urutu Movelaria é focada em um segmento específico: a empresa alia o design autoral com as tradicionais técnicas da marcenaria. A Urutu nasceu do encontro de três designers catarinenses apaixonados por madeira: Elton Canani, 54, Fernando Prado, 39, e André Pedrini, 41. Com fábrica integrada ao próprio escritório de criação, a empresa utiliza formas artesanais de produção e usa traços referentes à escola modernista brasileira. O nome Urutu faz referência a uma espécie de cobra brasileira e também é uma analogia à brasilidade das formas.

O trio de profissionais conta que o processo criativo de construção das peças da empresa se dá em conjunto; “é uma confluência de ideias, tanto na concepção quanto na produção. O design não é só forma, também é função. Ele consegue inserir um móvel em um ambiente específico com propriedade e agrega detalhes que vão além da estética”, opina André Pedrini, que é formado em design industrial pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Apesar de a Urutu ter aberto suas portas em janeiro de 2015, a fábrica onde são produzidos os móveis da empresa já existe há 30 anos. “Trago toda a experiência técnica que tenho com a madeira. É uma matéria-prima atemporal, resistente, que tem uma textura única. Madeira tem vida. O material sintético é muito datado”, explica o também marceneiro Elton Canani, dono da fábrica. Peças da Urutu, que produz cadeiras, mesas, estantes e aparadores, também foram expostas na Bienal Brasileira de Design em 2015.

Rosane Lima/ND
Fernando Prado (à esq.), Elton Canani (centro) e André Pedrini criaram a Urutu, empresa alia o design autoral com as tradicionais técnicas da marcenaria


Outra empresa de design de Florianópolis que se destaca pelas criações de móveis é a Paradesign. Fundada em 1992 pelo professor do curso de Design da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) Célio Teodorico dos Santos, 59, o estúdio está consolidado no mercado e faz praticamente tudo, de projetos de palitos de fósforo a avião, tendo como um dos seus sucessos mais recentes a cadeira Barriguda, que é comercializada em diferentes regiões do Brasil.“Projetar um móvel nem sempre parte de uma necessidade ou demanda. Evidentemente que existem necessidades, mas praticamente tudo o que deveria ser criado nesta área já foi criado. A inovação está na forma do processo e na linguagem do profissional, que é o que dará originalidade à criação”, conclui  Célio.

+ Design catarina na economia criativa brasileira
De acordo com uma pesquisa nacional de mapeamento da indústria criativa no Brasil feita pelo Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), o segmento com maior representatividade na indústria criativa em Santa Catarina é o design, com 16,9% dos profissionais focados da área focado neste setor. A pesquisa aponta que no Brasil, o segmento do design emprega 9,7% de todos os profissionais criativos. 

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