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Segunda-Feira, 19 de Novembro de 2018
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Debate Plural: artistas e produtores avaliam o cenário cultural em Florianópolis nos últimos anos

Caderno do jornal Notícias do Dia promoveu encontro entre agentes culturais e artistas para eles opinarem também sobre o jornalismo cultural produzido atualmente na Capital

Marciano Diogo
Florianópolis
Eduardo Valente/ND
Plural convidou 15 artistas e produtores para avaliarem o cenário cultural atual em Florianópolis


A cultura de Florianópolis tem passado por profunda transformação na última década. Com produção efervescente, os artistas lutam para que o cenário artístico da cidade continue crescendo em todas as áreas. A consolidação de trabalhos já existentes e o surgimento de novos talentos e projetos fizeram com que houvesse nos últimos anos, mesmo com as mudanças constantes de mercado e a falta de apoio do poder público, a fortificação da cultura em Florianópolis e região. A atuação de produtores e artistas foi fundamental para este desenvolvimento. Diante deste movimento, é genuíno que haja questionamentos sobre a real evolução do setor cultural catarinense e do jornalismo especializado nesta área. Repensar e refletir faz parte do processo de qualificação para que a informação, o conhecimento e a arte sejam cada vez mais presentes na sociedade. É para tanto que o caderno de cultura Plural, do jornal Notícias do Dia, que completa neste domingo 10 anos, convidou agentes culturais e artistas da música, teatro, artes visuais, cinema, fotografia, dança e literatura, para opinarem e avaliarem as recentes mudanças no cenário artístico e a produção atual do jornalismo cultural na Capital. Confira o posicionamento e a análise dos profissionais:

Ana Ligia Becker, administradora do Museu de Imagem e Som de Santa Catarina
“Cheguei em Florianópolis em 2010 e tínhamos o CIC como referência, quando cheguei estranhei por que diziam que era o espaço mais movimentado culturalmente na cidade e aquilo não correspondia ao equipamento. Em 2012 os espaços no CIC começaram a se reorganizar para então restabelecer uma dinâmica cultural. No ano passado tivemos uma reviravolta em termos de movimentação, com várias exposições ocorrendo simultaneamente, ainda que não com todo o aporte de recursos que a o instituição consegue dar. Também estamos lutando para equipar os equipamentos culturais, para que o artista possa entrar cada vez mais somente com o seu trabalho.

"No MIS/SC procuramos dar oportunidade para artistas na área do audiovisual, fotografia e música, para que tenham seu espaço dentro do museu. É uma tentativa de dar oportunidade para todos. Atualmente o museu tem uma comissão que avalia o que se adequa ao nosso espaço e que e possível de viabilizar. Em 2015, ao mesmo tempo em que tivemos um ano ruim em termos financeiros, tivemos movimento grande no cenário cultural da cidade, com diferentes eventos ocorrendo ao mesmo tempo”.

Nazareno Pereira, ator integrante da companhia Teatro Sim.. Por Que Não?!!!
“Há crescimento na produção em todas as artes em Florianópolis. Tivemos um boom de novas produções, hoje já não conseguimos acompanhar tudo em todas as artes na cidade. A área de teatro cresceu muito, mas isso nos traz certos problemas também. Acho que por ter muitos projetos, é difícil de conseguir espaço nas agendas dos teatros da cidade, que estão sempre cheios”.

Jefferson Bittencourt, ator, músico e diretor da companhia de teatro Persona
“Aumentou o número de produção, mas os espaços da cidade não acompanharam o crescimento. Disputar espaço nas agendas dos teatros só exemplifica isso. Os espaços nos abrem alternativas, com eles não ficamos dependendo de editais. Ter espaços para entrar em cartaz com uma peça, para expor trabalhos de artes visuais, por exemplo, é fundamental para o desenvolvimento artístico da cidade”.

“Quanto ao jornalismo cultural, observo papel fundamental para o crescimento de todas as áreas, tanto na produção de conteúdo intelectual quanto na força política no que é necessário para fomentar esse desenvolvimento”.

Barbara Biscaro, atriz
“Acho que o papel do jornalismo cultural é criar um aporte simbólico para incentivar e dar força para a arte. Como artistas e jornalistas culturais, temos que parar de separar o local, o nacional e o global. Esse discurso já não serve mais, de colocar em detrimento a produção local por algo maior. Isso não existe diante da capacidade de tramitação da arte. Estamos todos juntos. Eu sou de Florianópolis, e o crescimento da cidade permitiu que nós nos observássemos de forma diferente. E temos que parar de pensar nessa dicotomia e abandonar esse discurso. As dificuldades dos artistas em São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, são semelhantes, se não as mesmas. Não dá para relativizar os discursos”.

“Fomos impelidos como artistas a tratar o público como consumidor, mas acho que essa visão é privatizadora e cruel da arte. No âmbito municipal, sinto que temos que temos que provar demais as instituições nossas experiências e conhecimentos para conquistarmos espaços para apresentar nossos trabalhos. Por isso, os espaços alternativos são tão valiosos, como por exemplo, a Casa Vermelha, no Centro da cidade”.

Luana Raiter, atriz integrante do Grupo ERRO
“A visibilidade dada pelo Plural para o trabalho dos artistas faz a diferença, é um caderno que tem um olhar para as pessoas que trabalham artesanalmente com a arte. Isso é feito muito bem pelo caderno, mesmo diante da conjuntura política midiática”.

“Em termos de produção, acho que mesmo repetindo o discurso da falta de apoio do poder público, não podemos abandoná-lo. Na cidade, sinto a falta de um espaço autônomo de arte. A hora que a classe artística lutar por isso e ocupar algum espaço, estaremos juntos”.

Nestor Jr, artista visual
O número de artistas e criadores tem crescido de forma considerável nos últimos cinco anos em Florianópolis, mas ainda falta diálogo entre esses artistas, o público, e as políticas culturais. Os trabalhos continuam sendo feitos, independente dos incentivos públicos ou privados, e acho que ainda falta essas produções encontrarem melhor o seu público apreciador. Neste sentido, o papel do jornalismo cultural local tem auxiliado os criadores de diversas áreas, não só levando informação mas também aproximando o artista do seu público apreciador. A repercussão também dá continuidade para produção”.

Fabio Dudas, artista visual
“Nas artes visuais houve o surgimento de novos artistas, porém ainda com dificuldade maior de levar seus trabalhos para o público. Produzo arte há quatro anos aqui em Florianópolis e sinto isso. Ainda temos muita dificuldade de exibir nossos trabalhos, com a dependência de editais e os espaços ainda são deficientes. E o ND faz o seu trabalho diante deste aspecto cobrindo muito bem a produção local. Mais ainda sim, temos dificuldades. Por exemplo, no ano passado fizemos exposição conjunta no CIC e conseguimos um encaixe, e bancamos financeiramente toda a exposição, sem ainda ter segurança das obras. Nesta ocasião, arcamos com tudo. O que não tivemos que pagar foi somente a cobrança de aluguel do espaço público”.

Cíntia Domit Bittar, cineasta
“Em 2007 me formei em cinema, em 2010 criamos a Novelo Filmes, e naquela época a sensação era mais promissora na área. O audiovisual perdeu apoio do poder público estadual e municipal nos últimos anos. Grande parte das produtoras catarinenses ficam localizadas aqui em Florianópolis, e em 2015 não tivemos nenhum investimento nem do Governo do Estado nem da Prefeitura da Capital no cinema. O setor está despontando em várias regiões do Brasil, e estamos ficando para trás por que perdemos oportunidades porque a gestão estadual não abraça a política do audiovisual. Pernambuco, por exemplo, que tem um PIB bem menor que o nosso, com um edital que chega quase aos R$ 20 milhões de reais, e aqui o Governo do Estado corta R$ 1 milhão do edital. No cinema, onde vemos atividades são nas próprias produtoras, que fecham parcerias com canais de televisão e viabilizam seus projetos. Está sendo um malabarismo. Pesquisas apontam que o setor audiovisual cresceu mais que o têxtil e o farmacêutico nos últimos anos. É um setor de potencial de geração de renda, além da cultura”

Alcides Buss, escritor
“O trabalho do Plural sempre foi dedicado e consistente para com a cultura da cidade.Agora a cultura como um todo, em termos gerais, não vai bem na minha opinião. Falta uma dinâmica e interação maior entre as cidades da região. Esse isolamento também é pertinente dentro das próprias artes, que pouco interagem umas com as outras na cidade”.

“Também temos problemas nas políticas culturais. Na literatura, por exemplo, temos um número expressivo de autores, ainda sim, dificuldades na produção e distribuição. Acho que 90% dos livros que são publicados aqui acabam na casa do próprio escritor, quando o autor não banca a publicação”.

“Ao mesmo tempo, essa separação de ‘autores catarinenses’ também dificulta ainda a questão. Por exemplo, em algumas livrarias, por exemplo, temos espaço próprio nas estantes. Isso não deveria acontecer, os livros devem ser separados por gênero”.

Jean Mafra, cantor e compositor
“Em Santa Catarina ainda há esse pensamento provinciano que dá muito valor para naturalidade do artista. Eu não nasci aqui mas sou de Santa Catarina. Isso me incomoda por que diz respeito o que eu faço, à minha produção artística. Eu venho falando da cidade na música que faço e nos textos que escrevo, a cidade está em mim e faz parte da minha produção e visão, e eu faço parte dela”.

“A música é rica e vivida em Florianópolis. Vivemos em um momento bom de produção, mas acho que as coisas podem ficar melhores. Os artistas da cidade também precisam se encontrar mais, se verem mais, confraternizarem mais, ver mais os espetáculos uns dos outros, Florianópolis anda fragmentada e dispersa. Precisamos nos encontrar mais para criar atrito. Sem atrito não há fogo”.

“O que faz o Plural especial é ter um olhar especial para o diferente quando se trata da produção de cultura. Em termos de jornal, sinto falta de espaço para crítica. O artista precisa receber crítica, muitas vezes “cutucar” ou “bater” no artista. O jornal é importante para a gente “se ver” também”.

Tatiana Cobbet, cantora e compositora
“A produção cultural catarinense precisa ser melhor enxergada por nós mesmos e por fora daqui. Produzo musica autoral há mais de 15 anos. Há essa defasagem na falta de olhar e autoestima. Ao mesmo tempo, vejo o reconhecimento da arte catarinense fora daqui”.

“Faltam lugares adequados para nos apresentarem em Florianópolis. Esses espaços fortalecem a produtividade musical catarinense, por que é nesses espaços que podemos fazer nossas experimentações, consolidar o trabalho até ele estar pronto para apresentar em um grande teatro”.

Marina Coura, sapateadora e organizadora do Floripa TAP – Festival Internacional de Sapateado de Florianópolis
“A dança cresceu muito em Santa Catarina nos últimos anos, enquanto platéia também. Fico feliz vendo o público lotar espetáculos de dança. Dirijo uma companhia e tenho uma escola de sapateado, e como educadora na área, também sinto um crescimento. Mesmo os incentivos partindo da iniciativa privada, estamos crescendo. E mesmo com uma falta de articulação, observo a vontade da classe de se envolver cada vez mais”.

Anderson do Carmo, bailarino integrante da companhia de dança contemporânea Cena 11
“Na dança contemporânea, observo que há dificuldade para que os trabalhos  consigam perdurar e amadurecer.Também observo que na área da dança ainda há uma desarticulação da própria classe. Em Santa Catarina, a dança ainda é muito ligada a ideia nociva de competição, de esporte; aqui temos mais de 70 festivais de dança. Ainda sim, não temos nenhuma graduação especializada na arte. Por exemplo, ano passado tivemos o projeto Tubo de Ensaio, que foi importante por que provocou todo um pensar sobre a produção da dança”.

“Santa Catarina é um celeiro de talentos para exportação de bailarinos, com a escola com formação técnica de renome como o Bolshoi em Joinville, mas esses profissionais são treinados para serem bailarinos e não criadores”.

“Sou colaborador do Plural e sinto a repercussão dentro da própria classe artística. Observo que os textos têm o poder de mudar e estabelecer a relação das pessoas com a obra, por isso o espaço para crítica é também importante”.

Maria Lucila Horn, curadora e organizadora do festival Floripa na Foto
“As artes visuais já têm poucos espaços expositivos na cidade, e a maioria das exposições ainda não cobram entrada. Florianópolis está fora do Fundo Nacional da Cultura porque não deu aporte do Fundo Municipal de Cultura desde 2013, e no Governo do Estado a maioria dos projetos aprovados são pagos graças a “política de balcão”. Na esfera municipal, a nossa política cultural é praticamente inexistente. Outra dificuldade que temos é a memória, as instituições pouco se lembram dos artistas que fizeram a história dessa cidade”.

“Ainda sim, a fotografia cresceu muito. Ações coletivas como o próprio festival, o varal da Trajano, a galeria online O Galerista, auxiliaram mais ainda para que isso acontecesse. O crescimento da arte em Florianópolis também é fruto da UFSC e da Udesc, que formam dezenas de artistas”.

Soninha Vill, fotógrafa
“Acho que a fotografia cresceu muito nos últimos anos em Florianópolis. Um movimento nacional e internacional também se refletiu no município. Iniciativas que promovem o debate e a produção e fortalecem o circuito, como festivais, são fundamentais para que isso siga acontecendo. É importante desenvolver este mercado insipiente, estimular o colecionismo, formar um público consumidor de arte. Neste sentido, sentimos que precisamos de ações educativas, que falem de arte e fotografia para muitas pessoas, além da apreciação técnica, que ainda é muito limitada pela estética. Vejo a produção artística como processo e pesquisa. É preciso educar para aproximar as pessoas da complexidade da imagem”.

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Envie sugestões e opine através do e mail plural@noticiasdodia.com.br.

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