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Crônica visual: fotógrafos voltam suas lentes para moradores e cenários de Florianópolis

Na Capital é possível observar nos últimos anos um movimento no comportamento de fotógrafos, que têm voltado suas lentes para observar as formas urbanas, paisagens e moradores da cidade

Marciano Diogo
Florianópolis
09/09/2016 às 16H17

Quase dois séculos após ser criada, a fotografia segue movimentando a arte e a comunicação, possibilitando novas leituras e olhares para o mundo. Seja com registros históricos ou cotidianos, o ato de eternizar imagens é incentivado agora por processos instantâneos. Em Florianópolis, é possível observar nos últimos anos um movimento no comportamento de fotógrafos, que têm voltado, com frequência diária, suas lentes para observar as formas urbanas, paisagens e moradores da cidade. “Vivemos um bom momento para fotografia na Capital com fortalecimento de grupos e movimentos voltados para tal, como feiras de arte, o coletivo Circuito Galeria, o festival Floripa na Foto e a exposição Varal da Trajano”, opina o fotógrafo Milton Ostetto, idealizador e produtor do Varal da Trajano, projeto de exposição fotográfica mensal que já realizou 17 mostras no Centro Histórico da cidade e está com agenda completa até novembro de 2018.

No sentido horário, os fotógrafos Caio Cezar, Sergio Luiz da Silva, Bruno Ropelato, Milton Ostetto, Alexandre Gonçalves, Sergio Vignes e Ayrton Cruz - Eduardo Valente
No sentido horário da esquerda para direita, os fotógrafos Caio Cezar, Sergio Luiz da Silva, Bruno Ropelato, Milton Ostetto, Alexandre Gonçalves, Sergio Vignes e Ayrton Cruz - Eduardo Valente/ND


Sergio Luiz da Silva, fotógrafo autodidata há 35 anos que mantém um blog em que publica semanalmente seus registros, reforça que com o advento de novas tecnologias digitais e da internet, o compartilhamento das imagens torna-se ainda maior, e consequentemente a fotografia de rua, antes direcionada a um público seleto, também acaba chegando agora a um público maior. “O Instagram e outros aplicativos com filtros de imagens inseriram ainda mais a fotografia na rotina e cotidiano das pessoas. Isso democratiza a arte e dá liberdade maior às formas de expressão. Porém, ainda acho que a fotografia analógica tem e sempre terá um impacto diferente por uma questão de sensibilidade e sentido”, acrescenta Sergio.

Para o artista visual e fotógrafo Bruno Ropelato, que compartilha nas redes sociais seus registros do projeto #PorAí, que também ganhará mostra no MIS/SC (Museu da Imagem e Som de Santa Catarina) em dezembro, a fotografia em Florianópolis tem se desenvolvido também graças a um movimento de ocupação da cidade que passa também pelo empoderamento do olhar das pessoas que moram na Capital. “Essa maior acessibilidade também é benéfica para nós profissionais, pois podemos nos atualizar com mais agilidade e temos um retorno mais rápido quanto à receptividade. Podemos experimentar mais, brincar mais, errar mais, criar mais. O fotógrafo, na razão de sua existência, capta imagens para que possam ser vistas posteriormente, ou seja, a fotografia só toma corpo e sentido após contato com o espectador. Na verdade, nosso trabalho se dá pelo olhar dos outros”, observa Ropelato.

Á convite do Plural, sete fotógrafos de Florianópolis compartilharam seus olhares e impressões sobre como a fotografia de rua têm evoluído na cidade. Aprecie o resultado:

Filho e neto de fotógrafo, Caio Cezar iniciou na fotografia ainda na juventude - Eduardo Valente/ND
Filho e neto de fotógrafos, Caio Cezar começou na arte dos registros na juventude - Eduardo Valente/ND


Venho de uma família de três gerações de fotógrafos, uma dinastia da fotografia. O que me despertou o interesse pela fotografia foi o laboratório, o processo físico de ampliação da imagem. Comecei a fotografar profissionalmente com 18 anos, tendo me especializado também na área do retrato. Para mim, todo retrato é um autoretrato. Você só fotografa aquilo que te toca, que te cativa, que te afeta, algo que te dá uma resposta emocional. Eu fotografo aquilo que não posso evitar”, Caio Cezar.

Milton Ostetto criou o Varal da Trajano, projeto de exposição fotográfica em espaço público - Eduardo Valente/ND
Milton Ostetto criou o Varal da Trajano, projeto de exposição fotográfica em espaço público - Eduardo Valente/ND


Meu interesse pelo mundo das imagens começou com o cinema na década de 60, meu pai era dono de cinema e fui fascinado desde infância. Com 13 anos ganhei minha primeira Kodak do meu avô. Quando vim pra Floripa em 1974, conheci outros fotógrafos, naquela época tínhamos cerca de oito fotógrafos em toda a cidade. E isso mudou muito, hoje são dezenas de profissionais. Quanto às minhas fotografias, a maioria delas tem gente. Se não tem gente, tem paisagem. Não importa se eu esteja no Centro ou na praia, busco por um registro em que me reconheça e que diga algo para eu mesmo. Vivo em dois mundos, em um bairro tradicional, o Campeche, e também no Centro da cidade. Esse contraste está presente na minha foto. Quando se é fotógrafo da cidade, é inevitável olhar o mundo enquadrado. O mundo é visto através de uma moldura. Ainda assim, ordenar compositivamente os elementos no quadro é um grande desafio. Busco por coisas novas diariamente, para não cair na repetição”, Milton Ostetto.

xxxx - Eduardo Valente
Figura reconhecida em eventos culturais, o fotógrafo Sergio Vignes volta suas lentes para sensibilidade dos retratos - Eduardo Valente/ND


Faz 36 anos que tirei minha primeira foto profissional. Para mim, a cidade é feita de veias e artérias, se comporta como um organismo vivo. As ruas são as veias, e é preciso contorná-las se você quiser tornar-se fotógrafo. Como não sei escrever, eu fotografo. Escrevo uma crônica visual. Tenho me voltado para fotografar pessoas, por que vivemos em um momento conturbado em que a sociedade está muito agressiva. É possível provocar as pessoas com o carinho da lente, não ter uma lente agressiva, usar a máquina para trabalhar a autoestima da cidade. Sair flanando pela cidade com a câmera é uma forma de exercitar sua percepção e sensibilidade”, Sergio Vignes.

Sergio Luiz da Silva - Eduardo Valente/ND
Sergio Luiz da Silva também tem a câmera como companheira de viagens e costuma registrar diferentes cidades do mundo além de Florianópolis - Eduardo Valente/ND


As cidades têm se tornado lugares do mau-encontro, onde os espaços de verdadeira confraternização são cada vez mais raros. A fotografia entra para reaproximar as pessoas. Eu uso a fotografia para tornar a cidade um espaço de bom-encontro. Estou trabalhando em uma linha de fotografia apoiada em uma visão sociológica, normalmente eu abordo as pessoas para fazer o retrato. Meu retrato é concedido, é preciso de interação entre os lados”, Sergio Luiz da Silva.

Alexandre Gongalves - Eduardo Valente/ND
Alexandre Freitas costuma voltar suas lentes para registrar as formas urbanas arquitetônicas da Capital - Eduardo Valente/ND


Tive oportunidade de aprender fotografia com grandes mestres. Eu acho que a fotografia formal tende a ser mais técnica que aquela voltada para registrar o cotidiano urbano, que é mais ‘instintiva’. Por exemplo, fotografar gente para mim é extremamente difícil. Eu procuro observar as formas arquitetônicas que contornam e desenham a cidade, é um processo mais natural, eu já ‘tiro fotos só com o olhar’. Creio que vivemos um momento positivo de expressividade na fotografia da cidade, as pessoas veem a cidade diferente também porque a própria cidade mudou muito nos últimos 20 anos. É natural que haja essa mudança no olhar”, Alexandre Freitas.

Ayrton Cruz - Eduardo Valente/ND
Ayrton Cruz começou a fotografar recentemente, há cerca de um ano - Eduardo Valente/ND


Como sou um pouco introvertido, a fotografia é um meio de expressão. Antes eu observava as pessoas e escrevia, depois eu comecei a desenhar a partir da observação, até enfim fotografar. Eu comecei a fotografar informalmente há cerca de um ano, mas como já trabalhei com jornalismo já tinha envolvimento direto com a imagem. Para fotografar, eu procuro ficar ‘invisível’ para os outros, no meu canto, para conseguir observar as pessoas. A fotografia aproxima e dá acesso ao outro, é um canal de diálogo. Acho que quando se é fotógrafo, a máquina se incorpora no corpo e você se torna outro individuo”, Ayrton Cruz.

Bruno Ropelato - Eduardo Valente/ND
Também fotógrafo do Notícias do Dia, o artista visual Bruno Ropelato expõe suas fotos em dezembro no Centro Integrado de Cultura - Eduardo Valente/ND


Comecei com a fotografia nas Artes Visuais, trabalhei com fotografia de moda, mas descobri a minha fotografia mesmo no fotojornalismo. Eu procuro um recorte diferente, busco pelos detalhes, tento encontrar o silêncio na cidade. Nessa visão eu não fotografo as pessoas, mas sim as texturas e formas, é um projeto mais minimalista da fotografia. O #PorAí já é mais voltado para as redes sociais, procuro aguçar o espectador para observar mais os detalhes de Florianópolis. Acho que toda imagem é ressignificada pelo próprio leitor, e quando se trata de fotografia de rua, essa característica de subjetividade é ainda mais forte”, Bruno Ropelato.

Fotógrafos clássicos
Grandes fotógrafos deixaram seu nome na fotografia de rua, produzindo séries urbanas impactantes, como Brassai (1899-1984), Robert Doisneau (1912-1994), Eugene Smith (1918-1978), Garry Winogrand (1928-1984) e o mais conhecido e divulgado, Henri Cartier-Bresson (1908-2004). No Brasil, Geraldo de Barros (1923-1998) e German Lorca, que tem 94 anos, são expoentes.

Democracia de imagens
Há também um coletivo aberto de fotografia na cidade. Desde setembro de 2015, a conta 7 por 7 do Instagram compartilha fotografias de moradores de Florianópolis. A cada semana, um colaborador contribui com sete fotos, uma por dia.  “É um espaço para divulgar como as pessoas que moram na Ilha veem a cidade”, conta a designer Ju Shiraiwa, criadora do perfil.

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