Publicidade
Terça-Feira, 18 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 25º C
  • 16º C

Crítica: Últimas polêmicas atentam ao perigo reacionário que ronda a relação política-arte

Fechamento da exposição "QueerMuseu" e censura a apresentações de dança mostram o paradoxo da reação que considera ofensa a arte enquanto consome pornografia livremente

Anderson do Carmo - Artista e pesquisador da dança. Doutorando pelo PPGT-UDESC. Investiga estéticas e epistemologias gay/queer/bicha
Florianópolis
29/09/2017 às 19H48

Vanguarda, no francês ‘avant gard’, refere-se ao que supostamente avança para onde ainda não se tinha ido até então. Em 19 de julho de 1937 sucedeu em Munique a vernissage da exposição que ironicamente inaugurou a vanguarda na arte moderna. A exposição “Arte degenerada” contava com obras de Picasso, Klee, Kandinsky, Mondrian e sua curadoria era assinada por Adolf Ziegler a convite de Joseph Goebbles, ministro da Propaganda do Terceiro Reich e braço direito de Hitler. Ziegler era o pintor favorito do ‘füher’.

‘Queer’, do inglês, se refere ao estranho, estragado e – pejorativamente – é ofensa a homens afeminados e mulheres masculinizadas e foi transformado por tais indivíduos: de ofensa converte-se em pertencimento. Próximo do que acontece no Brasil quando nos chamamos entre nós de “bicha”. O que diminuía a humanidade agora identifica. Em 9 de setembro de 2017 o Santader Cultural de Porto Alegre decide encerrar um mês antes do programado a exposição “QueerMuseu – cartografias da diferença na arte brasileira”, com curadoria de Gaudêncio Fidélis, em virtude de reclamações de frequentadores, protestos organizados por movimento políticos e – principalmente – pelo lobby financeiro das contas multimilionárias de ‘faith money’.

“Dança Doente”, do bailarino Marcelo Evelin, aborda a dança enquanto sintoma - Mauricio Pókemon/Divulgação/ND
“Dança Doente”, do bailarino Marcelo Evelin, aborda a dança enquanto sintoma - Mauricio Pókemon/Divulgação/ND



A justaposição destes escândalos curatoriais atenta para o perigo reacionário que ciclicamente ronda a relação política-arte. Principalmente a arte que não deve ser vista. Não por todos. Como sucedeu com “DNA de DAN”, de Maikon K, e com “O evangelho segundo Jesus, rainha do céu”, de Natalia Mallo e Renata Carvalho a partir do texto de Jo Clifford, “QueerMuseu” é censurada por ir longe demais, ofender crenças religiosas, compreensões políticas e opiniões pessoais. O conceito de metáfora parece ser inexistente para nossa nação: nudez ritual masculina é ofensiva, enquanto a objetificação feminina na publicidade nada afeta; o retorno do messias como integrante da mais vulnerável população brasileira choca o país que mais consome pornografia com travestis. O Brasil não é para iniciantes.

Tal postura evidencia o retrocesso pulsante que se agiganta frente a nós: em 2017 volta-se a falar sobre “cura gay”, como se se presenteasse o oprimido ao lhe permitir higienizar-se para melhor conviver com o privilegiado. Como soaria uma lei que permitisse a psicólogos auxiliarem heterossexuais a tornarem-se gays? Sem cabimento? A diferença parece ser o problema que desencadeia todo o desespero quando, na verdade, é a impossibilidade de ajuste homogêneo a modelos que brutaliza. E se abraçássemos a diferença como regra?

Essa pergunta radical parece ter sido feita por Cláudia Garcia, Cláudia Müller, Fabricio Floro e Wagner Schwartz ao assinar a curadoria da Bienal Sesc de Dança em Campinas, de 14 e 24 de setembro. A curadoria como exercício radical de pensamento e ação política é aí exemplar. Além de programar para a noite de abertura o espetáculo “Do desejo de horizontes”, da companhia Mouvements Perpétuel, de Burquina Faso – numa suspensão da deprimente e automática sujeição às epistemologias do Norte Global – os curadores programam a intervenção “26º Campeonato Interdrag de Gaymada”, do coletivo de artes Toda Deseo; o legendário Jose Gutierez Xtravaganza, arquivo vivo da resistência bicha e periférica na dança vogue americana; “O samba do crioulo doido”, crítica cirúrgica de Luis de Abreu ao racismo; e a “Dança doente”, de Marcelo Evelin.

O coreógrafo piauiense Marcelo Evelin, em permanente trânsito – há poucos dias estava aqui na Ilha no Colóquio Internacional Pensar a Cena Contemporânea e logo embarca para Portugal – faz uma aposta radical na diferença. Isso inclui desde bailarinos com distintos treinos, a nacionalidade de tais performers, referências que se atravessam (butô, do coreógrafo das trevas japonesas Tatsumi Hijikata; religiões afrodiaspóricas; o reality show RuPaul’s Drag Race; o debate democrático da belga Chantal Mouffe) e uma pedagogia da partilha dos meios de produção da arte em contextos eruditos e periféricos. Assumir o adjetivo doente para uma dança que assume ser chamada de “coisa de bicha” é inversão importante nos modos de lidar com a onda conservadora que ameaça afogar: se este mundo em que estamos é são, talvez seja melhor adoecer. O que não mata fortalece.

Publicidade

3 Comentários

Publicidade
Publicidade