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Sexta-Feira, 21 de Setembro de 2018
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Crítica: Star Wars não só recicla, como também reaproveita ideias que deram certo no cinema

Assim como "Indiana Jones", longa mistura um toque de humor com aventura e poucos diálogos.

Redação ND
Florianópolis
Divulgação/ND
Harrison Ford parece mais um Indiana intergaláctico e Chewbacca não convence como em 1977

Por Dirce Waltrick do Amarante

Professora do curso de artes cênicas da UFSC.

Muito antes de a bilheteria do cinema abrir, uma longa fila de fãs dos filmes da série “Star Wars”, concebidos por George Lucas, se formava diante dela. A expectativa era assistir ao novo filme da saga, “Star Wars: o despertar da força”, desta vez sob a direção de J.J. Abrams, que já havia trabalhado como roteirista em “O império contra-ataca”, de 1980, e “O retorno de Jedi”, de 1983.   

Obviamente, um verdadeiro fã quer assistir ao filme em 3D, para não perder nenhum detalhe. Mas a técnica, se não decepciona, não apresenta nada de novo. Acho que os espectadores já se acostumaram com as ilusões de profundidade e de aproximação das imagens 3D e, muitas vezes, parece-me, os roteiros são escritos pensando exclusivamente em destacar cenas de impacto para a “nova” técnica.

Star Wars: o despertar da força”, primeiro filme da saga produzido depois da venda da Lucas Film para a Walt Disney Pictures, começa e não demora muito para não sabermos se o que estamos vendo é “Star Wars” ou uma aventura de um “Indiana Jones” (série também dirigida por George Lucas) intergaláctico. O roteiro de ambos os filmes é, diria, praticamente o mesmo: um toque de humor, muita aventura e poucos diálogos. Esse tipo de roteiro parece ser a receita de sucesso de filmes hollywoodianos e, há que se dar o braço a torcer, tem dado certo e arrebatado espectadores de todas as idades e das mais diferentes culturas.

Quando Harrison Ford aparece, ele não deixa claro se é Indiana (intergaláctico) ou Han Solo. Não digo com isso que a sua atuação seja ruim, mas apenas enfatizo que suas personagens mudam de cenário, mas não mudam muito de personalidade.

A propósito dos atores, a grande aparição é a de Lupita Nyong'o, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante pela sua atuação no filme “12 anos de escravidão”. Lupita atua no papel de uma pirata de mil anos, uma conselheira da força do bem. Apesar de sua personagem ser uma criação computadorizada, sua voz e expressões (captadas por computador) convencem mais do que as da atriz inglesa, bonita e novata, Daisy Ridley no papel da heroína Rey, uma catadora de lixo. Destaco ainda o carisma e a construção da personagem do também inglês John Boyega no papel de Finn.

O aparecimento do peludo Chewbacca talvez seja o momento do filme que cause maior estranhamento. A personagem, que convencia visualmente em 1977, agora parece um ser completamente anacrônico, uma personagem de um autêntico filme trash.

O cenário decadente, as sucatas e, principalmente, a nova personagem da saga, o robozinho BB-8, lembram o filme “Wall-E”, de 2008, da Pixar Animation Studios.

“Star Wars: o despertar da força” parece realmente reciclar não só os filmes da saga, como seria óbvio, mas também reaproveitar ideias que deram certo no cinema, o que garante, acredito, o sucesso dessa “nova” aventura intergaláctica.

Em tempos de “escrita não criativa”, expressão tomada de empréstimo do livro “Uncreative writing”, de Kenneth Goldsmith, nada mais contemporâneo que a reutilização de ideias. A propósito da “escrita não criativa”, essa ideia surgiu com intensidade no início do século passado, quando artistas passaram a criar obras a partir da recomposição de frases e informações já prontas. No século 21, ela é mais do que atual; afinal, como bem lembra o artista norte-americano Douglas Huebler, “o mundo está cheio de objetos, mais ou menos interessantes; eu não desejo acrescentar nenhum outro”. Talvez a figura da catadora de lixo represente a proposta de criação do filme.

Os fãs já esperam por um próximo episódio da saga, que certamente não demorará a chegar, e que, não importa se feito de sucatas ou não, deverá agradar os seguidores de “Star Wars”.

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