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Sábado, 22 de Setembro de 2018
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Crítica: Potente experimento cênico acadêmico volta a ser apresentado em maio

Vale a pena ficar de olho na instalação coreográfica "Fome", idealizada por Lucas Viapiana e Thaina Gasparotto, que será reapresentada no Ceart

Redação ND
Florianópolis
Divulgação/ND
Industrialização. Com inusitada apresentação, espetáculo “Fome” aborda questões que vão do consumo  de carne à mercantilização dos corpos

Por Anderson do Carmo

Artista da dança e mestrando em teatro na Udesc

 

            Quando a equipe de produção de “Fome” anunciou ao público o início da sessão não foi para dentro da sala que abrigava a instalação coreográfica idealizada por Lucas Viapiana e Thaina Gasparotto que se foi conduzido. Um pequeno espaço de passagem e separação entre os Espaços 1 e 2 do Bloco Vermelho do Centro de Artes da Udesc – que certamente não foi projetado para uma ocupação – é repentinamente transformado em lugar de permanência.

            A inteligência arquitetural da jovem equipe que dá corpo a “Fome” começa a se apresentar aí: cerca de vinte pessoas com diferentes graus de intimidade e disposição a um desconforto repentino permanecem por um tempo cronologicamente curto, mas sensorialmente interminável, em um espaço pequeno, quente, cheio e forrado de cima a baixo com jocosas montagens gráficas sobre a indústria e o consumo da carne. Sob o olhar de uma câmera de segurança flagramo-nos em um abatedouro.

            O audacioso espaço a que em seguida se é conduzido tem sua maior parte ocupada por altas cortinas compostas por faixas justapostas de material transparente. Por entre suas fendas se entre vê os corpos Lucas e Thaina em pé. A cenografia de Luana Leite dá continuidade as lógicas iniciadas no estreito abatedouro metafórico que funcionava como sala de espera: se lá não havia possibilidade de relaxar e a condição claustrofóbica inevitavelmente deixava os corpos em outro estado perceptivo, aqui sobra espaço, mas ele é escuro e indefinido. Os corpos dos espectadores não podem confortavelmente se sentar e contemplar o que sucederá. Precisam espiar, se amontoar, acotovelar e empilhar para ter um relance de dança.

            Denominar “Fome” como instalação coreográfica cria vigoroso sentido para a obra na medida em que quando os corpos entram em movimento se percebe que a dança não inicia ali. Ela já havia começado, talvez sem que a maioria tivesse se dado conta, no uso coreográfico do espaço.

O espaço funciona em “Fome” como extensão dos corpos dos dançarinos, que de modo sutil e eficaz põe também os corpos do público em situações coreográficas, em constante mobilidade arquitetada que parece ser de escolha própria e – no entanto – por outros foi projetada.

O ponto de partida para a criação da instalação coreográfica é uma crítica dura a industrialização e consumo da carne, ao abate e exploração animal e a todos os questionamentos éticos que daí se originam. No entanto é admirável que mesmo assumindo um caráter panfletário a obra não se blinde a deslizamentos de sentido que aproximam sua dança da própria condição humana na contemporaneidade. A condição de “vouyer” na qual o público é colocado e a inevitável erotização dos corpos jovens, magros e belos em ação faz com que a fome a qual o título se refere alastre-se até a indústria da moda, ao universo pornô e a paranoia que o discurso da medicina estética articula ao redor do emagrecimento e da manutenção de uma imagem de juventude.

Do mesmo modo que os corpos de animais são de fato fabricados com a finalidade de virar alimento, poderia se pensar que na contemporaneidade os corpos humanos também são projetados para o consumo, para o desejo e para a capitalização de uma compreensão mercantilizada de força, beleza, saúde, juventude e erotismo. Os estados corporais pelos dançarinos experimentados combinam momentos de vigor, virtuose e controle em oposição a outros tantos de exaustão e – o ponto alto das metáforas motoras – debilidade, onde o corpo parece não ter mais controle sobre si, onde a subjetividade está fracamente grudada à carne.

A música, que acertadamente compõe com as intensidades corporais em jogo, carrega a forte assinatura de Hedra Rockenbach para a cena. A relação escultórica da musicista do Cena 11 com o som articula potências inesperadas nos textos previamente gravados. “Fome” fala muito bem sobre hábitos introjetados de forma sutil a ponto de aparentarem sempre terem sido nossos. Uma pergunta fica em aberto: queremos mudar tais hábitos? Mesmo já  sabendo que não são nossos?

“Fome” tem apresentações previstas para final de maio no Ceart e sua principal via de comunicação será o Facebook. Vale a pena ficar de olho.

 

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