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Terça-Feira, 17 de Outubro de 2017
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Crítica: Peça carioca “Mordedores” invade a percepção e propõe diálogo radical entre diferenças

Trabalho em que bailarinos se mordem provocam reações que vão da excitação ao nojo, do riso descontrolado à discreta saída da sala onde ocorre a peça

Redação ND
Florianópolis
Renato Mangolin/Divulgação/ND
Trabalho foi apresentado em Teresina, no Junta - Festival Internacional de Dança

POR Anderson do Carmo

Artista da dança e mestrando em teatro na Udesc. Viajou ao Piauí a convite do Junta – Festival Internacional de Dança.

 

            “Mordedores”, a mais recente peça da Improvável Produções, é de uma literalidade perturbadora que ganha corpo na dança de sete performers. Dentre eles está Lucía Russo que em parceria com Marcela Levi articula uma composição que, em variados sentidos, abraça os espectadores.

            Ao entrar na Galeria Clube dos Diários – um dos espaços ocupados pela segunda edição do Junta - Festival Internacional de Dança, de Teresina – uma arena quadrada desenhada por cadeiras aguarda os espectadores. Já estão aí dispostos aqueles que irão dançar, mas a clareza nas funções se borra para o público que progressivamente encontra mais cadeiras ocupadas. A luz é quase invasiva. Ser plateia não é seguro ou anônimo: todos têm rostos, todos têm bocas, todos são aptos a morder.

            Quando a primeira dentada chega quase passa despercebida, como se um chiclete tivesse sido demasiado ruidoso. Uma das artistas mastiga bolhas de plástico cheias de ar tirando-as de dentro de seus shorts, de cima do púbis. Uma energia erótica se insinua. Quando os olhos de todos estão grudados em sua repetitiva ação outro dançarino nela se engaja em outro ponto do amplo quadrado. A energia erótica se reforça. Quando o padrão parece ter se estabelecido novamente se tem a percepção abocanhada e os dentes de um corpo passam a ter a carne de outro como parceira de dança.

            A partir daí é inebriante a sequencia em que ”Mordedores” embebe os que assistem: cada vez mais são os que agem e cada vez mais é imprevisível de onde brotará o novo mordedor. O emaranhado de bocas, suor e movimento incessante não é apenas para os olhos: o fedor penetra o nariz, o calor toca a pele, os engasgos vibram no ouvido e cada vez mais o paladar é convocado pela vontade de participar da dança. Provavelmente seria fácil pôr-se a morder juntos dos dançarinos; difícil mesmo seria interromper o ciclo de violência. E essa afirmação não é meramente metafórica.

            Muitas páginas poderiam ser escritas relatando a qualidade técnica do elenco, a minúcia compositiva das diretoras e mesmo a maximização de potencia que a proposição sofre quando relacionada à recorrente referencia a prática da antropofagia na arte moderna brasileira. No entanto, ainda mais forte que o simbolismo do ritual dos tupinambás – constituir a própria interioridade engolindo partes de um adversário valioso – é a coreografia involuntária que os “Mordedores” desencadeiam na audiência.

            As reações vão da excitação ao nojo, do riso descontrolado à discreta saída da sala onde sucede a peça. Há quem não entenda e – logo depois da sessão – se pergunte o que leva um grupo de artistas a se morder, sem sossego, até sangrar. E aí a dramaturgia – mais que morder – corrói: o incomodo em função de um suposto excesso de violência é na verdade gerado por ela não se camuflar. Qualquer bailarina que treinou dançar nas pontas relataria os ferimentos daí oriundos e escondidos atrás dos gestos ternos de Giselle. Tal recepção não deixa muito espaços para dúvida: o problema não seria que a violência ocorresse, mas que ela fosse vista.

            Esta interpretação, no entanto, requer cautela: a violência a que se refere – fique claro – não é a aniquiladora, a que extingue o outro e oprime a diferença, mas aquela que macula a assepsia, que suja a higiene obsessiva, que ousa perturbar a blindagem do corpo cosmético. Os dançarinos, importante destacar, são jovens, magros, de traços harmônicos: a cara da beleza-que-vende e que, aos poucos, se dirige a escatologia.

            Em uma das cenas que melhor expressa a composição que as diretoras levam a cabo seis dos dançarinos mordem-se no centro da arena enquanto um outro os circunda em corrida veloz. Ele carrega um grande pedaço de plástico-bolha do modo que se carregaria uma bandeira de vitória. O público opera como contorno vivo. Se nesse tríptico há o acelerado diálogo entre dentro e fora na ação dos mordedores, a chamada de atenção seguida da destruição de um material que costuma ter fins de proteger estruturas frágeis e a presença grávida de futuro dos espectadores há também uma palpável proposição de convivência de contradições, de existência na divergência, de geração de vitalidade em mortes simbólicas.

“Mordedores” propõe que se há possibilidade de diálogo entre opostos no campo da poesia, certamente ela é viável também no campo da política. Como insinua o final da obra: pode até doer, mas não mata. Quem aí está servido?

 

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