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Crítica: Nova obra de Deborah Colker insinua mudança de percurso

Trabalho da coreógrafa, apresentado em Santa Catarina, é o mais 'brasileiro' da companhia

Anderson do Carmo - Artista e pesquisador da dança. Doutorando pelo PPGT-UDESC. Investiga estéticas e epistemologias gay/queer/bicha
Florianópolis
27/10/2017 às 19H44

A mais recente coreografia de Deborah Colker difere muito das demais obras de sua trajetória. E isso é bom. “Cão Sem Plumas” é anunciado como primeiro espetáculo com temática brasileira. Aí uma constante nas críticas à produção da coreógrafa carioca merece ser repensada: se quem prefere não se posicionar nos debates arte-sociedade acaba posicionado por terceiros, Colker não figura mais na ala daqueles que, de modo simplista, são chamados de alienados. “Cão Sem Plumas” é um exercício no qual se relacionam a estética abraçada pelo mercado e a necessidade de falar de assuntos mais urgentes.

“Cão Sem Plumas”, que fez turnê por Santa Catarina, se alinha a discussões atuais - Divulgação/ND
“Cão Sem Plumas”, que fez turnê por Santa Catarina, se alinha a discussões atuais - Divulgação/ND



 Inspirada no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e construída em parceria com o cineasta Cláudio Assis – do visceral “Amarelo Manga” – a coreografia consegue criar nos corpos dos bailarinos estados distinto do habitual imperativo de beleza. Há momentos em que uma estranheza se instaura e uma nova maneira de dançar se insinua. A assertiva anterior pode parecer ingênua ao elogiar “estranheza”. No entanto, é importante não embrutecer a própria percepção e avaliar: a possibilidade de elementos fora dos padrões, tão engessados na dança, poder chegar a um público tão grande e tão fiel como o de Deborah Colker representa sim uma positividade.

Esta é uma das poucas companhias de dança brasileira que atravessa o desmonte do aparelho público da cultura justamente por ter patrocínio da Petrobras. Se a capitalização da arte – a produção dentro de um esquema de cultura de massa – supostamente diminui a radicalidade artística em função de tornar-se palatável, é inconteste que os atuais e grandes retrocessos no que se refere à fruição da arte e sua consequente censura precisam ser observados também sob a perspectiva na qual essa radicalidade estética não veio acompanhada de um projeto educativo democratizador.

Reduzir o debate a termos segundo os quais a “arte inteligente” vem sendo reprimida, enquanto a “arte burra” prossegue intocável é negar engajamento em um debate que será inevitável: qual função da arte em uma nação destroçada? Se aqueles artistas que se colocam em um lugar de resistência à onda reacionária tem sua ação limitada em função do acesso reduzido à sua poética, como as grandes produções – de impacto global – se posicionarão daqui para frente? Neste posicionamento se poderá perceber qual a pregnância da “nova fase” de Deborah Colker. A torcida é para que a superestrutura da companhia seja utilizada cada vez mais no sentido de discutir o que é urgente.

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