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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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CRÍTICA: Múltipla Dança terminou no domingo enfatizando que dançar é também um ato político

Festival apostou na ocupação de vários pontos da cidade, alcançando cerca de 1500 espectadores

Redação ND
Florianópolis
Clara Meirelles/Divulgação/ND
Espetáculo Rec(L)usadx, da bailarina Elke Siedler

Por Ida Mara Freire

Pós-doutorado em Dança, Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul 

O lembrar e  o esquecer  nos tornam humanos, ensina as leituras de Paul Ricoeur.  O tempo vivido  em lutas, doenças,  feridas, traumas cravam  na memória corporal  povoando-a de lembranças.  A recordação, os graus de rememoração  vão pouco a pouco preparando a narração  a ser escrita,  dançada,  e por que não gritada.  Grito diante da plateia  paciente a esperar o espetáculo começar... como provoca Olga Gutiérrez ao encerrar no domingo à noite,  no Ceart/Udesc, o Festival Internacional Múltipla Dança,  que neste ano  apostou  na ocupação de vários pontos da cidade, alcançando  assim  um número  aproximado  de 1500 espectadores.

Como no sábado, dia 28 de maio,  a contemplação  de diferentes lugares  da Ponta do  Coral,  sugerida na intervenção urbana,  as dançarinas  Diana Gilardenghi e Sandra Nunes, compõem  com um coral silencioso  uma caminhada, a mostrar que nos  movemos dentro de  uma realidade impregnada de um  passado exuberante  e  de um futuro obscuro,  revelado no contraste de cada  passo  do momento  atual,  pois,  embora  não se possa negar a beleza da paisagem , é necessário o uso de  máscaras  para   não se intoxicar com o cheiro ao redor e,  o uso de luvas para não se contaminar  com   aquilo que está a alcance das mãos.

Na noite de sábado, no teatro do Sesc – Prainha,   estreia no Múltipla o espetáculo Rec(L)usadx,    que se mostra como uma memória episódica  dos eventos   que escancaram   a  vulnerável  condição feminina  que deixa qualquer  menina amedrontada.  Tendo como espaço de ensaio a sala de sua casa,  a dançarina Elke Siedler compõe seu  solo para guitarra  em Só Maior , sua dança  soçobra a  plateia  na fragilidade  nua  de ser  humana.  O tecido vermelho que no início da cena desenha um círculo imperfeito  no chão,   em um tempo ritual, veste o corpo  com   requintada fatalidade e dor.  A luz que inebria, de súbito  estoura,  abrindo os olhos do espectador  que já não vê mais  a dança,   mais lê no programa que:  “A intervenção estética pela metáfora do excesso de derramamento de sangue expõe a urgência em ressignificar experiências relacionais intersubjetivas.”

No círculo das memórias internas e externas proposto por Rui Moreira, na oficina Danças Negras Contemporâneas,  no Studio Afrika,  localizado no Canto da Lagoa,  na sexta- feira pela manhã, a simplicidade  tem o seu lugar garantido, a  busca do prazer  pela dança é  questionada  e ampliada pelo    compromisso consigo e com o outro.   Jussara Belchior, participante  da oficina e integrante do Múltipla Escrita, descreve  que:   “Compartilhar as sensações e reflexões advindas da prática é um jeito de dilatar a memória. No início, Rui Moreira mencionou que o trabalho da memória contava com um pouco de imaginação, ao fim, a imaginação concretiza-se como uma experiência-convite da partilha. Essa experiência, de "danças negras contemporâneas" é, sobretudo, um chamado a refletir sobre as bagagens, os cruzamentos e as potências nas histórias dos corpos.”

Homenagear  é também  um ato de rememorar,  nas palavras de  Ana Luíza Ciscato “receber uma homenagem é sempre muito bom. Reafirma uma trajetória e traz estimulo para a continuação da mesma.  Um festival que tem como objetivo a visualização da Pluralidade da dança, homenageando um trabalho que busca a profissionalização de bailarinos considerados com deficiência , mostra que um espaço para dança inclusiva está sendo aberto.”   Leitora e Leitor,  percebo que  vocês  não se esqueceram  que  dançar é também  um ato político. E isso é memorável...

 

 

 

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