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Terça-Feira, 20 de Novembro de 2018
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CRÍTICA: Karin Serafin enlaça poesia e política ao devolver nossa própria história

Trabalho novo da artista tem apresentações nesta quarta, quinta e sexta, às 12h30 e 15h

Redação ND
Florianópolis
Malu Rabelo/Divulgação/ND
Ação convida o público a caminhar por parte da avenida Hercílio Luz e relembrar suas histórias, como a do rio da Bulha que percorre a rua, hoje aterrado

POR Anderson do Carmo

Artista da dança e mestrando em teatro na Udesc

           

            Não é de hoje que a galopante urbanização que permitiu à provinciana Desterro tornar-se a turística Floripa é debatida em rodas de conversa Ilha de Santa Catarina a fora. E, felizmente são crescentes, na atividade artística local, ações que convidem os moradores desta cidade a pensar sobre como tal processo é responsável – inclusive – por moldar a subjetividade que compreendem como suas. “Parte da paisagem” de Karin Serafin é um exemplo explosivo de tais ações.

            Na segunda peça solo desenvolvida em parceria com Renato Turnes, a dançarina – uma das fundadoras do Cena 11 que, além de compor a diretoria, é a única intérprete a ter dançado todas as obras coreografados por Alejandro Ahmed – radicaliza os desdobramentos subjetivos que o rigoroso treinamento perceptivo da companhia catarinense lhe deu. O percurso que a artista propõe não é dança, também não é teatro e menos ainda performance. Seu poder aí reside: Karin cria uma coisa para qual ainda não há nome.

            A caminhada que constitui “Parte da paisagem” convida os que a realizam – de forma direta e sem a rançosa retórica que embriaga parte da produção contemporânea – a lembrar do Rio da Bulha. Antes de ser canalizado por Hercílio Luz (1860-1924) esse rio cortava a avenida que hoje tem o nome do antigo governador do Estado. Sucede que este ponto de partida – uma transformação urbana de larga escala levada a cabo pelo poder executivo – é ponto de partida para uma verdadeira cartografia sentimental (numa acidental práxis do pensamento de Suely Rolnik) do centro antigo

Quando se pensa no imenso aterro que afastou do centro o mar justaposto ao atual e precário transporte público da cidade se identifica um projeto higienizador de longo prazo disfarçado de melhoria na qualidade de vida e aposta no potencial turístico da paradisíaca terra que chamamos de casa. O que o cirúrgico pensamento em dança de Karin faz é dar a ver as arquitetônicas mobilidades urbanas coreografadas ao longo das últimas décadas. Nelas se incluem os locais destinados à moradia de ricos (beira-mar) e de pobres (morros), a espera da queda dos imóveis de arquitetura açoriana adquiridos pelos protagonistas da especulação imobiliária e o recentemente revertido – principalmente pela ação dos artistas – esquecimento do espaço público como lugar de revolta e festejo. A agenda urbanista, no entanto, se dá a ver não só em dados verificáveis, mas nas frestas afetivas que são alargadas nas histórias pessoais, de moradores e de passantes. Uma cidade – afinal de contas – constitui pessoas ao mesmo tempo em que por elas é concebida.

A narrativa de Karin Serafin tem o tom certo composto pelas histórias que conta e pelas que decide omitir. Como o mergulho que escandalizou a cidade, aproveitado pelo jovem que viria a batizar a praça Esteves Junior na então Praia do Muller. O final que cronologicamente encerra “Parte da paisagem” – e este “cronologicamente” é fundamental, pois a peça continua se dar permanentemente a cada vez que quem a assistiu circula pela cidade – é de deixar a boca aberta e, com ares de Carrie Bradshaw em final de algum episódio de “Sex and the city” lembra que quem  nos convida para a escavação e põe os fósseis a dançar é a diva de uma geração. Quão clara pode ser a mensagem de uma musa que se coloca no chão?

O percurso para o qual Karin Serafin convida tem lugar nos dias 1, 2 e 3 de junho em sessões duplas. Na página de Facebook do projeto se pode ter informações completas sobre a reserva de ingressos. Os artistas gráficos Camila Petersen, Daniele Zacarão, Gabriel Vanini, Pedro Franz e Rica de Lucca criarão rastros neste percurso, expandindo ainda mais a porosidade da experiência e deixando este que escreve torcendo para que o plano da artista seja realizar (ao menos) uma trilogia.

A coerência com que os recursos agenciados pela dançarina simultaneamente fortalecem as lógicas contemporâneas que ela ajuda a efetivar como saberes e as implodem ao trazer uma temática política, ética e crítica deixa pelas ruas uma provocativa questão: por mais refinada intelectual e formalmente que seja, no Brasil de 2016, a arte teria o direito de não ser – ao menos – politicamente esclarecida? “Parte da paisagem” diz que não: arte é o que ajuda a entender como nos tornamos quem somos.

 

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