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CRÍTICA: Fechamentos de companhias nacionais expõem a urgência de mudar o fazer da dança

Enquanto no Estado, a escolha de investir no modelo de festivais competitivos não contribui para a profissionalização da dança

Anderson do Carmo - Especial para o Plural
Florianópolis
09/09/2016 às 17H29

 

 

O Ballet Desterro nos anos 1980 foi o primeiro núcleo profissional de dança contemporânea na Ilha. Muitos bailarinos ainda estão na ativa, porém as políticas nesses 30 anos não mudaram - Divulgação/ND
O Ballet Desterro nos anos 1980 foi o primeiro núcleo profissional de dança contemporânea na Ilha. Muitos bailarinos ainda estão na ativa, porém as políticas nesses 30 anos não mudaram - Pedro Alípio Divulgação/ND



            A notícia do encerramento das atividades da Quasar Cia de Dança pegou a comunidade da dança de surpresa no último dia 6. O sucedido com o grupo goiano – um dos responsáveis pela revolução estética da dança brasileira dos 90 – é consequência do que vem se chamando nos últimos anos de “editalização” da cultura: aí o que define a agenda dos artistas não é uma urgência criativa, mas as demandas e calendário de editais e prêmios que raramente se prolongam por mais de um ano. No caso do núcleo dirigido por Vera Bicalho e Henrique Rodovalho o patrocínio da Petrobras Cultural era de três anos, mas não teve renovação. Com estreia de nova criação e turnê já agendada os artistas da Quasar já receberam aviso prévio.

            Esse, no entanto, é apenas um exemplo de uma série de acontecimentos que fazem o queixo cair. No final de 2015 o Estúdio Ruth Rachou, de São Paulo também encerrou suas atividades. Carregando o nome de uma das precursoras da contemporaneidade fundada no Teatro de Dança Galpão o espaço, responsável pela formação de gerações da dança paulista, não teve fôlego para a pulverização da formação operante nos últimos anos. Sucedida em parte pelo crescimento das graduações em dança e em parte pelo fato de projetos se desenvolverem ao longo de períodos cada vez mais curtos tal mudança simplesmente não compreende mais a forja de um corpo ao longo de anos de treino.

            Acontece que não se limitam ao encerramento de atividades de artistas consagrados os estremecimentos: em 2015 os críticos associados à APCA não entraram em consenso e em função de disputa de território intelectual a dança passou em branco em uma das premiações de maior visibilidade. Desde 2014 o fim das categorias por linguagem do Programa Rumos Itaú Cultural impactou mais fortemente na dança que de presença marcante e qualificada a cada edição passou a ser exceção dentre os contemplados.

No contexto estadual e municipal também teríamos um bocado a discutir. O Edital Elisabete Anderle, implantado em 2009, em teoria era para ser anual. Sete anos depois se aguarda o lançamento da quarta edição. O Fundo Municipal de Cultura, por sua vez, teve uma única edição. O aguardado curso de dança da Udesc não sai do papel. E os artistas que decidem ficar no estado com este cenário? O que fazem?

Não desistem. Contamos com um cenário pitoresco: em termos de proporcionalidade Santa Catarina é um dos estados que mais tem festivais competitivos de dança no Brasil. Dos cerca de setenta vêm imediatamente a cabeça o imponente Festival de Joinville e o mais recente – mas já estabelecido – Prêmio Desterro. Consequentemente a formação na qual se investe de modo mais robusto é a das técnicas disciplinares e baseadas na reprodução de códigos. Em outras palavras: a dança que tem condições econômicas e estruturais de se desenvolver de modo pleno ainda é a que se pauta na lógica do certo e erro em relação a uma compreensão hegemônica de beleza, não a que procura continuamente demolir e edificar novos modos de pensar, produzir e fruir.

Sucede, no entanto, que “o buraco é mais embaixo”. Se sobram críticas – principalmente do pensamento contemporâneo – ao formato competitivo é inconteste que em níveis municipal, estadual e federal as últimas décadas não representaram uma mudança concreta nos modos de gerir uma profissionalização na área da dança. Como sobreviver como artista da dança fora da lógica de academias e festivais em um ambiente onde os meios de financiamento são tão movediços quanto é possível imaginar? Como este autor que hora escreve já disse em algumas oportunidades o potencial da dança como campo de trabalho, gerador de empregos, movimentação econômica e instauração de novos possíveis no campo estético, educativo e afetivo é absolutamente subestimado. O mais preocupante é que a mudança de prioridades representada pela retirada da presidenta Dilma Rousseff e pela concretização da gestão de Michel Temer se mostra retrocesso desde a extinção do Ministério da Cultura e seu forçado reestabelecimento.

Mais uma vez: quanto tempo um corpo suporta dançar? Muito. E essa é a crença capaz de nos manter em pé: se os artistas que tem por ofício a criação de outras realidades desistirem que poderá suportar a tempestade que ameaça chegar? A questão, no entanto, é: como agir de modo mais político junto do poético? Para começar vale a pena estudar o lugar da arte e da cultura para cada uma das chapas que concorrem a prefeitura no próximo 2 de outubro. É esclarecedor.

 

**Anderson do Carmo é artista da dança e mestrando em teatro na Udesc

 

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