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Crítica: Fase mais iconoclasta de Madonna é visitada por outra perspectiva em documentário

“Strike a pose” visita à vida dos artistas coadjuvantes da “Blond Ambition Tour” e de “Na cama com Madonna”

Por Anderson do Carmo, artista e pesquisador da dança
Florianópolis
20/04/2017 às 20H26

 

Strike a pose” é dirigido por Ester Gould e Reijer Zwaan e lançado em 2016 - Divulgação/ND
Strike a pose” é dirigido por Ester Gould e Reijer Zwaan e lançado em 2016 - Divulgação/ND



É vivida na memória deste que escreve a lembrança do dia em que uma antena parabólica foi instalada na casa dos pais no oeste catarinense. Pouco antes dos anos 2000 finalmente pude assistir a MTV em casa, e em uma das manhãs da infância vez assisti ao videoclipe “Vogue” de Madonna, produzido em 1990.

Duas décadas atrás a internet não era a enciclopédia imediata de hoje e o máximo de informação foram os nomes do álbum para o qual a música fora gravada e o nome do diretor do vídeo: respectivamente “I’m breathless” e David Fincher. Ambos apareciam como legendas na televisão. Os nomes dos dançarinos que preenchiam – baphonicos, diga-se de passagem – o em torno da rainha do pop eram, no entanto, desconhecidos até recentemente.

            “Strike a pose”, documentário dirigido por Ester Gould e Reijer Zwaan e lançado em 2016 visita à vida dos artistas coadjuvantes da “Blond Ambition Tour” e de “Na cama com Madonna” passadas mais de duas décadas do estrondoso sucesso de Madonna arquitetado – principalmente – para uma fiel base de fãs gays mundo a fora.

            Perguntar se a equipe de produção de Madonna se apropriou da imagética gay ou se a comunidade gay abraçou a narrativa vinculada à cantora se converteu em pergunta da série “veio primeiro o ovo ou galinha?”. Talvez a maior das contribuições do documentário em questão, já disponível no catálogo da Netflix e em outros serviços de streaming, é justamente dar a ver o movimento de apropriação cultural de uma produção em dança originalmente LGBT negra e latina objetivando compor um produto cujo rosto é de mulher branca, mas, como é praxe na indústria em geral, leva dinheiro para os bolsos de homens brancos.

            Se popularizou a narrativa, endossada pelo roteiro do documentário, que depois das audições para a turnê a cantora aceitou o convite de José Gutierez e Luis Camacho, dois dos selecionados, para conhecer um “ballroom” de vogue, no bairro nova-iorquino do Harlem. Esses eventos, mistos de festa, competição e ritual eram promovidos por agremiações chamadas de casas, dentre elas a Xtravaganza, de onde vieram os bailarinos. Dessa experiência teria surgido a inspiração para a composição de “Vogue”.

            Ocorre que a obsessão com glamour, fama e celebridade que se eternizam no videoclipe se esvazia de todo o deboche à heterossexualidade compulsória e aos modelos embranquecidos tomados como neutros. A dança vogue emerge nas periferias sociais, culturais, raciais e sexuais dos EUA e sua constante referência àqueles que ocupam o centro das narrativas – sempre besuntada de perfídia e ironia – não é elogio condescende, mas crítica mordaz. Quando tal poética chega à indústria cultural sua dimensão crítica quase se extingue em favor do exotismo. Mas pouca é a diferença que tal problemática acarreta para carreira de Madonna.

            Parte dos bailarinos visitados, como Kevin Stea e Salin Gauwlos, seguem com carreiras ligadas a dança. Oliver Crumes III complementa a renda oriunda de aulas de hip hop no subúrbio de Nevada com a atividade de garçom. Gabriel Trupin morreu pouco depois do fim da turnê em decorrência de complicações com a AIDS, condição com a qual alguns dos bailarinos vivos seguem a vida.

            Apesar do discurso de apoio a comunidade gay e a campanhas de arrecadação de fundos para pesquisas sobre HIV e AIDS, fato que chama atenção é quando os bailarinos portadores do vírus revelam jamais ter partilhado tal informação durante a turnê que – supostamente – apoiava os indivíduos em tal condição. Impacta também o número de processos que a equipe de Madonna sofreu por moção dos bailarinos, por uso indevido de imagem, por forçar a “saída do armário”, por não pagar adequadamente todos os serviços prestados.

            Assistir “Strike a pose” desencadeia uma alegria melancólica, principalmente em quem tem na trilha sonora da própria jornada de compreensão de quem se é inúmeras músicas desta fase de Madonna que – no fim das contas – acaba apresentada mais como “business woman” vampiresca do que como artista que canaliza os pontos nevrálgicos do debate de seu tempo.

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