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Sexta-Feira, 21 de Setembro de 2018
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Crítica: Espetáculo flamenco “Aire” cumpre o objetivo do gênero de dança, de provocar emoções

Trabalho dirigido por Carol Ferrari foi apresentado no dia 2 de julho, no TAC

Redação ND
Florianópolis
Fábio Rosa Battaglin/Divulgação/ND
Precisão nos movimentos das bailaoras

POR Ida Mara Freire 

Pós-doutorado em dança, Universidade da Cidade do Cabo África do sul

O leitor e a leitora, provavelmente, já reconhecem que o flamenco emociona por traduzir na intensidade da voz e na sustentação do silêncio no corpo, aquilo que se principia na resignação do vivido e da dor e se desdobra em liberdade, rebeldia e alegria, evidenciando com isso o estilo cigano de entender a vida. Semelhantemente, as 307 pessoas presentes no TAC (Teatro Álvaro de Carvalho), na noite de sábado, 2 de julho, ao apreciarem o espetáculo “Aire”, da Escola de Flamenco Carol Ferrari, constataram  como a essência do flamenco consiste em provocar emoções.

Talvez, a plateia tenha notado a combinação das cores de saias e vestidos com suas texturas, babados e estampas peculiares da moda flamenca.  Quem não estaria atento aos cabelos impecavelmente arranjados com uma flor ou uma delicada peneita. O espectador interessado na precisão da gestualidade espelhada na eficácia musical,  pode ter  se surpreendido  com o  duo no ritmo dos jaleos, no qual as sapateadoras  intercalavam seus passos com as distinguíveis  células rítmicas do báston (bengala);  ou ainda  tenha preferido atentar para a  sonoridade vibrante e sútil do cajón, particularizada pela invisibilidade de suas cordas. Diante do desenho coreográfico do baile, assertivamente iluminado por Marcello Serra, o público saboreia o fruto da repetição laboriosa manifesta na criação do espetáculo da única escola do Estado, onde  Carol Ferrari, Chari Gonzalez e Marília Cartell e Rodrigo Campos se dedicam a ensinar  a arte  flamenca para um grupo de aproximadamente 60 alunos, incluindo  adultos e crianças.

Fábio Rosa Battaglin/Divulgação/ND
Figurino é um trabalho à parte: saias e vestidos com texturas, babados e estampas da moda flamenca

A direção artística assinada por Carol Ferrari confere ao espetáculo “Aire” uma fidelidade criativa do flamenco, presente em seu vocabulário específico e na clássica estrutura do compás (compasso):  o cante vigoroso de Ozir Padilha, os acordes singulares da guitarra de Pedro Perera, e a percussão vivaz do cajón de Rodrigo  Campos, acompanhados dos palmeiros e do baile. O percurso  geográfico dos estilos  musicais delimita os lugares do corpo social  que o dançar desencerra: tangos de Granada,  tangos de Triana, fandangos  de Huelva,  Sevillana.  As crianças  preenchem o palco festivamente,  no ritmo  animado característico da métrica dos  tanguillos. A exuberância das 14 bailaoras,  com suas castanholas demarcam no tempo e no espaço os acentos melódicos dos fandangos, mantendo cativa  a  percepção do espectador.

Se atentarmos para as letras das músicas, escutaremos, no solo dançado por Marília Cartell, um palo de alegrías, repertório de criação cigana, que fala do lugar que se vai para  obter  o que se busca. No solo da bailaora  Chari Gonzalez,  um palo de tarantos,  o movimentar de seu corpo, seus passos aterrados no chão,  o instante contido  nas palmas de suas mãos, configuram em poesia a vida dura dos trabalhadores das  minas, para quais as estrelas da alva escurecem, e em vão esperam a luz que surge do amanhecer.  

Fábio Rosa Battaglin/Divulgação/ND

 

“O espetáculo ‘Aire’ foi realizado por aprendizes e por profissionais, por pessoas cheias de coragem e força,” comenta Carol Ferrari ao definir essa palavra que  fala sobre a expressividade tão peculiar ao flamenco. É esse Aire que transforma a dança e também transforma quem dança, ao descobrirem no palco potencialidades que levam para a vida e descobrirem na vida coisas que levam para o palco.  É este Aire que nos une e mostra no corpo a cartografia da emoção.

 

 

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