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Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2018
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CRÍTICA: Em sua individual, em O Sítio, Fernando Lindote impacta com série de óleos sobre tela

Artista de grande repertório transita com desenvoltura nas principais discussões da arte contemporânea

Redação ND
Florianópolis
Flávio Tin/ND
Exposição de Lindote, Guerra! E a necessidade de fazer pontes, pode ser apreciada até o dia 27 de agosto. Nesta quinta (18), o artista participa de uma conversa

 

Por João Otávio Neves Filho,  Janga

Critico de Arte,  membro da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte)

 

Fernando Lindote é um dos raros artistas que sem repetir-se jamais, transita com desenvoltura e de forma muito marcante, pelas principais vertentes da arte contemporânea.

A experimentação plástica, aliada a uma inesgotável capacidade criadora, levou-o a  recorrer em diferentes fases,  aos mais diversos materiais,  procedimentos e suportes.

Em sua individual que esta acontecendo na galeria Sítio, através de impactante série de óleos sobre tela,  articula contundente libelo plástico contra todas as formas de opressão, violência e brutalidade que emanam do centro de um sistema injusto,  desumano e cruel.

A exposição organiza-se em torno de dois núcleos: num deles, colocado logo a entrada, imagens metafóricas de símbolos do poder erguem suas torres fantasmagóricas em meio a vermelhidão de um campo de guerra minado, atravessado por tanques blindados.

Outra tela de igual dimensão, toda em branco e preto, apresenta as mesmas imagens sinistras da praça dos Três Poderes com seus ícones inconfundíveis, corroídos, transformados em carcaças e  escombros. Essas estruturas apocalípticas que desabam sobre si mesmas recortam-se contra um fundo negro, que reproduz em relevos da tinta empastada silhuetas do Pão de Açúcar e da Baia de Guanabara, numa busca patética de luz.

O outro núcleo da mostra, organiza-se em torno da grande tela que representa a figura inquietante de um suíno multicolor de pé, posando à maneira dos retratos oficiais dos grandes mandatários. Na parede ao lado, perfilam-se em pequenas telas irônicos “auto-retratos com máscara de porco”.

Na ambivalência representativa dos símbolos e metáforas que utiliza, Lindote sabe evitar o tom discursivo, permitindo sempre que os elementos formais sejam os protagonistas da obra.

Valendo-se dos recursos expressivos tradicionais da técnica da pintura a óleo, transforma, a partir da aplicação de texturas, cores e veladuras, a superfície das telas em campos magnéticos, em torno dos quais gravitam outros signos.

Tensões espaciais reveladas em todo seu poder sugestivo, planos e cores simplificados ao extremo, estruturam-se visceralmente, estabelecendo o drama plástico que desvela toda a extensão da tragédia contemporânea.

Colocando-se não como ator da cena, mas sim como testemunha perplexa de um mundo dilacerado, o artista mantém metafórica distância  em relação ao tema, que lhe permite delimitar pela própria estrutura formal, a significação dos símbolos adotados, de maneira que persista  a autonomia plástica e coexistam significados emocionais diversos  ou mesmo contraditórios.

A pintura que encerra a exposição é uma surpreendente e magistral natureza morta. Buscando na melhor tradição do gênero os símbolos da efemeridade da vida, da ressurreição e da morte, o artista  criou um conjunto  de trágica e deslumbrante beleza.

Sob a iluminação barroca de um céu tormentoso, onde apenas uma nesga de azul aparece, um crânio invertido serve de pedestal para uma borboleta furta-cor.

No canto direito da tela, envolta em luminosas e transparentes veladuras, num grito de luz e de esperança, uma flor esplêndida desabrocha. Formula plasticamente premissas básicas para a construção de um novo homem e do advento de uma nova humanidade...

 

Serviço

O quê: “Guerra! E a necessidade de fazer pontes”, por Fernando Lindote
Quando: de 5 a 27/8. 18/8, 19h, Conversa com o Artista
Onde: O Sítio, rua Francisca Luiza Vieira, 53, Lagoa da Conceição, Florianópolis
Quanto: gratuito 

 

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