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Crítica: "DNA de Dan" evidencia compromisso do Sesc com arte que não faz concessões

Instalação coreográfica do ator Maikon K foi trazida à Florianópolis pelo Festival Palco Giratório Palco Giratório Sesc e apresentada na terça (8)

Anderson do Carmo - Artista e pesquisador da dança. Doutorando pelo PPGT-UDESC. Investiga estéticas e epistemologias gay/queer/bicha
Florianópolis
12/08/2017 às 11H29

Nada é facilmente distinguível em “DNA de Dan”, instalação coreográfica de Maikon K trazida à Florianópolis pelo Festival Palco Giratório: vida e morte; humano e animal; dentro e fora; ser parido e desencarnar; a miudeza do ovo e a imensidão do mar. Não é ocupar um desses extremos o que o artista de Curitiba faz, mas sim esgarçar o minúsculo espaço no qual um algo nem deixou de existir e algo outro principiou a ser.

Se há comparação operante para a obra é com a peçonha da serpente: ela tem potência de matar e é dela também a potência de curar quem foi envenenado. A dança-peçonha de Maikon não nos penetra por meio de mordidas, mas pelo ar que por nossas vias respiratórias entra depois de deixar os pulmões do artista.

Dança-instalação “DNA de Dan”, do ator Maikon K, foi apresentada no Ceart na última terça, dentro do festival Palco Giratório Sesc - Marco Santiago/ND

Dança-instalação “DNA de Dan”, do ator Maikon K, foi apresentada no Ceart na última terça. Trabalho foi polêmico na apresentação em Brasília, quando ator chegou a ser detido por ato obsceno - Marco Santiago/ND


Ao arrastarmo-nos para o interior da estrutura inflável que o envolve nos convertemos em fronteira viva, epiderme arrepiada de um corpo nu. Na verdade nem tão nu assim em uma segunda mirada.

A respiração curta do artista afasta uma porção morta dele próprio vivo. O silencio profundo é profanado pelas rachaduras da pele morta que a serpente-dançarino está a trocar. Infinitos corpos descamam e se revelam a partir do corpo que nos atiça ao serpentear o chão do não-lugar em que entramos. A dramaturgia tecida por Maikon é poderosa, pois converte cada indivíduo que a frui na pele mesma que se despedaça. A cobra na qual Maikon se converte não prepara o bote para abocanhar os que a foram assistir, mas para testar sua pele nova. Ritual Íntimo e majestoso: vemos, ouvimos, cheiramos e tocamos a criatura a se despedaçar até se fazer outra. Transformamo-nos em pele nova que por ventura também precisará ser abandonada. Quem nunca sentiu que já não cabia mais em si?

Este autor que aqui escreve admite: é impossível pôr em palavras “DNA de Dan” de modo objetivo. A poesia é fatal. Bruxaria, sonho, alegoria. “DNA de Dan” é alquimia. E falando em bruxas: quem dos que aí estão a ler está familiarizado com a inquisição? Onde as não compreendidas eram queimadas vivas?

Não por acaso – mas justamente pela capacidade de instaurar uma realidade outra – Maikon K responde processo no Distrito Federal. Há menos de um mês esta mesma obra foi denunciada por “ato obsceno” ao ser performada em frente ao Museu Nacional da República. Policias militares o agrediram, danificaram sua instalação, desconsideram todos os documentos que comprovavam a legalidade previamente acordada entre a instituição que promovia o evento – Sesc – e a cidade Brasília. Um artista preso por fazer arte. Familiar? Uma prisão por obscenidade na cidade que abriga os três podres poderes que só nos fazem desserviços. Ironia? Mais de 100 pessoas a espera dos ingressos por mais de uma hora no Ceart: esperança.

Além e aquém de fetichizar Maikon K como herói nesse eco da censura truculenta e militaresca teima em ressoar, é como selvageria artística que se deve mirar “DNA de Dan”. Fundamental encerrar esta escrita envenenada pela dança peçonhenta evocando a mais mística de todas as serpentes: Oxumarê. O orixá da fortuna das religiões afro-diaspóricas é arco-íris que transpassa o céu em dia de sol e chuva. Oxumarê é serpente que troca suas peles na água da chuva e no fogo do sol. É boniteza emergente de um contexto quase triste no qual a chuva espanta o sol. Por mais gelada que seja chuva de retrocesso que está aí nos gelar os ossos é certo que o sol brilhará. É certo que a serpente-arco-íris nos arrancará um sorriso.

Obrigado pelas muitas mortes, Maikon. Obrigado pelas muitas vidas. Arroboboi, Oxumarê!

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