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Quarta-Feira, 19 de Setembro de 2018
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Crítica: Diana Gilardenghi e Sandra Meyer convidam a recriar as relações com nossa cidade e época

Artistas que escolheram viver em Florianópolis fizeram uma série de intervenções artísticas entre o mês de maio e julho para refletir as lembranças de uma cidade que não existe mais

Redação ND
Florianópolis
Clara Meirelles/Divulgação/ND
Pensar a (precária) cidade. As artistas Diana Gilardenghi e Sandra Meyer fizeram seis ações de dança na cidade. Esta, acima, na Ponta do Coral

 

POR ANDERSON DO CARMO

*Artista da dança e mestrando em teatro na Udesc. Começou a dançar nas aulas de
Sandra Meyer.

 

A dança como lugar de intensificar relações estabelecidas com o mundo e não como momento de escapar de uma realidade que se apresenta demasiado árida. É assim que se pode começar a pensar o projeto “Corpo, tempo e movimento em seis ações de dança”, proposição das mais paradigmáticas na dança recente de Florianópolis. Sua potência inicia na concepção, quando as articuladoras Milene Duenha e Paloma Bianchi reparam no que poderia surgir de uma parceria entre Diana Gilardenghi e Sandra Meyer.

Pode-se imaginar que não é nada de mais pensar que essas artistas fariam algo de qualidade juntas. Mas é uma grande coisa sim entender quais das muitas possibilidades desta parceria teriam condições de qualificar o enlace de duas trajetórias tão singulares quanto viscerais. E mais: quais reverberariam em Florianópolis? Quais adensariam 2016? O conjunto de ações – mais do que cada uma delas individualmente – parece dizer que as possibilidades artísticas que merecem ser realizadas são aquelas que além de nos permitir entender como nos tornamos quem somos nos permitem também entender que temos condições de criar novos modos para continuar a existir.

A sequência das ações propôs um movimento que partia do privado e individual das artistas – suas trajetórias, seus currículos, o que em volta delas sucedia enquanto se tornavam artistas – para o público e coletivo – coreopolíticas no urbano operantes, sociedade como espetáculo –  propondo que cada habitante da Ilha de Santa Catarina seria espécie de intérprete de uma ficção que se convencionou como sendo real. E na qual poderíamos gerar curva dramática mais pertinente.

O mais poderoso na provocativa lógica que as artistas nos convidam a – junto delas – instaurar na fruição das obras é a dança progressivamente se afastar de um fazer vaidoso em relação as capacidades corporais para se aproximar de uma ação perceptiva, de reflexão e que pode desembocar na transformação das relações já estabelecidas.

Isso acontece não apenas pela ousadia na escolha de espaços nos quais se dão as performances (dentro do mar-fossa que se tornou a Beira-Mar, na disputada Ponta do Coral ou nas dunas da Joaquina), mas pelo que nestes lugares é feito. A Ação 3, intitulada “LINHAMAR”, por exemplo, sucedeu nas imediações do Largo da Alfândega e consistia no questionamento realizado por Diana e Sandra aos passantes sobre até onde vinha o mar antes do segundo aterro realizado na Baia Sul em 1978. As estratégias poéticas utilizadas – uma caixa de som “disfarçada de bolsa” emitindo inicialmente sons de ondas que quebram para depois amplificar depoimentos previamente colhidos em resposta à mesma pergunta – apesar de impactantes não são o ponto de chegada, mas de onde se parte para desencadear uma coreografia fantasmagórica e nas lembranças dos que se dispõe a conversar. 

Simbolicamente se faz presente um tempo já passado e que não voltará. Concretamente as artistas não criam nada, apenas dão a ver o muito que já está posto na cidade, e a força aí contida se assemelha aquela que imaginam os que dizem que o mar voltará a engolir a terra que lhe tomaram. Nesta ação em específico havia “pouco” para ser visto. O que lhe adensava certamente não era uma dimensão espetacular, de entretenimento ou de beleza a ser desfrutada, mas a precariedade e a delicadeza de uma lembrança que faziam o papel de convite à construção de um acontecimento estético.

Um jornal inteiro não daria conta de refletir suficientemente a coerência que as quatro artistas e todos seus parceiros (incluindo a audiência sucessivamente mais engajada) articulam na coreografia que põe Florianópolis a dançar ao longo do mês em que sucede. Mas algo que se pode afirmar com considerável certeza é que tomar o projeto “Corpo, tempo e movimento” como provocação as práticas artísticas desenvolvidas na Ilha é escolha acertada para reinventar vínculos éticos e estéticos com nossos ofícios. Se duas trajetórias sólidas como as de Diana e Sandra aceitam os desafios iconoclastas que Milene e Paloma propõem todos nos poderíamos abraçar o desafio preliminar de responder a uma perguntinha: o que é estar aqui?

 

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