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Segunda-Feira, 24 de Setembro de 2018
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Crítica de artes visuais: João Otávio Neves Filho analisa exposição de Luciano Martins

Segundo o crítico, obras do artista no Masc pretendem dar ao kitsch status de ‘grande arte’

Redação ND
Florianópolis
Marco Santiago/ND
Exposição com obras do pintor Luciano Martins ocorre no Centro Integrado de Cultura, em Florianópolis


João Otávio Neves Filho – Janga

Membro da ABCA-AICA - Associação Brasileira de Críticos de Arte

Diante de alguns pedidos para que me manifestasse sobre as obras de Luciano Martins expostas no Centro Integrado de Cultura e sobre o recebimento de visitas de escolas, resolvi escrever. Parece-me que uma mostra com tais características seria inadmissível no Museu de Arte de Santa Catarina; já no espaço Lindolf Bell não vejo problemas. Quanto à visitação dos estudantes, tudo bem, desde que se esclareça aos jovens que o que vão apreciar são cartuns pintados por um publicitário que decidiu enveredar por outras áreas e não obras de arte propriamente ditas. De modo geral, os trabalhos de Luciano são blagues divertidas e por certo agradam à garotada com suas cores de pirulito e seu clima de descontraído humor.

A ambientação da mostra por si já torna clara a proposta do autor direcionada para o entretenimento de massa, com sua característica frivolidade. Um tapete vermelho e um grande portal recebem o visitante, dando-lhe a impressão de estar entrando num colorido parque de diversões - faltou o carrossel com os cavalinhos. Aliás, se formos enfocar o aspecto lúdico dessa mostra, entre as obras expostas há uma que se destaca: ”Pinóquio”, com sua original moldura de madeira que sugere uma mesa de marceneiro, aponta para um outro caminho que o autor poderia trilhar, caso pretendesse abandonar os surrados macetes publicitários que funcionam para cartuns, camisetas, logomarcas, objetos, gadgets, mas que definitivamente são incompatíveis com as questões básicas e estruturais da arte. Outro trabalho que poderia resultar em soluções formais mais consistentes é o que se refere aos mosaicos de São Marco.

Talvez o que mais irrite os mais esclarecidos seja a pretensão desse tipo de manifestação ser encarada como a “grande arte”. Um texto de apresentação da mostra colocado logo na entrada não deixa dúvidas. Num anacronismo gritante, o autor do texto declara-se membro de uma “academia de belas-artes”. Ora, a simples palavra academia no século 20 já era risível, e acrescida do termo “belas-artes” chega a ser patético.

Como estamos numa província, é sempre bom lembrar que boa parte do público não tem a menor condição de distinguir “alhos de bugalhos”. Daí o perigo que o kitsch representa, pois ao se fazer passar por arte acaba confundindo aqueles que por falta de informação e vivência confundem pintura com tintura, ilustração ou decoração inconsequente com obras portadoras de reflexão e significado.

A obra de arte genuína é fundamentalmente ambígua, nela convivem a pluralidade dos significados num só significante. Já o kitsch é por demais óbvio, é feito para vender e para agradar ao gosto médio dos que não querem ou não conseguem refletir. O kitsch atende à demanda coletiva de consumir arte por parte do imenso público socialmente ascendente, mas que ainda não teve oportunidade de aprimorar suas informações a ponto de distinguir a arte genuína dos arremedos que se apresentam como tal. O brilho do kitsch é falso, e na sociedade de massas em que vivemos ele se expande de forma avassaladora e inexorável, invade cada canto, espaço e aspecto de nossas vidas cada vez mais frívolas e sem significado.

Com suas cores alegres e decorativas, com suas formas estilizadas, a mostra em questão é feita sob medida para enfeitar salas e saguões de quem não quer dar trabalho à sua massa cinzenta. Trata-se de um prato feito, cheio de cacoetes e macetes dos afiches publicitários que se repetem à exaustão. As pretensas releituras de ícones das artes plásticas são simplórias, frívolas e gratuitas. Em suas reinterpretações equivocadas retiram qualquer possível significado das obras abordadas, explicitando o que citamos acima sobre a pretensão de o kitsch ser encarado como arte verdadeira.

Percebe-se claramente no conjunto das obras que o autor não tem nem o olhar nem a pegada do artista plástico genuíno, mas sim o de um publicitário e ilustrador. Não é pecado nenhum ele fazer seus trabalhos, expô-los e vendê-los ao imenso público que com ele se identifica. Faz-se necessário, porém, deixar bem claro que trabalhos com essas características de indústria de entretenimento, assim como os de Romero Brito, tão incensados pela mídia, nada têm a ver como com o verdadeiro circuito das artes visuais. A arte genuína, a arte com A maiúsculo, estrutura-se e afirma-se a partir de pressupostos básicos que em momento algum confundem-se com propostas como essa.

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