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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Crítica: Ação em Florianópolis tangencia discussões de gênero nas artes visuais

Encontro “Por Isso (não) Provoque” propõe uma análise da cena curatorial brasileira a partir do olhar feminino

Néri Pedroso
Florianópolis
Divulgação/ND
“O Impossível”, um bronze fundido em 1940 por Maria Martins, tema da fala de Raúl Antelo

 

Por Néri Pedroso - jornalista, filiada à ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte).

Há sempre um ponto de interrogação na história da arte quando se pensa o feminino. Antes alijadas da produção, depois esquecidas no universo acadêmico e nos museus que custaram a lhes dar espaço, vítimas dos sintomas históricos e sociais, as mulheres também tiveram que lutar nesse universo contra as barreiras sexistas. Artemisia Gentileschi (1593-1653) é pioneira. Curiosa sobre a anatomia masculina, foi acompanhada desde jovem pelo pai, o pintor Orazio Gentileschi. Mais do que pelas pinturas, ela ficou conhecida por, em 1612, ter de ir à corte, devido à suspeita de estupro cometida pelo seu professor Agostino Tassi. Em atroz avanço temporal, outro dado: o MoMa (Museu de Arte Moderna) de Nova York só em 1982 realizou a primeira retrospectiva de uma mulher, quando se abriu à instigante produção de Louise Bourgeois (1911-2010).

Na esteira dessas reflexões, é possível pensar o projeto da produtora Denise Bendiner que conquistou o Prêmio Funarte Mulheres nas Artes Visuais 2014 com “Por Isso (não) Provoque”, encontro que ocorrerá no dia 21 de março, na Fundação Badesc, em Florianópolis.

O evento propõe uma análise da cena curatorial brasileira a partir do olhar feminino, da interlocução de curadoras, críticas e artistas de diferentes gerações e regiões. A ideia é discutir questões políticas e estéticas determinantes no circuito contemporâneo, além de proporcionar o intercâmbio e a troca de experiências. Outro interesse, de acordo com Bendiner, é possibilitar a formação de redes colaborativas alternativas às instituições oficiais.

Os convidados, todos de renome, são Janaina Melo (MG/RJ), Marilia Panitz (DF), Marisa Mokarzel  (PA), Lia Chaia (SP), Juliana Monachesi (SP), Priscila dos Anjos (SC) e Raúl Antelo (SC). Embora o viés discursivo não busque um recorte feminino, as falas inegavelmente irão tangenciar essa ambivalência. A artista Priscila dos Anjos vem de Joinville para apresentar uma performance e Antelo, professor titular de literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, autoridade internacional, falará sobre Maria Martins (1894-1973), escultora brasileira que manteve uma relação amorosa com Marcel Duchamp. Seu livro “Maria com Marcel: Duchamp nos Trópicos” (EdUFMG) revela um alto grau de erudição, ousadia e investimento em pesquisa.

 Sem dogmatismo

“Por Isso (não) Provoque” representa uma rara oportunidade para aprofundar a discussão sobre a produção de artes visuais sob um novo prisma, não o do feminismo dogmático. Na sua concepção, há o desejo de ampliar o conhecimento sobre a contribuição feminina na história da arte.

Lia Chaia, uma das convidadas, diz que para melhor apreender um determinado fenômeno é preciso vê-lo em sua diversidade e nas diferenças. Para ela, o debate sobre os problemas que cercam a condição feminina sempre resultará em novas abordagens sobre a subjetividade e os obstáculos sociais. A artista falará sobre os próprios trabalhos, que discutem o corpo humano nas paisagens natural e urbana, seus limites e potencialidades na arte e na cultura. “No vídeo ‘Desenho-corpo’, trato o corpo como suporte para a linguagem e na série de fotografias ‘Madrugada’ discuto a sexualidade, a resistência e o desafio da mulher na cidade.”

A pesquisadora Marisa Mokarzel lembra que apesar das conquistas, as mulheres ainda se locomovem em terrenos contaminados pela discriminação. Segundo ela, reunir mulheres para promover discussões sem a abordagem de gênero delineia uma postura afirmativa das condições igualitárias de posicionamentos, análises críticas e demarca um lugar do fazer e de pensamento como importante contribuição no universo da arte e da vida. “Mas se ainda precisamos nos reunir para afirmar nossas posições isso denota que se trata de um terreno que se firma na instabilidade.” Em Florianópolis ela retomará a discussão de que a arte atua em um campo fora de si, no atravessamento com outras linguagens ou área do conhecimento.”

Sem oposição, sem intervalos entre o que é biológico e sociabilidade, o diálogo a partir desses olhares dará visibilidade a uma poética muitas vezes relegada, deixa para trás uma imagem aprisionada, a serviço do sexo masculino, em que a representação feminina retrata seres à espera, sedutoras, submissas, marcadas por uma iconografia de solidão.  

Integração

O evento disponibiliza transporte gratuito de Criciúma, Itajaí, Blumenau, Joinville e Lages até Florianópolis para promover a integração dos artistas do Estado. Caso outras cidades tenham interesse, poderão verificar a disponibilidade em: parametrocultural@hotmail.com

Convidados  

Janaina Melo (MG/RJ), Marilia Panitz (DF), Marisa Mokarzel  (PA),  Lia Chaia (SP), Juliana Monachesi (SP), Priscila dos Anjos (SC) e Raúl Antelo (SC)

Serviço

O quê: Seminário Por Isso (não) Provoque

Quando: 21/3, 13h30 às 20h30

Onde: Fundação Badesc, rua Visconde de Ouro Preto, 216, Centro, Florianópolis, tel.: 3224-8846

Quanto: Gratuito

 

 

 

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