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Criado por lei, Museu do Carnaval de Florianópolis não existe mais e acervo é desconhecido

Ninguém sabe o destino da instituição, que tinha peças doadas por escolas de samba e carnavalescos e guardava a memória da folia na cidade

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
05/03/2017 às 20H39
Fotografias disponíveis na Comcap e na Casa da Memória mostram como eram o museu - Arquivo Comcap/Divulgação/ND
Fotografias disponíveis na Comcap e na Casa da Memória mostram as peças que tinham no Museu do Carnaval- Arquivo Comcap/Divulgação/ND



Criado pela lei ordinária 4.810/95, na gestão do ex-prefeito Sérgio Grando, o Museu do Carnaval é mais uma boa ideia que Florianópolis enterrou devido ao pouco apreço pelas coisas da cultura e da história. A instituição que deveria guardar fantasias, manequins, bandeiras, placas, desenhos, discos, instrumentos musicais, fotografias e troféus relacionados à folia foi se desmantelando a partir do momento em que não se encontrou um local que a sediasse definitivamente. Ou seja, morreu por inanição – e até hoje não se sabe onde foi parar o acervo, doado por escolas, blocos e carnavalescos que decidiram contribuir para a guarda da memória dos carnavais na cidade e no Estado.

O museu levou o nome do Hilton da Silva, o Lagartixa (1925-1997), o rei momo mais célebre da Capital, e funcionou inicialmente no Portal Turístico de Florianópolis, situado na cabeceira continental da ponte Pedro Ivo Campos, junto à Secretaria de Turismo. Depois, entre 2010 e 2011, ocupou um espaço na Casa de Câmara e Cadeia, futuro Museu da Cidade (hoje, as obras em fase de conclusão), de onde foi para o Museu de Lixo da Comcap (Companhia de Melhoramentos da Capital), no bairro Itacorubi. Mesmo com a determinação dada pela lei nº 8.844/12, não chegou a ser instalado na Passarela Nego Quirido, onde ocorre o desfile anual das escolas de samba.

O museu não permaneceu no Itacorubi, por falta de espaço, e foi devolvido à Prefeitura, à exceção de duas belas fantasias (que podem ser de passistas ou dos desfiles do Baile Municipal do clube Doze de Agosto) e de duas fitas VHF com o programa “Bar Fala Mané”, que o jornalista Aldírio Simões apresentava na televisão na década passada.

Dali para frente, o destino do acervo está envolto em mistério. Fontes oficiais do município dizem que o museu “está inativo”. Fotos disponíveis na Comcap e na Casa da Memória, vinculada à Fundação Franklin Cascaes, mostram as peças jogadas a esmo, espalhadas pelo chão, antes de serem retiradas da Casa de Câmara. Algumas delas têm a presença de Oswaldo Gonçalves, o Dico, carnavalesco que ganhou muitos prêmios nos concursos de melhor fantasia e originalidade no Baile Municipal. Peças de Carlos Magno que decoraram o Carnaval da Ilha também faziam parte do espólio.

Evandro de Oliveira, do Departamento de Eventos da Secretaria de Turismo, informa que muitas peças foram resgatadas pelas famílias que as doaram a partir de 1995, quando o museu foi fundado. Outras se deterioraram quando a Casa de Câmara entrou em obras, várias vezes interrompidas, e virou abrigo para moradores de rua. A morte do carnavalesco Luiz Carlos Santana, mentor e entusiasta do projeto, sepultou de vez o museu. “O museu era a vida dele”, afirma Evandro de Oliveira.

O estado do acervo do Museu.  Dico foi um famoso carnavalesco da cidade - Arquivo Comcap/Divulgação/ND
O estado do acervo do Museu. Dico foi um famoso carnavalesco da cidade - Arquivo Comcap/Divulgação/ND



O Carnaval tratado como arte

Artista plástico autodidata, Valdinei Marques testemunhou a tentativa de instalar o Museu do Carnaval como um anexo do Museu do Lixo. O ano era 2007, quando o presidente da Comcap, José Nilton Alexandre, conhecido como Juquinha, recebeu um pedido da Câmara de Vereadores para retirar as peças do prédio da praça 15 de Novembro, que seria restaurado. A solução foi guardar temporariamente o acervo no Centro de Valorização de Resíduos, nome oficial do Museu do Lixo. O material chegou em sacos plásticos e continha peças bem conservadas ao lado de outras sujas e mofadas pela umidade.

“Algumas peças precisaram ser limpas e escovadas”, conta Valdinei, que é arte-educador, ex-coordenador e monitor do Museu do Lixo. Depois de serem expostas durante mais de dois anos, elas foram guardadas em caixas e devolvidas à Prefeitura entre 2011 e 2012, pelos seus cálculos. A intenção era levar o acervo para a Passarela Nego Quirido, local que sediaria a Cidade do Samba e o Museu do Carnaval. O projeto não evoluiu, e hoje não se sabe se as fantasias se perderam, estragaram ou foram jogadas fora. A construção da Cidade do Samba e do museu está nos planos da Liesf (Liga das Escolas de Samba de Florianópolis), conforme adiantou ao ND, em 2015, o presidente da entidade, Joel Costa Junior.

“Carnavalescos vieram aqui para ver as peças e falaram que a Comcap tratou o Carnaval como arte, ao contrário de outros, que o trataram como lixo”, diz Valdinei Marques. Havia fantasias com valor estipulado em R$ 60 mil, o que suscita a ideia de roubo durante o período em que o material esteve na Casa de Câmara. Este ano, os funcionários da Comcap que trabalharam no Carnaval saíram com adereços feitos com sobras de material dos carnavais anteriores doados pelas escolas de samba.

 

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