Publicidade
Quinta-Feira, 15 de Novembro de 2018
Descrição do tempo
  • 27º C
  • 20º C

Cozinha é ateliê complementar de João Dias, o Dão, na Enseada do Brito, Palhoça

Em meio a esculturas, mosaicos, pinturas, fogões, panelas e simplicidade da natureza, artista elabora os próprios temperos para alimentar corpo e espírito

Edson Rosa
Florianópolis

Eduardo Valente/ND
João Dias, o Dão, no Caminho de Nazaré, espaço na Enseada do Brito onde cria suas obras de arte, encontra sua religiosidade e também cozinha

Os frutos do mar são a especialidade dele, mas o tempero para o tatu bovino recheado com cenoura, gengibre e linguiça também tem a pitada exclusiva do artista. Aos 57 anos e com aparência de garotão, João Dias, o Dão, faz da cozinha uma espécie de ateliê complementar, onde, em meio a fogões a lenha, panelas, pinturas, mosaicos e esculturas, prepara os próprios condimentos para experimentações culinárias que sempre dão certo.

“A cozinha proporciona a possibilidade de criar, de nos alimentarmos com arte”, diz. Depois, deixa para marinar a carne que servirá no dia seguinte a um grupo de “bruxas amigas” que passou o fim de semana no Caminho de Nazaré, centro de vivência e retiro criado há 14 anos numa das vilas de pescadores de Enseada do Brito, Sul de Palhoça.

O alimento, na definição de Dão, é a essência da vida. E casa com cozinha ampla, mesa grande e muitas cadeiras é sinal de integração, de famílias que preservam o hábito de receber amigos e parentes. “Infelizmente, com a correria urbana o que prevalece nas cidades é a cultura do fast food e do individualismo”, observa.

A espiritualidade está ligada à vida e obra do artista, que, desde menino se encanta com o colorido, as figuras e cantorias do Divino.

Devoto da simplicidade, Dão encontra na natureza a religiosidade do menino que cresceu católico. Busca inspiração nas pessoas, nos pássaros, no vento e na chuva, nas flores e, é claro, nos aromas da culinária.

Atualmente, divide momentos de criação com administração do centro de vivência, área de 6.400 m2 ocupada por obras de arte, árvores, flores e espiritualidade. A estrutura tem alojamento com 80 leitos, cozinha e refeitório coletivos, auditório, capela ao ar livre, mandalas, mesa de fogo e trilhas entre árvores, jardins à beira de um dos afluentes do rio Cambirela, com água cristalina.

Tudo ao lado do ateliê do artista. É um espaço para católicos, evangélicos, xamânticos ou para quem não tem religião. “É a minha igreja, para quem gosta de paz. Minha maior obra”, define.

Orgulho da simplicidade

Nascido na maternidade Carlos Corrêa, na Ilha, e criado até os sete anos em Palhoça, Dão é daqueles manezinhos que se orgulham das origens simples. O pai era dono do restaurante Bossa Nova, na Francisco Tolentino, ao lado do Mercado Público, e parte da infância e adolescência se passou entre a calmaria da Enseada e as novidades do centro histórico da Capital.

Até que restaurou a casa açoriana da família, na praça da igreja e, a partir de 1980, passou a se sustentar da própria arte, produzida ali mesmo, na Enseada. “Hoje, está cada vez mais difícil, as grandes galerias foram fechadas. Pouca gente tem acesso, e interesse”, diz.

Autodidata, a origem religiosa é evidente na obra de João Dias. “Sou apaixonado pela figura de Jesus Cristo.”

Autor da via sacra exposta na matriz de Palhoça, tem obras espalhadas pelo mundo – Japão, Estados Unidos, Inglaterra, Portugal, Itália, “e por aí afora”. É o criador, concursado, do troféu do NEA (Núcleo de Estudos Açorianos), entregue anualmente a 12 personalidades ou entidades catarinenses.

A próxima exposição está em plena produção, mas já tem nome: ‘Eu Francisco’. A proposta, segundo o artista, é provocar o santo que habita em cada um. São 20 esculturas de cerâmica que simbolizam a humildade do padroeiro dos animais.

Entre as peças, quase todas são tratadores de pássaros, como a “Mão de São Francisco”, mas Dão tem predileção por uma em especial. “O vazio é a entrega dele ao Espírito Santo, o sinal do desprendimento material”, explica.

Outra homenageia o folclore açoriano, com figuras do boi de mamão para enfeitar as vestes humildes de Francisco. A próxima etapa é levá-las ao forno e definir data e local da exposição.

Serviço 

Caminho de Nazaré

 

Ateliê e centro de vivência/casa de retiro

Rua Verônica Silva Martins S/nº

Enseada do Brito, Palhoça

Fones: 48-3242-8555 e 9991-6252

contato@caminhodenazare.com.br

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade