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Terça-Feira, 11 de Dezembro de 2018
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Cursos de corte e costura conquistam mulheres jovens e adolescentes

Atividade deixou de ser exclusividade da vovós e virou hobby de jovens interessadas em moda

Carolina Moura
Florianópolis

Débora Klempous/ND
Beatriz Cardoso Santos começou a costurar aos 14 anos e chegou a fazer um figurino para o músico Alegre Correa

Na família de Andréia Angst, de Cerro Alto, no Rio Grande do Sul, aprender a costurar era praxe. “A gente não tinha condições de com­prar as roupas que tinha na loja, e toda menina que casava tinha que ter uma máquina de costura”, conta ela, que apren­deu observando as outras mu­lheres da família. Em Floria­nópolis essa realidade parece distante, mas a costura já não é mais coisa de vovó. Cada vez mais mulheres de todas as idades procuram cursos ou se empenham de forma autodi­data para dominar a máquina e fazer suas próprias roupas.

Foi o que aconteceu com Beatriz Cardoso Santos, que começou a estudar corte e cos­tura com apenas 14 anos. “Eu gostava de desenhar e comecei a fazer desenhos de roupas”, conta ela, que foi incentivada pela mãe, Cristiane, a apren­der a costurar. “No primeiro dia ela chegou com uma ca­misa”, conta Cristiane. Agora com 16 anos, Beatriz teve que parar de fazer as aulas para se dedicar às atividades es­colares, mas pretende voltar assim que puder. Enquanto isso exercita as habilidades na máquina de costura que tem no quarto.

 

Janine Turco/ND
Na loja de aviamentos de Cristiane Bilobran, a procura pelo curso de corte e costura cresceu

 

Sejam adolescentes como ela, universitárias, ou mulhe­res adultas, a procura por esse conhecimento que era básico para gerações anteriores têm aumentado cada vez mais. É isso que percebe Andréia, que agregou vários cursos e especializações ao seu conhe­cimento familiar e abriu a Hakathi Escola de Moda, Es­tilo e Costura. O que começou na garagem de sua casa, em São José, e tomou conta da sala, agora tem uma estrutu­ra no Centro de Florianópolis que recebe cerca de 150 alu­nas por mês.

Em sua loja de aviamen­tos na Trindade, Cristiane Bilobran também sentiu essa demanda. Apesar de pesso­almente não ter interesse em costurar roupas, só arte apli­cada, ela abriu uma turma de corte e costura e percebe que a procura vem aumentando, especialmente entre mulheres jovens. “As pessoas vêm para aprender a fazer as próprias roupas. Tem uma tendência muito forte vindo da Europa e dos Estados Unidos de fazer trabalhos manuais”, explica.

Pequena estilista

Depois de fazer a primeira camisa na aula, Beatriz não parou mais de costurar. “Eu peguei o jeito da máquina rápido. Mas ainda tem algumas roupas que demoram muito para fazer, que você enjoa antes de ficar pronto”, brinca. No fim do ano, ela fez dois vestidos para si, um para o Natal e outro para o Ano Novo. E também já criou peças para suas amigas usarem em um desfile de moda na escola. As amigas de sua mãe já começaram a fazer encomendas, invertendo os tempos em que eram as mais velhas que costuravam para o resto da família.

Mas foi também uma camisa que se tornou a mais importante encomenda de Beatriz. Uma amiga de sua mãe que conhecia Alegre Correa indicou Beatriz para fazer o figurino de um dos shows do músico em Florianópolis. Ele subiu ao palco do TAC (Teatro Álvaro de Carvalho) no ano passado com uma camisa de linho cru criada por ela, com as costuras aparentes e entremeadas de fitas. O músico elogiou o trabalho da adolescente, que pensa em cursar moda no futuro.

“A professora disse que ela faz, refaz, leva mais jeito que muita menina que já faz moda e quer fazer tudo rápido sem cuidar dos detalhes”, diz a mãe de Beatriz. Agora quer aprender modelagem, para não continuar dependendo de moldes prontos, e desenho técnico, para conseguir colocar suas ideias no papel.

Difícil, mas recompensador

Ioná Araujo foi uma das clientes de Cristiane Bilobran que insistia para que a loja de aviamentos, Coisas da Cris, oferecesse aulas de corte e costura. “Sempre fui alucinada por essa coisa de customizar”, diz ela, que chegou a pensar em fazer faculdade de moda antes de se tornar veterinária. Agora ela usa um vestido com estampa de pássaros que é uma das peças que fez na aula, e que tem tudo a ver com o seu estilo. “Como eu sou gordinha, sabendo costurar posso fazer uma roupa que eu gosto e que não encontraria no meu tamanho”, diz ela.

Sem nenhum conhecimento anterior, Ioná diz que costurar é difícil. “A primeira coisa que aprendi foi a valorizar o trabalho das costureiras”, conta ela, que descobriu como o trabalho é minucioso. Mas isso não tira o prazer que tem nas aulas. Segundo Cristiane, a maior parte das alunas tem relação com a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), pela proximidade. “É bom porque você conhece pessoas diferentes que têm um interesse em comum, logo já está todo mundo trocando Facebook”, diz Ioná. E no fim, quando uma peça fica pronta, todo esforço vale a pena.

 

Janine Turco/ND
Ioná costura para fazer a roupa que deseja e dificilmente encontra

 

 

Costura para adolescentes

Costureira autodidata, Cristina Tofolo decidiu começar a fazer aulas no ano passado. Como não tinha onde deixar a filha de oito anos começou a levá-la junto para a escola e viu que ela já começou a se interessar pelas linhas e tecidos. Quando se tornou professora das turmas iniciantes na escola Hakathi, ela usou o exemplo da filha para criar uma turma para as meninas mais novas interessadas em aprender a costurar.

Esther Oliveira, de 18 anos, é uma das suas alunas do curso para adolescentes, com turmas na segunda, terça e quarta à tarde. Esther tinha vontade de cursar moda, mas acabou decidindo por fazer ciências sociais. Enquanto não começa o curso na UFSC, no segundo semestre, ela começou a fazer aulas para aprender a costurar. “Comprar roupas é muito difícil para mim. Eu não gosto de ir ao shopping, provo várias coisas e não gosto de nada”, diz ela, que tinha como experiência prévia apenas as roupinhas que fazia para suas bonecas quando criança. Agora, com apenas um mês de aula, ela já sabe fazer blusas e camisetas.

Sua colega, Luisa Wandscheer, 16, se interessou pelo mundo da moda porque trabalha como modelo. Ela pensa em fazer uma faculdade de moda no futuro, então decidiu aprender o básico primeiro. “Descobri que sou apaixonada por isso”, diz ela, que faz o curso há três meses. Na família ela tem a memória da avó, que tinha uma máquina de ferro na qual costurava sempre, e que morreu neste ano. Agora é Luisa que assume o papel de costureira da família, e já tem uma fila de espera de pedidos.

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