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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Conversas de passarinhos

Joyce troca conselhos e se identifica com os pássaros

Aline Torres
Florianópolis
Rosane Lima/ND
Joyce mostra a rolinha que protege os filhotes no meio da trepadeira

Veio como vontade de voar. Joyce Machado Vieira quando estivera engaiolada na Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor) lembrava dos pássaros da sua infância. Como o (nome) de pata quebrada que ganhou talas de palitos de fósforo confeccionadas pelo seu pai, na época que vivia em Capoeiras. Veio como canção. Quando o maestro Carlos Alberto Vieira fez das celas que aprisionaram sua adolescência palco para os ensinamentos de violino, que lembravam canto de passaredo. Veio como conselho. Funcionária Pública reconhecida, após realinhar sua vida, buscava simplicidade para calar algumas inquietações. E conseguiu através do que ela chama de “conversa de passarinho”, e explica como uma prosa conduzida pelo coração. Agora na aposentadoria usufrui o tempo livre para proteger, ao lado da companheira Paola Wentz, os seres que acompanharam sua trajetória, inspirando vontades libertárias.

Joyce vive há 17 anos numa casa aos pés do morro do Alto Ribeirão tão entranhada na mata, que diversas espécies de pássaros constroem seus ninhos no jardim, ignorando a presença dos sete cães. Durante o dia, Paola e Joyce examinam o topo das árvores ansiosas para saber se seus galhos foram transformados em berçário pelas aves. Vasculham também nas trepadeiras, nas coras das bromélias; e afastam as folhas dos pequenos arbustos atrás dos ovos.

Cada vida descoberta não é somente celebrada, é protegida. Já puseram guarda-chuva em árvore para que não chovesse num ninho; contrataram uma equipe para que transpusesse uma casinha de João de Barro para outra árvore, pois o imóvel dos bichinhos foi embargado. O cedro onde foi edificada a construção estava podre e precisou ser cortado. Mas a maior façanha da dupla foi ensinar um canário-da-telha a voar.

O exercício do voo

O primeiro voo do filhote do canário-da-telha foi mal- sucedido, deu algumas batidas de asas e logo caiu no gramado - um ambiente hostil, com predadores atentos. Por isso, Joyce se compadeceu e criou um viveiro no meio da trepadeira, que se apossa da varanda. Com uma pinça pôs ração no bico do passarinho, para que ele lembrasse como era alimentado pela mãe canário. O ritual se prolongou por um mês, mas a aproximação de Joyce com o passarinho trouxe uma preocupação: a domesticação do animal. “Então, resolvi ensiná-lo a voar”, conta.

O exercício para liberdade foi trabalhoso. Todos os dias, Joyce o levava ao pátio na expectativa que filhote entrosado com a natureza despertasse seus instintos. Mas o comportamento do canário tinha lá seus distúrbios. Ele se comportava como uma galinha – caminhando e ciscando. Sem interferências freudianas, Joyce resolveu assumir a educação do passarinho, como se fosse sua progenitora, sem penas e com 1, 65 m de altura.

Levava o canarinho para passear no jardim empoleirado no dedo indicador, aos poucos ia dando impulsos, depois o jogando alto, para que sentisse o vento. Até que numa manhã, Joyce foi escrever sobre as vivências da sua imaginação enquanto dormia: “Tive um sonho com ele, conversamos um pouco, coisas de passarinho, trocamos alguns conselhos e finalmente ele deu seu maior voo”. Nesse dia o canário-da-telha entendeu que tinha asas e partiu.

A mata virou altar

Há mais de um ano, Joyce entrou na mata para desentupir a mangueira que levava água do morro até sua casa. Água encanada é novidade na região. Estressada com a tarefa, foi soltando palavrões, aos berros. A bicharada foi se afastando. Só um animal não fugiu. Ao contrário: veio, indignado, na direção da invasora.  Com as asas incrivelmente velozes, o delicado beija-flor ficou paradinho no ar e, à altura dos olhos dos seus, deu-lhe uma senhora bronca, cara a cara.  Joyce ficou sem ação. Tomada de surpresa, ela ouviu a reprimenda calada, culpada. Foram necessárias suas lágrimas para apaziguar o alado morador da mata. Daquele dia em diante, Joyce passou a entrar no local com reverência, como se pisasse em solo sagrado.

Conselhos para a vida

Joyce conhece a personalidade de espécies distintas de pássaros. O siriri tem marra de brigão, combate até com sua imagem refletida no vidro da janela, às vezes, é mal quisto pelos vizinhos por carregar trapos e montar sua pequena favela. Os tucanos são tímidos. As gralhas, traiçoeiras. As rolinhas maternais, jamais abandonam o ninho. Na observação da passarinheira cada um deles tem algo a ensinar.

“O que eu mais gosto é como vivem com simplicidade. Após criarem os filhotes abandonam os ninhos, não precisam de nada, estão prontos para chuva e para o sol. Sabem apreciar a liberdade”, conta como alguém que conhece de perto as prisões.

Para remediar as asas que não tem, Joyce criou suas fórmulas: basta algumas notas do violino, alçapões desarmados na floresta, gaiolas alheias quebradas e um sopro da penugem da cauda do bichinho liberto, lá se vão os passarinhos, voando direto para suas histórias. 

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